Este é o segundo de uma série de três artigos sobre a polarização política brasileira.
No primeiro texto, apresentamos os principais argumentos de um eleitor de direita para defender Jair Bolsonaro, seu governo e os valores associados ao bolsonarismo.
Neste segundo artigo, faremos o exercício oposto: assumiremos a perspectiva de quem se identifica com a esquerda e encontra em Luiz Inácio Lula da Silva e no Partido dos Trabalhadores a principal representação política desse campo.
No terceiro artigo — “Narrativa pronta, pensamento terceirizado” — analisaremos como os dois grupos selecionam informações, transformam suspeitas em certezas, justificam os erros dos próprios líderes e condenam comportamentos semelhantes quando praticados pelo adversário.
Antes de questionarmos as narrativas, porém, é necessário compreender por que elas convencem tantas pessoas.
Vamos, portanto, ao outro lado dessa história.
POR QUE EU DEFENDO LULA?
Eu defendo Luiz Inácio Lula da Silva porque vejo nele a trajetória de alguém que nasceu pobre, enfrentou a fome, tornou-se operário, liderou trabalhadores e chegou à Presidência da República.
Sua história representa, para milhões de brasileiros, a possibilidade de uma pessoa deixar as camadas mais pobres da sociedade e alcançar o cargo mais importante do país.
Lula não fala apenas sobre pobreza. Ele viveu a pobreza.
Não conheceu a fome por meio de relatórios, pesquisas ou discursos acadêmicos. Conheceu dentro de casa. Por isso, seus apoiadores acreditam que ele compreende problemas que muitos governantes enxergam apenas em planilhas.
Defendo Lula porque acredito que governar não significa apenas apresentar bons números econômicos. Significa fazer com que o crescimento chegue à mesa do trabalhador, à casa da família pobre, à escola pública e ao posto de saúde.
UM GOVERNO PARA QUEM MAIS PRECISA
A esquerda parte do entendimento de que as pessoas não começam a vida nas mesmas condições.
Enquanto algumas nascem em famílias estruturadas, com moradia, alimentação, escola de qualidade e acesso à saúde, outras enfrentam fome, violência, desemprego e falta de oportunidades desde a infância.
Dizer que todos precisam apenas se esforçar ignora que alguns começam a corrida muitos quilômetros atrás.
Por isso, defendo a atuação do Estado na redução das desigualdades.
Programas como Bolsa Família, Minha Casa, Minha Vida, Mais Médicos, Farmácia Popular e políticas de acesso ao ensino técnico e superior representam oportunidades concretas para milhões de brasileiros.
Para os críticos, essas políticas criam dependência e servem para conquistar votos. Para seus defensores, elas oferecem condições mínimas para que uma pessoa consiga estudar, trabalhar e construir a própria autonomia.
Uma criança com fome não aprende. Uma família sem moradia não possui estabilidade. Uma pessoa sem atendimento médico não consegue trabalhar.
Antes de cobrar produtividade, é preciso garantir dignidade.
O COMBATE À FOME COMO PRIORIDADE
Uma das principais razões para eu defender Lula é sua insistência no combate à fome.
Em um dos maiores produtores de alimentos do mundo, é moralmente inaceitável que famílias não saibam o que colocar na mesa no dia seguinte.
O mercado é importante para produzir riqueza, mas não resolve sozinho todas as desigualdades. Se resolvesse, o Brasil não teria convivido durante tanto tempo com crescimento econômico e pobreza extrema no mesmo território.
O Bolsa Família não deve ser entendido apenas como distribuição de dinheiro. Ele também está relacionado à permanência das crianças na escola, ao acompanhamento de saúde e à proteção de famílias em situação de vulnerabilidade.
Quem nunca passou fome pode considerar pequeno o valor recebido. Para quem não possui renda, ele pode representar leite, arroz, feijão e gás de cozinha.
Defender esse tipo de programa não significa desejar que as pessoas permaneçam pobres. Significa impedir que a pobreza retire delas qualquer possibilidade de mudança.
