O período das convenções partidárias deveria representar um momento importante da democracia. É quando partidos confirmam candidaturas, apresentam seus projetos e explicam à sociedade quais caminhos pretendem seguir. Na prática, porém, essa temporada frequentemente se transforma em uma grande negociação de cargos, tempo de propaganda, estrutura eleitoral e espaços em um eventual governo.
Nas convenções deste ano, realizadas entre 20 de julho e 5 de agosto, o eleitor precisa observar não apenas os discursos feitos nos palanques, mas principalmente quem está dividindo o mesmo palanque. É nesse momento que antigas convicções desaparecem, adversários históricos se abraçam e acusações feitas até poucos meses antes são convenientemente esquecidas.
A política permite diálogo, mudança de posição e construção de consensos. Ninguém precisa permanecer eternamente inimigo de ninguém. O problema começa quando a reconciliação não acontece em torno de um projeto para a população, mas apenas para garantir candidatura, indicar um vice, ocupar uma suplência ou conquistar secretarias depois da eleição.
É nesse ponto que surgem as chamadas alianças espúrias. Não necessariamente ilegais, mas moralmente questionáveis: uniões sem coerência programática, costuradas longe dos olhos do eleitor e sustentadas somente pelo interesse circunstancial de seus integrantes.
Em Mato Grosso, todas as portas parecem abertas
Mato Grosso oferece exemplos claros de como as fronteiras partidárias estão cada vez mais flexíveis. Enquanto lideranças discursam sobre direita, esquerda, conservadorismo, oposição ou continuidade, os bastidores revelam conversas em praticamente todas as direções.
O Podemos, por exemplo, informou que mantém diálogo com diferentes grupos e não descarta composição com nenhum dos principais projetos colocados na disputa estadual. Seu presidente estadual, Max Russi, já admitiu conversas com lideranças ligadas às pré-candidaturas de Otaviano Pivetta, Wellington Fagundes e Jayme Campos.
Conversar não é pecado político. Pelo contrário: o diálogo é indispensável à democracia. Mas, quando um partido considera apoiar projetos concorrentes e ideologicamente distintos, surge uma pergunta inevitável: qual é, afinal, o projeto defendido? O desenvolvimento do estado, uma proposta administrativa específica ou simplesmente a chapa que oferecer melhores espaços?
No União Brasil, a convenção marcada para 30 de julho deverá decidir entre o lançamento da candidatura própria do senador Jayme Campos e o apoio à reeleição do governador Otaviano Pivetta, do Republicanos. A disputa interna expõe interesses e estratégias diferentes dentro da mesma legenda: uma ala defende candidatura própria, enquanto outra trabalha pela continuidade da atual composição governista.
Já o PL oficializou Wellington Fagundes para o Governo e José Medeiros para o Senado, mas deixou indefinidas a vaga de vice e parte das alianças. Ao mesmo tempo, lideranças da sigla tentam convencer prefeitos e setores internos que demonstram simpatia por outro projeto eleitoral. A legenda chegou às convenções ainda procurando ampliar sua composição, depois de anunciar aproximação com o Novo e buscar diálogo com o Podemos.
Nada disso é proibido. Mas tudo isso precisa ser explicado.
O eleitor não pode ser tratado como alguém que apenas confirma, nas urnas, acordos fechados em salas reservadas. Quem muda de lado deve dizer por quê. Quem se une a um antigo adversário precisa mostrar qual proposta comum tornou possível essa aproximação. E quem passou anos criticando determinado grupo tem obrigação moral de explicar por que agora considera esse mesmo grupo adequado para governar.
O abraço que apaga o passado
Um dos aspectos mais constrangedores das convenções é a facilidade com que discursos antigos são abandonados.
Políticos que se acusaram de incompetência aparecem sorrindo lado a lado. Lideranças que prometeram combater determinado grupo passam a defendê-lo. Adversários que trocaram ofensas públicas transformam-se, de uma hora para outra, em aliados indispensáveis.
As divergências pessoais desaparecem porque surgiu uma vaga de vice. As convicções partidárias ficam em segundo plano porque existe uma suplência ao Senado disponível. A defesa da ética é relativizada porque determinado apoio pode render alguns segundos a mais na propaganda ou uma estrutura maior nos municípios.
Depois, diante das câmeras, tudo recebe nomes mais elegantes: “união pelo estado”, “maturidade política”, “convergência de projetos” ou “construção coletiva”.
Algumas alianças podem, de fato, nascer de uma convergência legítima. Entretanto, quando não existe apresentação de propostas, reconhecimento dos antigos conflitos ou explicação sobre as mudanças de posição, o discurso de união corre o risco de servir apenas como embalagem para o oportunismo.
A política não deveria ser um mercado no qual princípios são colocados na mesa e trocados por cargos.
