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Crônica – Genival Soares, o homem da roça que venceu no cinema

Há vitórias que não cabem apenas em um troféu. Há conquistas que carregam poeira de estrada, cheiro de terra molhada, marcas de enxada, silêncio de sítio e a coragem de quem nunca deixou a arte morrer dentro de si.

A vitória de Genival Soares como Melhor Ator no Festival Cinemato, junto com a consagração do curta “O Belo Ouro” como Melhor Curta do Festival, é uma dessas histórias que merecem ser contadas com o coração aberto. Não é apenas a premiação de um ator. É o reconhecimento de uma trajetória inteira, construída longe dos grandes centros, distante dos holofotes fáceis, mas muito perto daquilo que a arte tem de mais verdadeiro: a vida real.

Genival é de Nova Olímpia. Mais do que isso, é do interior do interior. É homem da zona rural, pequeno produtor, trabalhador da agricultura familiar, morador de sítio. Divide seus dias entre a lida com os animais, os cuidados com a propriedade, os sonhos de um trabalho biossustentável e a inquietação de artista que nunca se apaga. É daqueles que podem sair do curral e entrar em cena com a mesma verdade no olhar.

Talvez seja justamente aí que esteja sua força. Genival não interpreta a vida de longe. Ele conhece a dureza do chão. Conhece a solidão de quem mora na roça e precisa dar conta de tudo. Conhece o peso de se deslocar para a capital, a dificuldade de deixar a propriedade, a responsabilidade com a família e com o trabalho rural. Por isso, quando a notícia chegou, na madrugada, informando que ele havia sido escolhido o melhor ator e que o curta estrelado por ele também havia vencido, não era apenas uma boa notícia. Era um daqueles momentos raros em que a vida parece dizer: valeu a pena.

E valeu.

Valeu cada ensaio, cada cena, cada improviso, cada palco montado, cada jovem incentivado, cada roda de capoeira, cada apresentação de maculelê, cada cenário construído, cada maquete de cena, cada lembrança de uma Nova Olímpia que já respirou mais arte pelas mãos de gente como ele.

Quem conhece Genival sabe que sua história não começou agora. Antes de chegar ao cinema com esse reconhecimento, ele já era referência nas artes cênicas regionais. Passou pelos grupos de jovens, pelos festivais de quadrilha, pela capoeira, pelo teatro e por tantas manifestações culturais que ajudaram a formar uma geração. Seu nome carrega memória. Carrega escola. Carrega estrada.

No cinema, sua presença também vem ganhando espaço. Além de “O Belo Ouro”, Genival participou de produções nacionais como “Cidade Invisível”, gravado na Amazônia em 2010, e, em 2025, dos filmes “Pardais Coroa Branca”, dirigido por Ângela Coradini e Felippy Damian, e “Religare”, com direção de Maritê Azevedo.

Mas talvez o mais bonito em Genival seja que, mesmo premiado, ele continua sendo o homem simples da roça. O artista que não faz questão de esconder sua origem. Ao contrário, faz dela sua bandeira. Sua fala, seu jeito caipira, sua vivência rural e sua verdade interior não são obstáculos para a arte. São sua assinatura.

O prêmio de Melhor Ator no Festival Cinemato não muda quem Genival é. Apenas revela, para mais gente, aquilo que muitos já sabiam: existe talento grande morando em lugar pequeno. Existe cinema no interior. Existe arte no sítio. Existe potência criativa fora dos grandes palcos. Existe um ator de Nova Olímpia, vindo da zona rural, levando consigo a alma de Mato Grosso para a tela.

“O Belo Ouro” venceu como melhor curta. Genival venceu como melhor ator. E Nova Olímpia, mesmo talvez ainda sem compreender totalmente o tamanho dessa conquista, também venceu.

Porque quando um pequeno produtor rural, homem da agricultura familiar, morador de sítio, artista resistente e referência cultural regional sobe ao lugar mais alto de um festival, ele não sobe sozinho. Com ele sobem os antigos alunos, os parceiros de cena, os jovens que um dia foram inspirados por sua arte, a cultura popular, a zona rural e todos aqueles que acreditam que talento não tem endereço fixo.

Genival Soares é prova viva de que a arte, quando é verdadeira, encontra caminho. Mesmo que esse caminho passe por estrada de chão.

Por Nelson Alves – Click Nova Olímpia

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