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Violência doméstica: especialistas dizem que qualquer um pode se tornar agressor, inclusive seu filho

 

“O exemplo vem de casa”. Será que o ditado popular é aplicável quando se discute o perfil dos agressores de mulheres? Segundo especialistas, os homens que cometem violência doméstica não são necessariamente fruto de um lar violento ou possuem em comum a idade, a classe social e nem a formação escolar.

Muitas vezes, no entanto, eles são “construídos” ao longo de uma infância de “omissões” dos responsáveis que resultam em fragilidade emocional, falta de habilidade para gerenciar conflitos e na absorção de uma cultura machista. Traços de personalidade que podem ter início em outra expressão bem comum: “isso é coisa de criança”, usada com tanta frequência por pais e educadores que não se propõe a enfrentar o problema.

Parte dessas constatações estão na dissertação de mestrado da psicóloga portuguesa Carina Tatiana Menchero Caldeira. O trabalho – “Perfil Psicopatológico de Agressores Conjugais e Fatores de Risco” – é uma das pesquisas acadêmicas entre as mais citadas no ramo da Psicologia, quando o assunto é violência doméstica.

Carina Caldeira buscou fazer uma descrição da saúde mental de agressores de mulheres. Para isso, analisou 30 homens portugueses que já cumpriam pena por crime de violência doméstica. A pesquisa avaliou nestes homens, entre outros itens, os seguintes:

  • a presença de sintomas psicopatológicos;
  • se existem diferenças relativas à idade e aos sintomas apresentados;
  • quais os comportamentos violentos mais adotados;
  • a relação entre a idade, o nível socioeconômico, de escolaridade e o tipo de comportamentos violentos adotados.

No texto, Catarina Caldeira argumenta: compreender os agressores – “os comportamentos agressivos no seu reportório comportamental, a forma como os utilizam, para que os utilizam e mais importante que isso, o porquê de alguns sujeitos recorrerem a este tipo de comportamento” – é uma das vias para se prevenir este tipo de crime.

E se psicólogos já têm acesso a um perfil de como se “criam” esses agressores, seria possível evitar que seu filho se transforme em um?

(Fonte: Perfil Psicopatológico de Agressores Conjugais e Fatores de Risco – Carina Tatiana Menchero Caldeira)

Fragilidade emocional

Crianças brincam e, eventualmente, essas brincadeiras se transformam em brigas. Situações de conflito, no entanto, em geral, são oportunidades de aprendizado. Mas essas oportunidades podem estar sendo desperdiçadas quando os pais tentam resolver o problema com a clássica frase “isso é coisa de criança”, concordam a psicóloga e psicanalista Caroline Weiss e o pedagogo Luciano da Silva Pereira.

Na avaliação de Caroline Weiss, a adoção desse tipo de postura por parte dos adultos pode resultar em crianças que reprimem seus sentimentos e que, portanto, crescem sem saber lidar com eles.

“Os adultos já têm um entendimento formado sobre o que seria um comportamento de criança e, por isso, não param para escutá-las. É preciso compreender que a criança é um ser que sabe sobre si. Ela sabe porque agiu de determinada forma e, algumas vezes, nós é que fazemos uma interpretação errada dessa ação”, diz a psicóloga.

Capacidade de gerenciar conflitos

Em sua dissertação de mestrado, Carina Caldeira identificou que, entre os homens agressores que serviram como base para a pesquisa, era comum uma “hipersensibilidade em relação a opiniões e atitudes alheias”. Eles relataram, por exemplo, “sentir-se ferido com facilidade” e “ter a sensação que os outros não o compreendem”.

“São vistos também como indivíduos com baixa tolerância à frustração, e daí a hipersensibilidade evidenciada, bastante rígidos e como uma certa dificuldade em procurar soluções alternativas”, diz trecho do estudo.

(Foto: Arquivo da internet)

Luciano Pereira, pedagogo que atua na rede estadual de ensino, também vê como problemática a atitude de pais que apenas interpretam como normais certas atitudes dos filhos, sem questioná-los.

“Existem comportamentos que são claros na intenção e os adultos não podem confundir  essa intencionalidade. Em alguns casos, a autoridade masculina já está presente na atitude das crianças. É aquele clássico ‘eu posso fazer isso, porque sou menino e você não'”.

O pedagogo diz que um exemplo claro disso, visto por ele diariamente nas escolas, são disputas por espaços: meninas sendo agredidas por meninos que acreditam que elas não poderiam participar de alguma atividade ou estar em determinado local ocupado por eles.

“Pode ser que essa criança não compreenda porque ela está agindo assim e é justamente, por isso, que temos que conversar com elas sobre isso”.

Cultura machista

Luciano Pereira e Leiliane Cristina Borges, ambos professores, notam uma semelhança: os casos de violência física entre as crianças são mais comuns entre as mais novas, ou seja,  estudantes do 1º ao 5º ano do ensino fundamental.

“Passada essa fase, é a idade em que as meninas e os meninos começam a se relacionar mais, como namorados. A partir daí, a postura delas muda. Elas deixam de revidar e passam a esconder que foram agredidas”, relata Leiliane Borges.

A professora interpreta a mudança de comportamento como uma absorção do que a sociedade prega de maneira velada ao longo da vida dessas meninas: homens podem fazer determinadas coisas que mulheres não podem.

Caroline Weiss concorda que meninas que crescem vivenciando situações em que direitos e deveres são partilhados de forma diferente, de acordo com o gênero, podem se ver como inferiores e que, por isso, não podem denunciar.

Ela lembra, no entanto, que para muitas mulheres, se calar é uma questão de sobrevivência. Um entendimento que Carina Caldeira também compartilha em sua tese de mestrado.

(Fonte: Perfil Psicopatológico de Agressores Conjugais e Fatores de Risco – Carina Tatiana Menchero Caldeira)

Uma geração ainda mais violenta

Luciano e Leiliane, todavia, notam que mesmo a violência entre as crianças mais novas parece vir se intensificando. A professora diz ter percebido que os meninos voltaram às aulas presenciais – após o período da pandemia – mais “irritados” e agressivos. Já o pedagogo tem notado uma sexualidade aflorada cada vez mais cedo.

“A violência, com certeza, está mais latente. E uma situação crescente nas escolas é a de meninos que passam a mão nas meninas. Com essa sexualização dos corpos cada vez mais presente, principalmente nas redes sociais, é comum eles dizerem que acham que podem fazer isso, porque elas estão agindo de uma forma sensual”, diz Luciano.

Leiliane afirma ainda que boa parte dessas crianças tem a percepção de que a violência doméstica ou de gênero não é algo punido pela sociedade. “Eles mesmos dizem que não adianta chamar a polícia e falam isso porque vivenciam ou ficam sabendo de situações em que a polícia não resolve mesmo os casos”.

Para Caroline Weiss, mudar esse cenário depende da desconstrução de muitas posturas consideradas normais pela sociedade. Grávida de um menino, a psicóloga chega a se perguntar: o mundo está preparado para acolher um homem feminista?

(Foto: Arquivo da internet)

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