Uma relação de harmonia inesperada entre o tatu-canastra e as abelhas no Cerrado tem gerado novas práticas de conservação ambiental. Com Projeto Canastras e Colmeias, coordenado por Márcio Donha, uma relação inusitada entre apicultores e a fauna local começou a se transformar.
De acordo com Márcio, o principal objetivo do projeto é promover uma convivência harmônica entre os apicultores e o tatu-canastra.
Para isso, a equipe busca minimizar os prejuízos causados pelos tatus aos apiários, ao mesmo tempo em que se assegura a conservação da espécie, que enfrenta sérias ameaças, como a perda de habitat e o ritmo lento de reprodução.

Apesar de sua dieta tradicionalmente composta por formigas e cupins, o tatu-canastra encontrou nas colmeias uma alternativa rica em proteína, especialmente em períodos de escassez alimentar.
“A degradação do Cerrado, causada pelo desmatamento e a expansão agrícola, levou o tatu-canastra a buscar fontes de alimento mais acessíveis, como as larvas das abelhas nos apiários”, explica Márcio.
No entanto, essa aproximação gerou atritos. Muitos apicultores relataram prejuízos às suas colmeias, mas não acreditavam que o tatu fosse o responsável.
“Era difícil imaginar que um animal desse porte pudesse causar tanto impacto”, detalha Márcio.
Com isso, retaliações contra os “gigante das tocas” eram comuns, agravando a situação de uma espécie já ameaçada de extinção.
No caso do Cerrado do Mato Grosso do Sul, com a colaboração de 10 associações de apicultores, os pesquisadores mapearam 178 apiários.
Do total, 73% tiveram danos causados por tatus-canastra nos últimos 5 anos e 46%, no último ano.
Equipando os apiários com câmeras e promovendo estudos sobre o comportamento do tatu-canastra, a equipe de pesquisadores trouxe informações valiosas para os apicultores.
Vídeos revelaram os hábitos alimentares do tatu, desvendando seu comportamento e oferecendo dados valiosos para melhorar a convivência.
“Quando os apicultores viram como o tatu se comportava, começaram a adotar métodos sugeridos pelo projeto para proteger as colmeias sem prejudicar o animal”, destaca Márcio.
Essas práticas incluem barreiras físicas e técnicas para dificultar o acesso do tatu às colmeias, sem que o animal seja lesionado.

Além disso, vídeos e informações compartilhados entre os prórpio apicultores também têm ampliado o entendimento sobre a espécie e a aceitação do tatu como parte do ecossistema..
Além de reduzir prejuízos, o projeto oferece incentivos econômicos. Apicultores que implementam as medidas recebem o selo “Amigo do Tatu Canastra”, reconhecido internacionalmente.
“Esse selo agrega valor aos seus produtos, especialmente o mel, pois transmite aos consumidores que os apicultores estão envolvidos em práticas sustentáveis e colaborando para a conservação de uma espécie ameaçada e para a preservação do Cerrado”, afirma Márcio.
Outra iniciativa de destaque é o Projeto Rainhas, que ajuda apicultores a reconstruírem seus apiários após prejuízos, fornecendo abelhas-rainhas de alta qualidade.

Por que preservar o tatu-canastra?
Mais do que um predador ocasional de larvas de abelhas, o tatu-canastra é considerado um “engenheiro do ecossistema”.
Suas tocas oferecem abrigo para diversas espécies do Cerrado, um dos biomas mais ricos e ameaçados do Brasil. Preservar o tatu significa proteger a biodiversidade local e garantir o equilíbrio ecológico.
“O tatu-canastra é um “engenheiro do ecossistema”, criando tocas que abrigam outras espécies. Preservar isso significa proteger diversas outras formas de vida que dependem de suas ações”, reflete Márcio.


