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PONTO CEGO – A CAMINHO DO VOTO

O monólogo interior de uma mente politicamente consciente

Fechei a porta.
Não estou indo apenas votar.
Estou indo decidir.
E há uma diferença enorme entre as duas coisas.
Durante semanas, ouvi candidatos.
Vi discursos.
Vi ataques.
Vi promessas.
Vi vídeos de quinze segundos tentando resolver problemas de quinze anos.
Vi gente dizendo que o outro lado destruirá o país.
Vi o outro lado dizendo exatamente a mesma coisa.
E, por alguns momentos, quase acreditei.
Quase.
Hoje não quero ouvir mais ninguém.
Quero ouvir o que ficou depois que todos pararam de falar.
Desço a rua.
É estranho.
A cidade parece absolutamente normal.
Padaria aberta.
Ônibus passando.
Gente trabalhando.
Criança indo para a escola.
Um cachorro atravessando a rua.
E penso:
é para isso que existe política.
Não para a televisão.
Não para a internet.
Não para o discurso inflamado.
Para esta rua.
Para o preço das coisas.
Para a segurança.
Para a escola.
Para o hospital.
Para o emprego.
Para a liberdade.
Para o futuro de quem ainda nem nasceu.
A política é invisível quando funciona.
Mas entra pela porta de casa quando não funciona.
Tenho seis votos pela frente.
Deputado federal.
Deputado estadual.
Senador.
Senador.
Governador.
Presidente.
O TSE confirma essa ordem na urna.
Seis escolhas.
E percebo uma coisa:
eu nunca deveria ter tratado essas seis escolhas como se fossem uma só.
Cada cargo tem atribuições diferentes.
Cada pessoa eleita ocupará um lugar diferente dentro do sistema.
Então por que eu passei tanto tempo procurando apenas um nome?
Talvez porque seja mais fácil escolher uma pessoa do que compreender uma República.
Chego ao primeiro cruzamento.
Penso no deputado federal.
Não estou escolhendo um presidente menor.
Estou escolhendo alguém para a Câmara dos Deputados.
Preciso saber o que esse cargo realmente faz.
Preciso saber o que o candidato promete.
E, principalmente:
o que ele poderá efetivamente fazer depois de eleito?
Não quero confundir promessa com competência institucional.
Não quero entregar ao candidato poderes que ele não terá.
Nem cobrar dele aquilo que pertence a outro Poder.
Isso também é responsabilidade minha.
Continuo andando.
Lembro das mensagens que recebi.
“Vote em fulano.”
“Não vote em sicrano.”
“Se você votar em X, estará salvando o Brasil.”
“Se votar em Y, estará destruindo o Brasil.”
Quantas vezes o medo foi apresentado como informação?
Quantas vezes a indignação foi apresentada como argumento?
Quantas vezes uma frase verdadeira foi usada para produzir uma conclusão que ela, sozinha, não sustentava?
Penso:
informação não é conhecimento.
Eu já sabia disso.
Mas hoje percebo outra coisa:
conhecimento também não é julgamento.
Ainda preciso decidir o que fazer com aquilo que sei.
Chego perto do local de votação.
E penso nos candidatos que pesquisei.
Não apenas nos vídeos.
Não apenas nos discursos.
Procurei os registros oficiais.
O TSE mantém o DivulgaCandContas, onde estão disponíveis dados como situação do registro, bens declarados, propostas, arrecadação e despesas de campanha.
Isso muda a pergunta.
Não quero saber somente:
“O que ele diz?”
Quero saber:
“O que está documentado?”
São perguntas diferentes.
Entro.
Identificação.
Orientação.
A espera.
Olho para a tela da urna.
Ainda não votei.
E tenho alguns segundos.
Talvez seja o momento mais silencioso de toda a campanha.
Porque agora não existe comentarista.
Não existe influencer.
Não existe militante.
Não existe amigo.
Não existe grupo de WhatsApp.
Não existe algoritmo.
Existe apenas:
eu, a urna e a consequência daquilo que estou prestes a fazer.
Primeiro voto.
Deputado federal.
Digito.
Confiro.
Não estou procurando perfeição.
Estou fazendo uma escolha dentro daquilo que consegui conhecer.
Segundo voto.
Deputado estadual.
Mais uma vez:
quem ocupará esse cargo e para quê?
Terceiro.
Senador.
Quarto.
Senador.
Duas vagas.
Duas escolhas diferentes.
A própria regra eleitoral exige candidatos diferentes nas duas vagas; repetir o mesmo número faz com que o segundo voto seja anulado.
É curioso.
Passei meses discutindo a Presidência.
E agora percebo que já tomei quatro decisões antes mesmo de chegar a ela.
Governador.
Agora penso no Estado.
Não posso transferir automaticamente para ele tudo aquilo que atribuo ao presidente.
Responsabilidades são diferentes.
Orçamentos são diferentes.
Competências são diferentes.
Problemas são compartilhados, mas os poderes não são idênticos.
Conhecer essa diferença também é votar.
Último voto.
Presidente.
A tela me mostra nomes, números, fotografias.
E, por um instante, toda a campanha parece caber naquele pequeno espaço.
Meses de discursos.
Debates.
Acusações.
Promessas.
Medos.
Esperanças.
Memes.
Mentiras.
Verdades.
Meias-verdades.
Tudo comprimido em alguns centímetros de tela.
E então percebo:
a urna não sabe o que me convenceu.
Ela só registra minha escolha.
Meu dedo se aproxima.
E surge uma última pergunta.
Não:
“Quem todo mundo está mandando eu escolher?”
Nem:
“Quem derrotará o outro lado?”
Nem:
“Quem fala melhor?”
Nem:
“Quem promete mais?”
A pergunta é mais simples.
E mais difícil:
“Eu sei por que estou escolhendo?”
Silêncio.
Sim.
Ou não.
Se não sei, talvez eu tenha chegado à urna antes de chegar à minha decisão.
Se sei, assumo a responsabilidade.
Aperto.
A confirmação aparece.
FIM.
Saio.
E ninguém sabe em quem votei.
Nem precisa saber.
Porque o voto secreto não foi criado para esconder a responsabilidade do eleitor.
Foi criado para proteger sua liberdade de escolha.
Caminho de volta.
A cidade continua igual.
O cachorro ainda atravessa a rua.
O ônibus continua passando.
A padaria continua aberta.
Nada parece ter mudado.
Mas alguma coisa mudou.
Eu participei da escolha de quem exercerá poder sobre esta cidade, este Estado e este país.
Agora começa outra parte da cidadania.
Acompanhar.
Cobrar.
Conferir.
Lembrar.
Não transformar eleito em ídolo.
Não transformar adversário em inimigo.
Não terceirizar minha consciência para um partido, um líder, uma emissora, um influenciador ou um algoritmo.
Porque votar uma vez a cada quatro anos é apenas o começo.
A democracia não termina quando a urna confirma o voto.
É justamente ali que começa a responsabilidade de quem votou.
Volto para casa.
E penso:
Talvez eu tenha levado apenas alguns minutos para votar.
Mas precisei de muito mais tempo para decidir.
Era para ser assim.

Paulo Laurentino é Publicitário e Artista Plástico

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