VALORIZAÇÃO DO SALÁRIO MÍNIMO E DO TRABALHADOR
Também defendo a esquerda porque acredito que o trabalho precisa proporcionar uma vida digna.
Não basta celebrar a criação de empregos se parte considerável deles paga salários insuficientes para alimentação, moradia, transporte e outras necessidades básicas.
Os governos de Lula adotaram políticas de valorização real do salário mínimo. Quando o reajuste supera a inflação, há aumento do poder de compra de trabalhadores, aposentados e pensionistas.
Esse dinheiro retorna rapidamente à economia. A família compra no mercado, paga contas, adquire roupas e movimenta o comércio local.
Para uma pessoa de renda elevada, um pequeno reajuste pode não representar nada. Para milhões de brasileiros, qualquer ganho real produz diferença concreta no orçamento.
Por isso, considero equivocada a ideia de que somente o empresário produz riqueza. O trabalhador também produz, consome, paga impostos e sustenta a atividade econômica.
Capital e trabalho precisam conviver. O que a esquerda questiona é uma relação na qual o lucro aumenta enquanto o salário permanece incapaz de atender às necessidades mais básicas.
EDUCAÇÃO COMO INSTRUMENTO DE TRANSFORMAÇÃO
Outra razão para defender Lula está na ampliação do acesso à educação.
Universidades e institutos federais foram interiorizados, permitindo que jovens de cidades distantes dos grandes centros tivessem acesso ao ensino público. Programas de bolsas, financiamento estudantil e políticas de inclusão também ampliaram a presença de estudantes pobres, negros e oriundos de escolas públicas no ensino superior.
Os críticos afirmam que houve expansão sem qualidade suficiente e questionam critérios adotados em determinados programas. Essas discussões são legítimas.
Entretanto, não se pode ignorar o que significou para milhares de famílias ver o primeiro filho entrar em uma universidade.
Durante muito tempo, o ensino superior brasileiro foi privilégio de uma pequena parcela da população. A chegada de filhos de pedreiros, empregadas domésticas, agricultores e trabalhadores às universidades públicas alterou uma estrutura histórica.
Para a esquerda, educação não é gasto. É investimento social, econômico e humano.
SAÚDE PÚBLICA E PRESENÇA DO ESTADO
Defendo Lula porque considero indispensável a existência de um sistema público de saúde.
O SUS possui falhas, filas e carências. Mas é ele que atende milhões de brasileiros que não podem pagar planos particulares, realiza transplantes, promove campanhas de vacinação, distribui medicamentos e mantém serviços de urgência em todo o país.
A retomada do Mais Médicos e do Farmácia Popular é apresentada pelo governo como parte do esforço para ampliar o atendimento, principalmente nas periferias e nos municípios mais distantes.
Quem vive nos grandes centros pode discutir livremente qual profissional deseja consultar. Em muitas localidades do interior, a realidade é outra: antes de escolher o médico, é preciso conseguir que algum médico esteja disponível.
É nesse espaço que a presença do Estado se torna necessária.
DEMOCRACIA E RESPEITO ÀS INSTITUIÇÕES
Também defendo Lula porque considero que a democracia brasileira foi colocada sob tensão durante o governo Bolsonaro.
Questionar instituições é legítimo. Nenhum tribunal, parlamentar, governante ou veículo de comunicação deve ficar acima das críticas.
O problema surge quando críticas sem provas suficientes alimentam a desconfiança contra o sistema eleitoral e criam a impressão de que somente um determinado resultado será legítimo.
Bolsonaro lançou repetidas suspeitas sobre as urnas eletrônicas. Após sua derrota, parte de seus apoiadores permaneceu diante de quartéis pedindo intervenção militar. Em 8 de janeiro de 2023, as sedes dos Três Poderes foram invadidas e depredadas.
Nem todo eleitor de Bolsonaro apoiou aqueles atos. Seria injusto responsabilizar milhões de pessoas pelo comportamento de grupos específicos.
