Há momentos em que uma democracia precisa parar de perguntar:
“Quem é o mocinho?”
E começar a perguntar:
“O que acontece se o mocinho não vier?”
Porque uma República verdadeiramente madura não pode depender da existência de homens bons.
Precisa ser construída para sobreviver também aos homens maus.
O Brasil tem Constituição.
Tem Congresso.
Tem Supremo Tribunal Federal.
Tem Ministério Público.
Tem Polícia Federal.
Tem tribunais de contas.
Tem eleições.
Tem imprensa.
Tem partidos.
Tem uma infinidade de mecanismos de controle.
No papel, temos quase tudo.
Então por que a sensação de impotência?
Porque talvez tenhamos cometido um erro fundamental:
CONFUNDIMOS INSTITUIÇÃO COM HOMEM QUE OCUPA A INSTITUIÇÃO.
Uma instituição pode ser perfeita no desenho e vulnerável na operação.
Uma regra pode ser excelente e sua aplicação ser péssima.
Um freio pode existir — e ninguém puxá-lo.
Um contrapeso pode estar previsto — e permanecer imóvel.
E quando isso acontece, não estamos diante da ausência de instituições.
Estamos diante de algo potencialmente mais perigoso:
INSTITUIÇÕES CAPAZES DE SER CAPTURADAS.
15 DE SETEMBRO DE 2026
Talvez a imagem mais simbólica dessa crise tenha ocorrido justamente dentro do Supremo.
O STF reuniu-se extraordinariamente para discutir um caso envolvendo informações da Polícia Federal relacionadas ao Banco Master e menções ao ministro Alexandre de Moraes.
O detalhe extraordinário?
O Tribunal discutia se a questão poderia ser investigada.
Mas o mérito não chegou a ser examinado.
A discussão concentrou-se no rito e na possibilidade de reunir duas petições. O placar estava em 4 a 3 quando o ministro Flávio Dino pediu vista, suspendendo o julgamento.
Nunes Marques declarou-se impedido.
Dias Toffoli declarou suspeição.
E o próprio STF passou a discutir como deveria lidar com uma situação que envolvia integrantes da própria Corte.
Não precisamos atribuir intenções.
O fato já é suficientemente perturbador:
O MÉRITO NÃO FOI EXAMINADO.
E o julgamento ficou sem data definida para retomada, embora o prazo regimental informado seja de até 90 dias para devolução do pedido de vista.
Isso não prova conspiração.
Mas prova uma coisa:
O SISTEMA ENTROU NUMA ZONA DE CONFLITO INSTITUCIONAL QUE NÃO PODE SER TRATADA COMO NORMALIDADE.
E A PERGUNTA CONTINUA
Se um ministro do Supremo for suspeito de cometer um crime, quem investiga?
Se a investigação envolver a própria Corte, quem controla o procedimento?
Se o Senado não exerce sua função de responsabilização, qual mecanismo externo o substitui?
Se a Polícia Federal for questionada, quem fiscaliza a investigação?
Se o Ministério Público estiver sob suspeita, quem fiscaliza o fiscal?
E se todos esses mecanismos estiverem funcionando mal ao mesmo tempo?
QUEM CONTROLA QUEM CONTROLA?
Essa não é uma pergunta de esquerda.
Não é uma pergunta de direita.
É uma pergunta de sobrevivência republicana.
E NÃO SE TRATA APENAS DO STF
Imagine que amanhã a direita conquiste a Presidência.
Ou a esquerda.
Pouco importa para o raciocínio.
O novo presidente poderá indicar ministros quando surgirem vagas.
Mas a indicação não é absoluta: depende da aprovação do Senado.
E 2026 já produziu um precedente histórico.
Em abril, o Senado rejeitou por 42 votos a 34 a indicação de Jorge Messias ao STF — a primeira rejeição de uma indicação ao Supremo em 132 anos.
Isso demonstra algo que frequentemente esquecemos:
O PODER NÃO ESTÁ NUMA ÚNICA MÃO.
O problema começa quando as mãos que deveriam se controlar passam a funcionar como uma única engrenagem.
É aí que a República fica vulnerável.
O PERIGO NÃO É O HOMEM MAU.
Homens maus sempre existiram.
Políticos corruptos sempre existiram.
Juízes erram.
Ministros erram.
Presidentes erram.
