O processo que corre na Justiça do Trabalho de Tangará da Serra sobre o desaparecimento de um operador de trator em área de risco no Pará, há mais de 20 anos, ganhou novos capítulos nesta semana. Depois da condenação de uma cooperativa agroindustrial e de um fazendeiro em julho de 2025, a filha da vítima e a viúva trouxeram novos relatos emocionantes sobre a busca por justiça e as versões contraditórias apresentadas desde o sumiço.
Em julho, conforme mostrou o Plantão TGA, a 2ª Vara do Trabalho de Tangará condenou os réus ao pagamento de R$ 150 mil por danos morais à filha de Antônio Carlos Santos, além de pensão retroativa. O Tribunal Regional do Trabalho de Mato Grosso manteve a decisão, destacando a omissão dos empregadores, que chegaram a oferecer recompensa pelo trator supostamente furtado, mas nunca demonstraram empenho em procurar o trabalhador. O caso foi remetido à Unidade de Monitoramento de Direitos Humanos e pode chegar até a Corte Interamericana.
Agora, em entrevista ao portal Eh Fonte, Hyorrana Santos, filha de Antônio, contou que sua luta é pela dignidade do pai.
“Eu coloquei no meu coração que ia seguir em frente na Justiça porque queria limpar o nome do meu pai, que não ficasse manchado como um ladrão, porque ele não era”, desabafou.
Hyorrana tinha apenas seis anos quando o pai desapareceu em Novo Progresso (PA), em 2003, após ser levado por Wilson Rotta para trabalhar na cooperativa Comajal. A região, conhecida por conflitos fundiários e extração ilegal de madeira, é apontada pelo Ministério Público como uma das mais violentas do país.

Versões contraditórias e silêncio
A viúva, Olivete Santos, de 62 anos, relatou que, após o desaparecimento, recebeu diferentes versões do contratante. Em uma delas, o marido teria fugido com outra mulher; em outra, teria roubado um trator. “Mas como assim roubar um trator? Ninguém viu nada? Ninguém fez nada? Eu sabia, sentia que era mentira”, afirmou emocionada.
Documentos sumiram
O processo previdenciário inicial prescreveu, mas a família, com apoio da advogada Wanessa Franchini, insistiu no reconhecimento da responsabilidade trabalhista. Em 2021, a Justiça declarou a morte presumida de Antônio Carlos, permitindo a continuidade da ação.
Rotta, segundo registros oficiais, ainda é proprietário de áreas em Novo Progresso e foi multado no ano passado em mais de R$ 10 milhões por desmatamento ilegal, além de responder a outros processos ambientais no Ibama e no ICMBio.

