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Entre a terra, o ouro e os sonhos

Há encontros que parecem ter sido marcados muito antes de as pessoas se conhecerem.

Talvez a vida já soubesse que, um dia, o homem que ordenha vacas em um pequeno sítio de Nova Olímpia encontraria o jovem que carrega, nas lembranças da infância, o peso e o mistério dos garimpos de Alto Paraguai.

Talvez o destino já estivesse escrevendo “Belo Ouro” antes mesmo de Pither Lopes colocar a primeira palavra no papel. Antes de Genival Soares vestir a pele daquele garimpeiro. Antes das câmeras, do cenário, dos festivais e dos troféus.

Pither nasceu em uma cidade garimpeira. Filho de garimpeiro, conheceu cedo demais o lado mais doloroso daquela terra revolvida em busca de riqueza. O pai foi assassinado no garimpo. Uma ausência que não cabe em explicações simples e que o tempo talvez ensine a suportar, mas nunca consiga apagar completamente.

Algumas dores permanecem dentro da gente como pedras no fundo de um rio. A correnteza passa, os anos avançam, mas elas continuam lá.

Pither cresceu. Estudou teatro em Tangará da Serra, foi para São Paulo, formou-se em Cinema e, durante a pandemia, retornou a Mato Grosso. Voltou para perto de suas raízes e, talvez sem perceber, também voltou para perto daquela história que a vida havia deixado aberta.

Em 2021, começou a escrever “Belo Ouro”.

Durante cinco anos, lapidou o roteiro como quem procura, entre tantas pedras, algo precioso. Mas o ouro que Pither buscava não estava debaixo da terra. Estava na memória, na arte e na possibilidade de transformar uma história marcada pela dor em uma obra capaz de provocar reflexão.

Foi nesse caminho que ele encontrou Genival.

Genival veio de Minas Gerais para Mato Grosso em 1996. Trouxe na bagagem a simplicidade, a capoeira, a vivência nos grupos de jovens da Igreja e uma paixão pela arte que ainda não sabia chamar de profissão.

Nos festivais de quadrilha e nas encenações da Paixão de Cristo, ele fazia teatro sem saber que fazia teatro. Era tudo improvisado, amador, construído com aquilo que havia disponível. Mas, como ele mesmo recorda, “na época era sucesso”.

E talvez fosse mesmo.

Sucesso não é apenas ter o nome anunciado em um palco ou receber um troféu diante de uma plateia. Às vezes, sucesso é conseguir tocar alguém quando ainda não existem holofotes. É fazer uma criança sorrir, uma comunidade se reunir ou uma plateia simples acreditar, por alguns minutos, na história que está sendo contada.

Em Nova Olímpia, Genival continuou plantando arte. Fundou grupo de capoeira, trabalhou no Departamento de Cultura, tornou-se técnico em artes cênicas e ajudou a criar o Grupo Teatro NÓ. Também se tornou artista plástico e cenotécnico, daqueles que constroem com as próprias mãos as estruturas que ajudam os sonhos a ganhar forma sobre o palco.

Vieram trabalhos no teatro e no cinema. Vieram personagens, cenários e experiências. Mas a vida jamais o afastou completamente da terra.

Genival continuou sendo o homem do sítio, da agricultura familiar, da ordenha e da lida diária. Um ator que não mora em uma metrópole nem circula pelos grandes centros cinematográficos. Um artista que vive na roça e que, entre uma produção e outra, retorna para cuidar dos animais, das plantas e da vida.

Foi justamente ali, em sua convivência com a terra, que ele encontrou o personagem de “Belo Ouro”.

Genival nunca foi garimpeiro. Mas conhecia aquele homem.

Conhecia o trabalhador que entra no cercado, que enfrenta o sol, que corta o galho com o facão antes que ele o machuque. Conhecia o homem que deposita na terra a esperança de melhorar a própria vida e dar alguma coisa a mais para a família.

Pither conhecia o garimpeiro pela memória do pai e pelas histórias de sua cidade.

Genival o conhecia pelo corpo cansado de quem trabalha a terra.

Um trouxe a lembrança. O outro, a carne.

Um escreveu. O outro viveu.

E assim nasceu o personagem.

Quando “Belo Ouro” foi exibido no Festival Cinemato, aquelas duas trajetórias também chegaram às telas. Não estavam ali apenas um diretor e um ator. Estavam o menino de Alto Paraguai, que perdeu o pai no garimpo, e o homem vindo de Minas Gerais, que passou décadas fazendo arte no interior sem deixar de acreditar.