Ainda assim, para quem defende Lula, aquele episódio demonstrou que o discurso contra as instituições produziu consequências perigosas.
Lula passou a representar, nesse contexto, a preservação do resultado eleitoral e da alternância democrática de poder.
A CONDUÇÃO DA PANDEMIA
Outro motivo para eu rejeitar o bolsonarismo e apoiar Lula está na condução da pandemia de Covid-19.
Bolsonaro minimizou a gravidade da doença em diferentes momentos, promoveu medicamentos sem eficácia comprovada, criticou medidas sanitárias e entrou em conflitos envolvendo a vacinação.
Seus apoiadores argumentam que governadores e prefeitos também possuíam responsabilidades e que nenhum presidente poderia impedir todas as mortes. Isso é verdade.
Uma pandemia mundial não pode ser explicada por uma única autoridade.
Entretanto, o presidente da República possui enorme capacidade de orientar comportamentos, coordenar políticas e transmitir confiança. Quando essa liderança contradiz recomendações científicas ou transforma a saúde em disputa ideológica, seus atos podem produzir consequências.
Defender Lula também significa, para mim, defender maior respeito à ciência, às vacinas, às universidades e às instituições de pesquisa.
PROTEÇÃO DO MEIO AMBIENTE
O Brasil possui uma das maiores riquezas ambientais do planeta. A Amazônia, o Cerrado, o Pantanal e os demais biomas não são obstáculos ao desenvolvimento. São patrimônios estratégicos.
Durante o governo Bolsonaro, o crescimento do desmatamento e os conflitos com órgãos de fiscalização prejudicaram a imagem internacional do país.
A retomada de políticas de combate ao desmatamento, da fiscalização ambiental e da interlocução com outros países representa, para os apoiadores de Lula, a recuperação da responsabilidade brasileira nessa área.
Proteger o meio ambiente não significa impedir a produção rural ou abandonar o desenvolvimento econômico. Significa exigir que o crescimento ocorra dentro da lei e sem comprometer os recursos das futuras gerações.
O agronegócio responsável também depende de água, equilíbrio climático, previsibilidade e preservação.
O BRASIL DE VOLTA AO CENÁRIO INTERNACIONAL
Defendo Lula porque considero que o Brasil precisa dialogar com diferentes países.
Nenhuma grande nação constrói relevância internacional isolando-se ou limitando suas relações a governos ideologicamente semelhantes.
Lula retomou relações diplomáticas, participou de fóruns internacionais e buscou aproximar o Brasil de países da América Latina, África, Europa e Ásia.
Seus críticos apontam contradições nas relações com governos autoritários, especialmente Venezuela, Cuba e Nicarágua. Essa crítica é legítima. A defesa da soberania não deveria servir como silêncio diante de violações democráticas.
Entretanto, manter relações diplomáticas não significa necessariamente concordar com todas as práticas de outro governo. O Brasil também negocia com países conservadores, monarquias e regimes que possuem valores diferentes dos nossos.
Diplomacia não é amizade pessoal. É defesa de interesses nacionais.
A ECONOMIA NÃO É APENAS PARA O MERCADO
Quando analistas dizem que “o mercado ficou nervoso”, é necessário perguntar quem exatamente está nervoso e por quê.
A economia não pode ser analisada apenas pela reação da Bolsa de Valores, pela cotação do dólar ou pelas expectativas de instituições financeiras.
Esses indicadores são importantes, mas também são importantes o emprego, o salário, o preço dos alimentos, o acesso à moradia e a capacidade das famílias de consumir.
Defendo responsabilidade fiscal. Nenhum governo pode gastar indefinidamente sem consequências. Dívida, inflação e desequilíbrio nas contas públicas atingem principalmente os mais pobres.
Porém, responsabilidade fiscal não pode significar abandono social.
O desafio de um governo de esquerda é equilibrar as contas sem transformar trabalhadores, aposentados e famílias pobres nos únicos responsáveis pelo ajuste.
E AS DENÚNCIAS DE CORRUPÇÃO?