Ideologia no discurso, conveniência na prática
Em períodos eleitorais, muitos candidatos tentam dividir a população em campos ideológicos rígidos. Apresentam-se como representantes exclusivos da direita, da esquerda, do centro, do conservadorismo ou do progressismo. Usam essas classificações para despertar paixões, medos e rejeições.
Nos bastidores, contudo, as divisões são bem menos rígidas.
Partidos que se atacam nacionalmente fazem acordos regionais. Grupos que se apresentam como oposição podem apoiar integrantes do governo. Lideranças que condenam determinadas práticas aceitam alianças com personagens que, pouco tempo antes, simbolizavam tudo aquilo que diziam combater.
A ideologia, nesse contexto, passa a ser usada apenas para conquistar o voto. Depois da eleição, cede lugar à conveniência.
Por isso, o eleitor não deve analisar somente a fotografia da convenção ou o discurso preparado para as redes sociais. Precisa conhecer o histórico dos candidatos, comparar declarações antigas, observar como votaram, identificar quem financia e sustenta suas campanhas e verificar quais grupos estarão juntos na administração.
Não basta perguntar em quem o candidato acredita. É preciso perguntar com quem ele está andando e por que decidiu caminhar ao lado dessas pessoas.
O eleitor não pode aceitar qualquer explicação
As eleições serão novamente marcadas por palavras cuidadosamente escolhidas: renovação, mudança, experiência, responsabilidade, liberdade, democracia, família, justiça social e desenvolvimento.
Todas são importantes. Mas nenhuma delas possui valor quando não é acompanhada de coerência.
O candidato que fala em renovação, mas se cerca das mesmas figuras de sempre, precisa ser questionado. O que promete combater privilégios, mas negocia cargos antes mesmo da eleição, também. Aquele que defende valores morais, mas aceita qualquer composição para chegar ao poder, deve ser confrontado com sua própria contradição.
O eleitor precisa desconfiar das frases prontas, dos vídeos emocionantes e das promessas genéricas. Precisa observar se o discurso apresentado hoje combina com as atitudes de ontem.
Também deve rejeitar a falsa ideia de que toda crítica a uma aliança representa intolerância política. Não se trata de defender que adversários jamais conversem. Trata-se de exigir que acordos eleitorais tenham fundamentos públicos, objetivos claros e algum compromisso programático.
Uma aliança democrática é aquela em que as partes dizem à população o que pretendem realizar juntas. Uma aliança oportunista é aquela em que todos falam de união, mas ninguém explica o que foi negociado.
Pessoas de bem também precisam demonstrar coerência
É comum que candidatos se apresentem como “pessoas de bem”. A expressão, porém, não pode ser apenas uma ferramenta de propaganda.
Pessoa de bem não é aquela que simplesmente repete valores religiosos, familiares ou patrióticos em discursos. É aquela que age com honestidade, coerência, responsabilidade e respeito ao interesse público.
Quem condena uma prática quando está na oposição não pode aceitá-la quando se torna beneficiário. Quem acusa um adversário durante anos não pode abraçá-lo na convenção sem explicar claramente o que mudou. Quem afirma colocar a população em primeiro lugar não pode transformar a eleição em um projeto exclusivamente pessoal ou familiar.
Caráter político se revela principalmente quando manter uma convicção custa alguma coisa.
É fácil defender princípios quando eles coincidem com os próprios interesses. Difícil é preservá-los quando uma aliança vantajosa, um cargo ou uma candidatura estão em jogo.
O voto como resposta
As convenções partidárias mostram quem estará junto durante a campanha. Mas caberá ao eleitor decidir se essas composições merecem confiança.
Antes de votar, é necessário pesquisar. Comparar falas antigas e atuais. Observar as mudanças de partido. Verificar quais alianças foram construídas e quais interesses estão representados. Questionar candidatos, cobrar propostas concretas e não se deixar conduzir apenas pela paixão ideológica.
O eleitor consciente não entrega seu voto a uma sigla, a uma cor ou a uma frase de efeito. Ele analisa comportamentos.
Quando políticos percebem que a população esquece rapidamente suas contradições, sentem-se livres para realizar qualquer acordo. Quando sabem que serão cobrados, precisam pensar duas vezes antes de abandonar suas próprias bandeiras.
As convenções deste mês não devem ser vistas somente como festas partidárias. Elas são vitrines das escolhas, das concessões e das verdadeiras prioridades de cada grupo.
O eleitor precisa olhar além dos abraços, das bandeiras e dos discursos ensaiados. Porque, quando as convicções são esquecidas para atender a projetos pessoais, o preço da aliança não é pago apenas pelos partidos.
É pago por toda a sociedade.
Em tempo: O termo “alianças espúrias” foi empregado como crítica ética e política às composições sem coerência ou transparência, e não como acusação de ilegalidade.