Na noite da premiação, Genival não estava em Cuiabá. Estava longe do palco, provavelmente cercado pelo silêncio do sítio e pela rotina que começa cedo no campo.

Pither estava no cine-teatro quando anunciaram o prêmio de Melhor Ator.

Subiu ao palco para representar o amigo. Meio surpreso, meio emocionado, brincou com a plateia dizendo que não era Genival, embora naquele momento até quisesse ser, para receber um prêmio como aquele.

Pouco depois, precisou subir novamente.

“Belo Ouro” havia sido escolhido como o Melhor Curta de Mato Grosso.

Talvez, naquele instante, o palco tenha ficado pequeno para tudo o que estava sendo celebrado.

Era o filme dirigido e escrito por Pither. Era o reconhecimento de um trabalho nascido de uma história profundamente pessoal. Era a confirmação de que aquela dor transformada em arte havia encontrado espaço, público e respeito.

E havia ainda o prêmio de Genival.

Pither pegou o telefone e enviou uma mensagem.

Na manhã seguinte, no Sítio Bilui Bio, Genival acordou e leu:

“Rapaz, Genival, você ganhou como Melhor Ator.”

Ele limpou os olhos. Olhou novamente. Talvez tenha pensado que ainda estivesse sonhando.

Mas era verdade.

O ator do interior, o homem da roça, o artista que durante tantos anos construiu palcos, personagens e grandes máquinas de cena com as próprias mãos havia sido escolhido o Melhor Ator.

Depois veio a segunda notícia: o filme também havia vencido.

Naquele momento, não existia tapete vermelho. Não havia fotógrafos à porta, flashes ou jornalistas disputando uma declaração. Havia apenas um homem simples, dentro de seu sítio, segurando um telefone e tentando compreender que seu nome havia sido anunciado entre os melhores do cinema de Mato Grosso.

Nos dias seguintes, o celular começou a tocar sem parar.

Durante a ordenha, as notificações se repetiam:

“Tidit. Tidit. Tidit.”

E Genival, pouco acostumado com as redes sociais, percebia que cada som carregava um abraço que não podia chegar pessoalmente ao sítio.

Eram amigos, admiradores e pessoas que talvez nunca tivessem estado ao lado dele, mas que se sentiam representadas por sua conquista.

“Estão me homenageando de novo”, pensava.

Depois brincou dizendo que a felicidade havia sido tanta que até o leite aumentou.

Genival riu.

Pither também riu durante a entrevista.

E é bonito perceber que, depois de tantas lutas, ainda sejam capazes de rir.

Porque algumas vitórias não apagam as dificuldades da caminhada, mas fazem com que cada passo tenha valido a pena. Não devolvem as pessoas que partiram nem recuperam os anos de portas fechadas, mas iluminam o caminho percorrido.

Talvez Pither tenha encontrado, no palco do Cinemato, uma forma de conversar novamente com o pai.

Talvez aquele troféu dissesse, sem palavras, que a história do garimpo não terminaria apenas em violência, ausência e sofrimento. Pela arte do filho, ela também se transformaria em cinema, memória e reconhecimento.

Talvez Genival, ao olhar para o próprio prêmio, tenha se lembrado do jovem que encenava a Paixão de Cristo de maneira “amadora”, do trabalhador que chegou a Mato Grosso em busca de emprego e do artista que imaginava as telas como algo distante demais para alcançar.

As telas não estavam tão distantes.

Demoraram, mas chegaram até ele.

Chegaram ao sítio.

Chegaram à ordenhadeira.

Chegaram às mãos marcadas pelo trabalho.

“Belo Ouro” fala sobre a busca de um homem por uma pepita que talvez nunca seja capaz de enriquecê-lo verdadeiramente. Mas, fora das telas, Genival e Pither encontraram outro tipo de ouro.

Um ouro que não se vende, não se pesa e não se mede.

O ouro de continuar acreditando quando tudo parece distante.

O ouro de transformar a dor em arte.

O ouro de representar a própria terra sem abandonar as próprias raízes.

O ouro de subir a um palco levando consigo aqueles que não puderam estar presentes.

Pither levou Genival.

Genival levou Nova Olímpia.

Os dois levaram Mato Grosso.

E talvez a maior beleza dessa história esteja justamente nisso: enquanto tantas pessoas passam a vida procurando riquezas escondidas debaixo da terra, dois artistas do interior descobriram que o verdadeiro ouro sempre esteve dentro deles.

Esperando apenas o momento certo para chegar às telas e finalmente brilhar.

Por Nelson Alves
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