Esse é o ponto mais difícil para quem defende Lula e o PT.
Mensalão, casos investigados pela Lava Jato e outros escândalos deixaram marcas profundas. Negar que houve corrupção ou fingir que tudo foi invenção política não ajuda a esquerda.
Houve crimes, condenações e esquemas envolvendo agentes públicos, empresários, dirigentes e partidos de diferentes campos.
As condenações de Lula foram posteriormente anuladas porque a Justiça entendeu que a vara responsável não possuía competência para julgar os casos e, em uma das ações, reconheceu a parcialidade do então juiz Sergio Moro. Isso devolveu seus direitos políticos, mas não apagou todas as dúvidas existentes na sociedade.
O eleitor de esquerda costuma argumentar que Lula foi perseguido, que houve utilização política da Justiça e que as investigações contribuíram para sua retirada da eleição de 2018.
Também destaca que grandes esquemas de corrupção não surgiram com o PT e não desapareceram depois dele.
Esses argumentos precisam ser considerados. Mas não podem servir para tratar toda denúncia como perseguição ou para absolver moralmente qualquer pessoa apenas porque pertence à esquerda.
Combater a corrupção exige a mesma régua para aliados e adversários.
LULA NÃO É TODA A ESQUERDA
Assim como Bolsonaro não representa toda a direita, Lula não é proprietário da esquerda brasileira.
Existem socialistas, social-democratas, progressistas, ambientalistas, trabalhistas e pessoas que defendem políticas sociais, mas criticam o PT, suas alianças e seus métodos.
Também existem eleitores que votaram em Lula não por admiração, mas por rejeição a Bolsonaro.
A esquerda é maior que um partido e precisa continuar existindo independentemente de qualquer liderança individual.
Transformar Lula em uma figura incapaz de errar seria repetir o mesmo comportamento que a esquerda critica nos seguidores mais fiéis de Bolsonaro.
POR QUE, APESAR DOS ERROS, EU CONTINUARIA À ESQUERDA?
Eu continuaria defendendo a esquerda porque acredito na redução das desigualdades, na valorização do trabalho, na proteção dos mais pobres, no fortalecimento dos serviços públicos, na preservação ambiental e na garantia de oportunidades para quem nasceu em condições desfavoráveis.
Continuaria reconhecendo em Lula a liderança política que colocou a fome no centro do debate, ampliou políticas sociais e permitiu que milhões de brasileiros se sentissem representados no poder.
Mas apoio não deveria significar submissão.
Lula erra quando minimiza regimes autoritários aliados, quando aceita acordos políticos contraditórios, quando amplia gastos sem explicar claramente como serão sustentados ou quando seus apoiadores tratam toda crítica como preconceito, golpismo ou ameaça à democracia.
Também erra a esquerda quando imagina possuir superioridade moral automática.
Defender os pobres não torna ninguém incorruptível. Falar em democracia não autoriza abusos. Proteger minorias não elimina a obrigação de respeitar quem pensa de maneira diferente.
Ainda assim, para seus apoiadores, as falhas de Lula não anulam aquilo que ele representa: mobilidade social, valorização do trabalhador, combate à fome, inclusão e resistência ao bolsonarismo.
Essa é a narrativa de quem defende Lula.
Agora que apresentamos os argumentos dos dois lados, chegamos à parte mais importante da série.
No terceiro artigo, “Narrativa pronta, pensamento terceirizado”, deixaremos temporariamente as arquibancadas e examinaremos o jogo.
Vamos analisar por que o erro do nosso político sempre possui uma explicação, enquanto o erro do adversário confirma tudo o que já pensávamos sobre ele.
Porque talvez o maior problema brasileiro não seja apenas escolher entre Lula e Bolsonaro.
Talvez seja continuar tratando políticos como santos, partidos como religiões e eleições como campeonatos nos quais a verdade pode ser sacrificada desde que o nosso lado vença.
Por Nelson Alves – Nova Olímpia-MT (17/09/2026)








