Neste 1º de Maio, o convite não é apenas para comemorar, mas para refletir. Uma questão simples, porém urgente, nos desafia: o que significa, realmente, ser trabalhador no Brasil de hoje?
É essencial esclarecer, desde o início, a quem nos referimos. O trabalhador não se limita a quem possui uma carteira assinada. Ele é um conceito amplo que abrange aquela pessoa que produz, sustenta e constrói. Inclui não apenas empregados, mas também servidores públicos, militares, autônomos, microempreendedores, empresários, investidores e até aqueles que realizam tarefas em casa frequentemente sem salário e sem o devido reconhecimento.
Essas diferentes faces do trabalhador compartilham uma realidade comum: a necessidade do trabalho para garantir uma vida digna. No entanto, devemos nos perguntar: essa dignidade está sendo realmente assegurada?
DE ONDE VIEMOS E O QUE ESQUECEMOS
O Dia do Trabalhador não nasceu de um gesto simbólico. Nasceu da dor e da luta.
Sua origem está em movimentos que reivindicavam algo que hoje parece básico: limitar a jornada a oito horas diárias. Antes disso, o trabalho consumia a vida inteira. Não havia equilíbrio. Não havia limite. Havia exploração.
O Brasil carrega uma herança ainda mais dura. Por séculos, o trabalho foi marcado pela escravidão, um sistema que reduziu pessoas à condição de mercadoria, transformou vidas em instrumentos de produção e tratou o esforço humano como algo descartável e indigno de valorização.
Mudamos as leis. Mudamos o discurso. Mas a pergunta que precisa ser feita é direta: mudamos, de fato, a lógica?
UM PAÍS QUE PRODUZ MUITO E ENTREGA POUCO A QUEM MAIS TRABALHA
O Brasil nunca produziu tanto. A tecnologia avançou, a produtividade bate recordes e a capacidade de gerar riqueza é inquestionável.
Dados recentes confirmam esse cenário: o país atingiu um novo recorde na safra de grãos, com 346,1 milhões de toneladas em 2025, o maior volume da série histórica.
Ainda assim, há um incômodo persistente, como uma pedra no sapato que impede o país de caminhar com equilíbrio: quem produz, quem de fato coloca a mão na massa, muitas vezes ainda enfrenta dificuldades para acessar plenamente aquilo que ajuda a gerar.
Estados como Mato Grosso lideram a produção de alimentos que abastecem o mundo. Soja, carne e grãos cruzam fronteiras, geram divisas e fortalecem a balança comercial. O país exporta em dólar, negocia em moeda forte e se insere em um mercado global altamente competitivo. Mas o trabalhador brasileiro recebe em real.
E é nesse ponto que surge uma pergunta inevitável. O que acontece quando quem ganha em moeda fraca precisa comprar, dentro do próprio país, produtos cujos preços são influenciados pelo mercado internacional?
Na prática, instala-se uma distorção difícil de ignorar. É como trabalhar ganhando cinco e consumir pagando vinte e cinco. É como plantar, colher e, na hora de comer, não conseguir se sentar à mesa.
O resultado é um sentimento legítimo de injustiça. Produtos gerados com terra, água, trabalho, crédito subsidiado e com estrutura e infraestrutura financiadas pelos impostos dos brasileiros chegam ao próprio povo com preços muitas vezes mais conectados ao exterior do que à realidade interna. O mercado global dita valores, e o trabalhador local arca com as consequências.
Diante disso, impõe-se uma reflexão incômoda. Estaríamos diante de uma nova forma de exploração? O Brasil realmente superou a lógica histórica de colônia de exploração ou apenas a revestiu com novos nomes, sob uma aparência de independência e uma falsa sensação de liberdade?
Um modelo em que o esforço do trabalhador brasileiro ajuda a gerar riqueza concentrada, em grande medida, nas mãos de poucos organizadores da produção e de grupos com influência política, além de se realizar amplamente no exterior, enquanto o próprio trabalhador encontra barreiras para acessar aquilo que produziu, precisa ser questionado.
Não se trata de negar a importância das exportações. Elas são fundamentais para a economia. O problema surge quando o equilíbrio se rompe, quando o mercado externo passa a competir com o próprio cidadão pelo acesso ao básico.
Um país que alimenta o mundo não pode naturalizar a dificuldade do seu povo em se alimentar com dignidade.
Quando isso acontece, o problema deixa de ser produtivo. Torna-se estrutural. E, sobretudo, político.
O DISCURSO QUE NÃO FECHA A CONTA
Diante desse cenário, surge um argumento recorrente, sobretudo entre aqueles que se beneficiam de receitas atreladas ao dólar: o trabalhador brasileiro ganha pouco porque produz pouco.
Mas os fatos apontam em outra direção. A produção cresce ano após ano. A arrecadação bate recordes há décadas. Os resultados estão aí. Então por que o salário continua insuficiente?
A conta não fecha porque o problema não está apenas na produtividade, mas na forma como o resultado do trabalho é distribuído.
Os números ajudam a dimensionar essa distorção. Em 2026, o salário mínimo oficial foi fixado em R$ 1.621. No entanto, estimativas do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (DIEESE) indicam que o valor necessário para garantir o atendimento das necessidades básicas de uma família deveria superar R$ 7 mil mensais, quase cinco vezes o piso vigente.
