Um levantamento revelou que existem 143 milhões de cães vivendo nas ruas ao redor do mundo. O estudo, realizado pela Mars Petcare, considerou dados de mais de 900 fontes globais para analisar a vida de animais de rua em mais de 20 países.
No entanto, há um país que não faz parte dessa estatística e conseguiu zerar o número de cães abandonados sem recorrer à eutanásia: a Holanda (Países Baixos). O país alcançou esse feito após um trabalho que começou há mais de 100 anos.
Para atingir esse resultado notável, a Holanda contou com uma série de medidas essenciais, já que o problema não é visto apenas como uma questão de saúde pública, mas também como um desafio ético e moral para a sociedade.

O que levou ao abandono desses animais?
Embora os cães fossem valorizados — símbolo de status para os ricos e de trabalho para os pobres —, uma epidemia de raiva no século XIX levou ao abandono em massa, mudando a percepção sobre a posse e os cuidados com esses animais.
O que é considerado um cão abandonado na Holanda?
- Cães soltos: mesmo tendo dono, se ficam parcialmente livres durante o dia, são considerados de rua.
- Cães abandonados: deixados por seus tutores.
- Cães comunitários: não têm um dono específico, mas são cuidados por uma comunidade.
- Cães selvagens: não são cuidados por ninguém e vivem por conta própria.

Imposto sobre cães não funcionou
Assim como na Alemanha, a Holanda tentou cobrar um imposto sobre cães, mas a medida saiu pela culatra: muitas pessoas não conseguiram ou não quiseram pagar, resultando em mais abandonos.
Medidas que deram certo!
No entanto, o país adotou outras medidas que ajudaram no controle dos animais de rua e na responsabilidade dos tutores, o que fez com que a Holanda conseguisse zerar a taxa de abandono de animais.
1. Agência protetora dos animais
A primeira agência de proteção animal foi criada em 1864, colocando os direitos dos animais no centro das questões sociais do país. Hoje, maus-tratos a animais são levados a sério: os responsáveis podem receber multas de até US$ 18.539 e até três anos de prisão.
2. Impostos na compra de cães
Algumas cidades passaram a tributar fortemente a compra de cães em lojas, incentivando a adoção em abrigos. Isso ajudou a abrir espaço para cães de rua serem acolhidos.

3. Iniciativa governamental (CNVR)
O governo lançou um programa nacional chamado CNVR (Collect, Neuter, Vaccinate, Return — em português: Coletar, Castrar, Vacinar e Devolver), oferecendo serviços veterinários essenciais, como castração e vacinação, para cães abandonados.
4. Força policial especializada
Foi criada uma polícia dedicada aos animais, responsável por investigar crimes contra eles e auxiliar em resgates. Além disso, o Partido para os Animais atua para defender seus direitos e bem-estar.

E no Brasil?
No Brasil, 25% dos cães estão em situação de abandono (cerca de 20,2 milhões), e aproximadamente 177 mil vivem em abrigos. O mais triste é que muitos tutores consideram abandonar seus pets: 11% dos donos de cães e 13% dos de gatos pensam na possibilidade para os próximos 12 meses. Entre os motivos, se destacam:
- Incapacidade física de cuidar (28%)
- Mudança de residência
Apesar de existirem leis como a Lei Federal 9.605/98 (que considera abandono como crime de maus-tratos) e a Lei 14.064/2020 (que aumenta a pena para quem abandona cães ou gatos), não há fiscalização rigorosa nem conscientização suficiente sobre a responsabilidade de ter um animal.
Olhando para o exemplo da Holanda, fica claro que, para mudar a realidade dos animais domésticos no Brasil, é necessário um plano estruturado, desde a mudança de mentalidade até políticas públicas bem implementadas, além de paciência para que as transformações ocorram gradualmente.

