É bem provável que você já tenha visto esta foto – talvez muitas vezes. Ela circula em livros didáticos, documentários, redes sociais, exposições e museus. A imagem registra o Desembarque da Normandia, ocorrido em 6 de junho de 1944, o célebre Dia D (D-Day) da Segunda Guerra Mundial, eternizado no cinema por “O Resgate do Soldado Ryan” (1998), estrelado por Tom Hanks e grande elenco. Por isso, muitos a reconhecem simplesmente como “a foto do Dia D”. Mas, por trás dessa imagem icônica, há uma história que vai muito além de um clique de rotina.
Into the Jaws of Death (“Nas mandíbulas da morte” ou “Nas garras da morte”, em tradução livre) é o título original da fotografia, feita por Robert F. Sargent, fotógrafo da Guarda Costeira dos Estados Unidos. A cena retrata a Praia de Omaha, na Normandia, França – um dos principais pontos de desembarque das forças Aliadas. Foi ali que, entre junho e julho de 1944, milhares de soldados, sobretudo norte-americanos, avançaram sob fogo inimigo em uma das operações mais decisivas da Segunda Guerra Mundial.
Aquela operação militar anfíbia – chamada Operação Overlord – foi a maior da história. Envolveu milhares de aeronaves, navios, soldados, equipes não combatentes e lanchas especialmente projetadas para a missão, além de um gigantesco esforço para manter tudo em absoluto sigilo. A Inglaterra foi o grande ponto de partida, onde o grosso das unidades se concentrou, à espera de um sinal positivo do clima.
O que estava em jogo? A libertação da França, após quatro anos de ocupação nazista, e, se tudo saísse conforme o plano, uma retumbante derrota das forças do Eixo após cinco anos de guerra. Estima-se que cerca de 4.440 soldados aliados foram mortos na operação, de acordo com a Comissão de Túmulos de Guerra da Commonwealth, com mais de 5.800 soldados feridos ou desaparecidos. Mas a missão foi bem-sucedida, pois, para os nazistas, a Normandia abriu uma nova e imparável frente.
Visão matinal do inferno
A foto do Dia D foi tirada por volta das 7h40 da manhã, no setor “Easy Red” da Praia de Omaha. Em preto e branco, o registro de Robert F. Sargent mostra soldados norte-americanos da 1ª Divisão de Infantaria (conhecida como “The Big Red One”) desembarcando de uma embarcação de transporte, o LCVP (Landing Craft, Vehicle, Personnel), e avançando pela água em direção à praia sob intenso fogo inimigo. O dia estava nublado, o mar agitado, e as ondas fortes faziam os homens balançar de um lado para o outro, provocando enjoo, desequilíbrio e ainda mais tensão diante do que os esperava em terra firme.
Tirada da rampa do LCVP, a foto dá ao espectador a sensação de estar junto dos soldados, prestes a enfrentar o inimigo, de cara para o perigo. É uma visão aterrorizante, com um quê futurista ainda hoje. O título Into the Jaws of Death vem da ideia de que aqueles homens estavam entrando literalmente “nas mandíbulas da morte”, ecoando versos do poema The Charge of the Light Brigade (1854), de Alfred Tennyson, sobre a Brigada Ligeira britânica na Batalha de Balaclava, durante a Guerra da Crimeia.
III
Canhões à direita deles,
Canhões à esquerda deles,
Canhões à frente deles
Troavam e trovejavam;
Alvejados por bala e granada,
Corajosamente cavalgavam, e bem,
Nas mandíbulas da Morte,
Na boca do inferno,
Cavalgavam os seiscentos.
O fotógrafo da “Foto do Dia D”
Robert Fred Sargent nasceu em Summit, Nova Jersey, em 19 de julho de 1918. Fotógrafo e suboficial da Guarda Costeira dos Estados Unidos, Sargent foi designado para documentar a invasão. Ele respondia como Chefe de Fotografia da Guarda Costeira. Ao lado de uma equipe de fotógrafos e de filmagem, ele viajou a bordo do U.S.S. Samuel Chase, parte do Grupo de Tarefa 124.3, e esteve ao lado dos primeiros soldados a desembarcarem nas praias francesas. Viu tudo atentamente.

Na época, o Correspondente de Combate da Guarda Costeira, Thomas Winship, escreveu um comunicado à imprensa com várias fotografias feitas por Sargent no desembarque na França. Esse comunicado tem a famosa “foto do Dia D” e vários trechos de uma incrível carta que Sargent enviara a Winship, narrando os eventos dramáticos que testemunhara.
“Quando a hora H finalmente chegou, eu senti uma mistura de orgulho e puro medo. Eu temia e, ao mesmo tempo, aguardava este momento há meses. Quando veio a ordem ‘Lower Away’ (baixar o barco), tudo estava silencioso, apenas o rangido dos guindastes e os comentários sussurrados dos homens podiam ser ouvidos. Os soldados estavam em silêncio.
Mais do que qualquer outra coisa, eles temiam a travessia difícil até a praia. Estávamos frios e encharcados até os ossos antes mesmo de começar nossa travessia de dez milhas até a costa, enquanto o mar revolto quebrava sobre nossa proa quadrada. À medida que a força-tarefa atrás de nós desaparecia na luz da manhã, olhamos à frente em busca do nosso primeiro vislumbre da França”.
O documento, que pode ser lido na íntegra aqui, a partir do original, em inglês, é um dos mais impressionantes testemunhos da Segunda Guerra Mundial, e nos ajuda a entender melhor a famosa fotografia de Sargent.
“A fumaça da batalha e o amanhecer criavam uma visão estranha. Passamos pelo navio de controle e, quase sem diminuir a velocidade, ele nos lançou em direção à praia. Ao nos aproximarmos da costa, tudo o que podíamos ver era uma praia devastada e solitária, e um único LCVP, parecendo um caixão abandonado e encalhado na beira d’água, com um tanque atolado na arrebentação.
A fumaça pairava sobre tudo, e, quando o timoneiro acelerou para entrar na praia, vimos os obstáculos cobertos de sangue inimigo – um emaranhado de toras, arame farpado e minas ocultas. Mais adiante na praia, podíamos ver as bocas dos canhões inimigos lançando tiros para o ar, perto de outras embarcações de desembarque, mas a praia em si parecia sem vida. Seríamos os primeiros a desembarcar naquele ponto.”
Sargent fez aquela “foto do Dia D” e muitas outras durante a guerra, inclusive em outras praias, antes da França, como em Salerno e na Sicília, Itália, em setembro de 1943. Mas foi a bordo da LCVP que ele fez o clique que se tornaria sua obra-prima. Sargent faleceu ainda jovem, aos 50 anos de idade, em 27 de março de 1969, mas seu nome ainda ecoa pelos livros de fotografia e da Segunda Guerra Mundial. Porque é graças a ela que podemos ver o que ele e tantos outros soldados viram naquele 6 de junho, como quem estava “nas mandíbulas da morte”.
Baixe a imagem
Veja e baixe gratuitamente “Into the Jaws of Death” aqui. A imagem integra o Catálogo do Arquivo Nacional, parte do fundo “Europa – Invasão da Normandia”, do Grupo de Registros 26, Registros da Guarda Costeira dos EUA. Série: Fotografias de Atividades, Instalações e Personalidades. São quase 7.000 imagens desta série, todas elas disponíveis para visualização e download no Catálogo do Arquivo Nacional dos Estados Unidos.