Parlamentares erram.
Investigadores erram.
Jornalistas erram.
Todos são humanos.
O PERIGO É O HOMEM MAU DESCOBRIR QUE NÃO PODE SER CONTROLADO.
Essa é a diferença.
Uma democracia não precisa encontrar uma geração de santos.
Precisa construir uma máquina institucional capaz de dizer:
NÃO.
Não importa quem esteja sentado na cadeira.
POR ISSO, TALVEZ ESTEJAMOS DISCUTINDO A COISA ERRADA
A discussão política brasileira está obcecada por:
quem será o próximo presidente;
quem serão os próximos ministros;
quem controlará o Congresso;
quem ganhará a eleição.
Tudo isso importa.
Mas existe uma pergunta anterior:
QUE BRASIL ESSE VENCEDOR RECEBERÁ?
E outra ainda mais importante:
QUE BRASIL ELE DEIXARÁ?
Porque se o sistema continuar dependendo da virtude pessoal de quem ocupa cada cargo, estaremos sempre a uma eleição de distância de uma nova crise.
NÃO PRECISAMOS DE SALVADORES.
Precisamos de travas.
Precisamos de instituições que desconfiem umas das outras — não por paranoia, mas por desenho constitucional.
Precisamos de mecanismos capazes de investigar poderosos.
De Congresso capaz de fiscalizar.
De Senado capaz de dizer não.
De Ministério Público capaz de investigar independentemente.
De Polícia Federal protegida contra captura política.
De Judiciário independente — e também responsável.
De imprensa livre — e também questionável.
De eleições auditáveis.
De cidadãos vigilantes.
E, principalmente:
DE MECANISMOS QUE FUNCIONEM MESMO QUANDO OS HOMENS QUE OS OPERAM NÃO FUNCIONAREM.
É ISSO QUE SIGNIFICA UMA DEMOCRACIA ADULTA.
Não confiar que o próximo presidente será bom.
Não confiar que o próximo ministro será bom.
Não confiar que o próximo senador será bom.
Não confiar que o próximo procurador será bom.
Não confiar que o próximo policial será bom.
Não confiar que o próximo jornalista será bom.
CONFIAR NO SISTEMA PORQUE O SISTEMA NÃO PERMITE QUE NENHUM DELES TENHA PODER ABSOLUTO.
Essa é a verdadeira engenharia da liberdade.
E TALVEZ ESTE SEJA O GRANDE PONTO CEGO DO BRASIL.
Estamos discutindo há décadas quem deve mandar.
Quando deveríamos estar discutindo:
QUEM TEM PODER PARA IMPEDIR QUEM MANDA?
Porque amanhã o poder pode mudar de lado.
E se as regras forem ruins, o problema simplesmente muda de endereço.
Hoje pode ser a esquerda.
Amanhã pode ser a direita.
Depois, outra coisa.
O PODER NÃO TEM IDEOLOGIA.
Quem o ocupa tem.
E poder sem freio tende a gostar de qualquer ideologia que o mantenha no poder.
POR ISSO, NÃO É HORA DE NEPALIZAR O BRASIL.
É hora de fazer algo muito mais difícil:
BRASILIZAR A DEMOCRACIA.
Construir um sistema que não precise de heróis.
Um sistema que não precise de salvadores.
Um sistema que não precise acreditar na pureza de ninguém.
Um sistema que consiga sobreviver aos seus próprios erros.
Porque talvez a maior ingenuidade de uma República seja imaginar:
“Desta vez colocaremos as pessoas certas.”
Não.
Desta vez precisamos construir regras capazes de sobreviver às pessoas erradas.
Esse deveria ser o projeto.
Não para 2026.
Não para a esquerda.
Não para a direita.
PARA O BRASIL.
Porque uma democracia realmente forte não é aquela que coloca homens bons no poder.
É aquela que faz com que:
ATÉ OS HOMENS MAUS TENHAM DIFICULDADE DE FAZER O MAL.
PONTO CEGO
O problema nunca foi apenas quem está no poder.
É o que o poder consegue fazer quando ninguém consegue controlá-lo.
CONSTRUA UM PAÍS ONDE HOMENS MAUS TENHAM DIFICULDADE DE FAZER ESTRAGOS.
Paulo Laurentino é Artista Plástico e Publicitário








