quinta-feira, 13 junho 2024
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O verdadeiro lobo brasileiro

Não me entenda mal, gentil leitor: sou um fã de longa data do lobo-guará (Chrysocyon brachyurus), um dos bichos mais lindos desta parte do mundo. Mas o nome popular que deram a esse canídeo não passa de propaganda enganosa. De lobo ele não tem quase nada. Outra criatura que só existe por estas bandas merece muito mais a designação lupina. O verdadeiro lobo brasileiro, minha gente, é o cachorro-vinagre (Speothos venaticus), conforme um novo estudo deixa bastante claro.

É possível que quem já tenha visto o bicho em questão esteja segurando a risada ao ler isso. De fato, além da designação (“vinagre”? Sério?), que não inspira terror algum, parece haver algo de intrinsecamente fofucho naquele corpo atarracado e na cara de ursinho de pelúcia. A espécie não costuma passar dos 7 kg, ora bolas.

Acontece que, apesar de sua distribuição geográfica ampla, o cachorro-vinagre ainda é, em grande medida, um mistério. “Arrisco dizer que sabemos mais sobre o Tyrannosaurus rex do que sobre ele”, disse-me o biólogo Juan Vítor Ruiz, doutorando da Unesp de São José do Rio Preto (SP). Discreto, o animal é difícil de monitorar na natureza. “Muito do que é dito sobre essa espécie vem de observações em zoológicos e anedotas, conhecimento indígena e bate-papo de sertanistas, contado de boca a boca ao longo dos últimos séculos e publicado em livros populares.”

 

Esse relativo desconhecimento inclui os detalhes das técnicas de caça dos cachorros-vinagre. Diante dessa limitação e da dificuldade de deslocamentos ocasionada pela pandemia, a equipe da qual fazem parte Ruiz e seu orientador Felipe Montefeltro resolveu fazer uma simulação computacional da mordida da espécie, com base em modelos tridimensionais de seu crânio, gerados a partir de tomografias.

O trabalho incluiu ainda uma comparação com os modelos 3D dos crânios e mordidas de lobos (Canis lupus) e de raposas-cinzentas (Urocyon cinereoargenteus). A escolha das espécies se justifica porque, de um lado, tal como os lobos, o cachorro-vinagre é o que os especialistas chamam de hipercarnívoro —ou seja, mais de 70% de sua dieta é composta por vertebrados. Já as raposas-cinzentas comem tanto carne quanto frutas e insetos (tal como o lobo-guará, aliás) e são mais ou menos do tamanho do cachorro-vinagre.

Na pesquisa, que deve sair em breve no periódico científico Journal of Anatomy, a equipe se concentrou principalmente no papel dos dentes caninos e carniceiros (esses últimos são, digamos, os “fatiadores de carne” da boca dos carnívoros). Os pesquisadores examinaram também como eles se comportariam em tarefas como perfurar o corpo da vítima, puxá-la para trás com a força da mordida e sacudi-la de um lado para o outro. E levaram em conta, além disso, o nível de estresse ao qual os crânios dos bichos ficam submetidos durante a mordida.

Resultado: embora o cachorro-vinagre tenha algumas semelhanças com a raposa-cinzenta, seu “estilo” de ataque e a resiliência de seu crânio lembram muito mais os dos lobos. “Isso corrobora o conhecimento popular, que retrata esse bicho como um hábil predador de mamíferos de médio e grande porte, às vezes muito maiores do que ele”, resume Ruiz.

Há relatos sobre grupos de cachorros-vinagre abatendo capivaras e porcos-do-mato e até subjugando antas, por exemplo. E não é por acaso —embora tenha apenas um sétimo da massa corporal de um lobo, a mordida do animal tem metade da força de seu primo do hemisfério Norte, revelou a análise. Em vez de um ursinho de pelúcia, temos um Hércules nanico em nossas matas.

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