A distância entre o que se recebe e o que seria necessário para viver com dignidade não é apenas um dado econômico. É um retrato claro de um desequilíbrio estrutural.
Hoje, milhões de brasileiros enfrentam jornadas intensas, muitas vezes no modelo seis por um (6×1), e recebem um rendimento que mal cobre o básico. Em muitos casos, não se trata de viver com dignidade, mas apenas de sobreviver.
É como correr todos os dias em uma esteira: há esforço, há desgaste, mas não há avanço.
Se o trabalhador é parte essencial da produção, por que não participa, de forma proporcional, dos resultados e da riqueza que ajuda a gerar?
OS INVISÍVEIS QUE AJUDAM A SUSTENTAR O PAÍS
Há ainda um grupo que raramente aparece nessa discussão, mas que ajuda a sustentar, de forma silenciosa, a base da sociedade: os trabalhadores e trabalhadoras do lar.
São pessoas que cuidam da casa, dos dependentes, preparam alimentos, educam filhos, organizam a rotina e mantêm a estrutura familiar funcionando. Sem esse trabalho, muitas famílias simplesmente não conseguiriam se manter.
Trata-se de uma atividade que gera economia direta, substitui serviços e contribui para a estabilidade social. Ainda assim, permanece invisível, sem o devido reconhecimento, dignidade ou proteção social.
Não por acaso, direitos básicos desse tipo de trabalho, quando realizado fora da própria casa, só foram plenamente reconhecidos de forma recente no Brasil, apenas em 2013, com a Emenda Constitucional nº 72 (PEC das Domésticas). Durante muito tempo, essa atividade esteve à margem das garantias asseguradas a outros trabalhadores, refletindo heranças históricas que ainda hoje ecoam na forma como é valorizada.
Ignorar esse esforço é como olhar para uma casa e valorizar apenas o telhado, esquecendo que tudo depende dos alicerces.
O BRASIL PARA OS BRASILEIROS: UMA AGENDA DE EQUILÍBRIO
Diante desse cenário, surge uma pergunta que já não pode mais ser evitada: qual deve ser a prioridade de um país — atender plenamente ao mercado externo ou garantir condições dignas ao seu próprio povo?
O Brasil precisa exportar. Isso é indiscutível. As exportações geram riqueza, movimentam a economia e sustentam cadeias produtivas inteiras. O problema não está em exportar, mas em ignorar os efeitos dessa dinâmica sobre quem vive aqui.
Não é razoável que itens essenciais à vida sejam tratados apenas como commodities globais, sem considerar a realidade interna. Quando alimentos básicos passam a seguir exclusivamente a lógica internacional, cria-se uma distorção: o acesso deixa de depender da necessidade e passa a ser definido pela capacidade de pagamento.
Esse é o ponto que precisa amadurecer. Uma nação soberana não se limita a produzir; ela define prioridades. Garantir o abastecimento interno, mitigar impactos externos sobre preços essenciais e corrigir desequilíbrios que penalizam a população não é intervenção excessiva. É responsabilidade de Estado.
A questão central não é econômica apenas, mas estratégica. Que modelo queremos sustentar? Um sistema em que a eficiência produtiva convive com exclusão no consumo, ou um arranjo em que crescimento e acesso caminham juntos?
Se a resposta ainda não é clara, o debate precisa ser. Porque, no fim, não se trata apenas de mercado. Trata-se de escolha. E toda escolha revela, na prática, para quem o país está trabalhando.
UM NOVO CAMINHO É POSSÍVEL
É preciso reconhecer que empreendedores, empresários e investidores desempenham papel fundamental na economia. Assumem riscos, geram empregos e impulsionam a atividade produtiva. Mas nenhum sistema se sustenta quando o peso recai de forma desproporcional sobre apenas um dos lados.
Se o trabalhador não tem renda suficiente, ele não consome. Sem consumo, a economia perde dinamismo. E sem dinamismo, o crescimento se torna frágil e insustentável.
Insistir em jornadas exaustivas com baixa remuneração é como tentar encher um balde furado: o esforço é contínuo, mas o resultado nunca se acumula.
Repensar as relações de trabalho, portanto, deixou de ser uma escolha e passou a ser uma necessidade econômica, social e, sobretudo, de soberania nacional. Reduzir jornadas, melhorar condições laborais e promover uma distribuição mais equilibrada dos resultados não representa concessão, mas uma estratégia essencial para sustentar o desenvolvimento e a coesão do país.
Mecanismos de participação nos resultados, vinculados a ganhos de produtividade e lucratividade, mostram que é possível alinhar interesses. Quando quem produz também se beneficia do crescimento, a economia se fortalece de dentro para fora.
O CONVITE
Neste 1º de maio, o convite é simples e direto.
Olhe para o seu trabalho.
Ele te dá dignidade ou apenas te mantém ocupado?
Ele te permite viver ou apenas sobreviver?
Um país que não valoriza o trabalho não cresce. Apenas gira em círculos, cansado, repetindo velhos problemas, com práticas que ainda lembram a lógica de exploração da época colonial, agora apenas revestidas por novos nomes e formatos.
Talvez o que esteja em jogo não seja apenas o futuro do trabalho.
Mas o futuro do próprio Brasil.
E a pergunta final permanece, incômoda e necessária:
Até quando vamos aceitar isso como normal?

é cidadão brasileiro, mestre em Administração Pública e controlador/auditor interno.



