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Triste é o povo que cobra perfeição dos jogadores, mas tolera os erros dos políticos

O brasileiro pode esquecer o nome de um candidato em quem votou, uma promessa não cumprida ou até o político envolvido em um escândalo. Mas dificilmente esquece uma Copa do Mundo perdida.

A memória do futebol é implacável. Em 1950, o chamado “Maracanazo” atravessou décadas como uma ferida nacional. Em 1982, uma das seleções mais talentosas da história foi eliminada pela Itália, e até hoje muitos ainda lamentam os três gols de Paolo Rossi. Em 1986, ficou o trauma do pênalti perdido por Zico. Em 1990, a Argentina de Maradona e Caniggia encerrou o sonho brasileiro em um jogo que permanece vivo na lembrança de quem assistiu.

Em 1998, o país parou diante do drama envolvendo Ronaldo Fenômeno. Horas antes da final contra a França, o atacante sofreu uma convulsão, chegou a ser retirado da escalação e depois entrou em campo. O Brasil perdeu por 3 a 0, e aquele episódio gerou dúvidas, teorias e debates que sobrevivem até hoje.

Após a conquista do pentacampeonato, em 2002, imaginávamos que outros títulos viriam rapidamente. Não vieram.

Em 2006, o badalado “quadrado mágico”, formado por estrelas do futebol mundial, caiu diante da França. Em 2010, a eliminação para a Holanda provocou revolta. Em 2014, dentro de casa, vivemos o maior vexame da história da Seleção: os inesquecíveis 7 a 1 para a Alemanha. Cada gol parecia aumentar uma humilhação que ultrapassava o esporte. Jogadores choraram, torcedores procuraram culpados e o resultado tornou-se uma cicatriz nacional.

Depois vieram as eliminações para a Bélgica, em 2018, e para a Croácia, em 2022. Mais uma vez, técnicos, jogadores e dirigentes foram julgados com rigor. E neste ano, bem, nem precisa comentar. Questionamos escalações, substituições, pênaltis, posicionamentos e até o comportamento dos atletas.

No futebol, o brasileiro não aceita erros. Exige concentração, raça, planejamento e desempenho perfeito durante os 90 minutos. Entretanto, quando o assunto é política, nem sempre demonstra a mesma disposição para cobrar.

Desde 2002, ano da última Copa conquistada pelo Brasil, o país atravessou uma sucessão de escândalos que deveria ter mudado definitivamente nossa relação com o poder público.

O Mensalão chegou ao Supremo Tribunal Federal e revelou um esquema de compra de apoio político. A Ação Penal 470 envolveu agentes públicos, políticos, empresários e operadores financeiros, resultando em diversas condenações.

Anos depois, a Operação Lava Jato revelou esquemas de propina, lavagem de dinheiro e fraudes em contratos públicos, especialmente envolvendo a Petrobras e grandes empreiteiras. Parte dos valores foi recuperada por meio de decisões judiciais, colaborações e acordos de leniência. Somente em uma devolução realizada em 2019, R$ 424 milhões retornaram à Petrobras.

Mais recentemente, o chamado “orçamento secreto” expôs a distribuição de bilhões de reais por meio das emendas de relator, conhecidas como RP 9, sem transparência suficiente sobre os responsáveis pelas indicações e os critérios de distribuição. Segundo dados apresentados pela Controladoria-Geral da União, foram destinados aproximadamente R$ 16,1 bilhões em 2020, R$ 12,7 bilhões em 2021 e R$ 7,89 bilhões em 2022.

É importante ressaltar que a falta de transparência, isoladamente, não comprova corrupção. Porém, quando não é possível saber claramente quem indicou, quem recebeu e por que recebeu determinado recurso, cria-se um ambiente favorável ao desperdício, ao favorecimento e aos desvios. As RP 9 foram extintas em dezembro de 2022 por decisão do Supremo Tribunal Federal.

Talvez nenhum episódio recente seja tão cruel quanto o caso dos descontos realizados em benefícios do INSS. A Polícia Federal e a Controladoria-Geral da União passaram a investigar entidades suspeitas de efetuarem cobranças não autorizadas nas aposentadorias e pensões.

Entre 2019 e 2024, quase R$ 6,3 bilhões foram descontados dos benefícios. Em uma amostra de entrevistas realizada pelos órgãos de controle, mais de 97% dos beneficiários afirmaram não ter autorizado os descontos. As investigações envolvem suspeitas de estelionato previdenciário, corrupção, organização criminosa e lavagem de dinheiro. Como o caso ainda está em apuração, cabe às autoridades identificar responsabilidades e garantir o direito de defesa dos investigados.

É difícil imaginar algo mais perverso do que retirar dinheiro justamente de aposentados e pensionistas, pessoas que trabalharam uma vida inteira e, muitas vezes, dependem de cada centavo para comprar alimentos, pagar contas e adquirir medicamentos.

O problema da corrupção não pertence exclusivamente a uma ideologia ou partido. Ela muda de personagens, discursos, governos e siglas, mas conserva o mesmo método: apropriar-se do que pertence à sociedade e confiar na indignação passageira e no esquecimento coletivo.

Enquanto muitos torcedores decoram escalações, impedimentos, erros de arbitragem e pênaltis perdidos há décadas, parte dos eleitores não se lembra em quem votou na eleição anterior. Esquecemos denúncias, processos, promessas e decisões tomadas contra o interesse público.

Cobrar a Seleção Brasileira é legítimo. O futebol mexe com nossa identidade, nossas emoções e nossa história. O problema não está em cobrar dos jogadores. Está em não exigir dos políticos pelo menos a mesma responsabilidade.

Uma Copa perdida provoca tristeza, discussão e frustração. Mas, depois de algum tempo, a vida continua. Já o dinheiro desviado de um hospital pode representar a morte de quem aguardava atendimento. O recurso retirado da educação pode condenar uma criança à falta de oportunidades. O valor subtraído da aposentadoria pode significar menos comida e remédios dentro da casa de um idoso.

Exigimos que um jogador não erre durante 90 minutos, mas muitas vezes permitimos que políticos errem durante quatro anos, escondam informações, desperdicem recursos e ainda retornem ao poder pelo voto.

O Brasil não precisa amar menos o futebol. Precisa apenas aprender a fiscalizar a política com a mesma paixão, persistência e memória.

Porque triste não é somente perder uma Copa do Mundo. Triste é um povo que se lembra de cada gol sofrido, mas esquece quem roubou o presente de seus filhos e o futuro de seus pais e avós.

Nelson Alves — Apenas um Cidadão Brasileiro

Fontes consultadas

Federação Internacional de Futebol — FIFA. Registros históricos das Copas do Mundo, incluindo o episódio envolvendo Ronaldo antes da final de 1998 e as eliminações da Seleção Brasileira.

Federação Internacional de Futebol — FIFA. “O chocante Brasil x Alemanha em 2014”, retrospectiva da derrota brasileira por 7 a 1 na semifinal da Copa do Mundo.

Supremo Tribunal Federal — STF. Documentos e decisões referentes à Ação Penal 470, conhecida como Mensalão, envolvendo condenações por crimes contra a administração pública, corrupção, lavagem de dinheiro e outros delitos.

Controladoria-Geral da União — CGU. Informações sobre a devolução de R$ 424 milhões à Petrobras, decorrente de acordos relacionados às investigações da Operação Lava Jato.

Controladoria-Geral da União — CGU. Dados sobre as emendas de relator RP 9, que alcançaram R$ 16,1 bilhões em 2020, R$ 12,7 bilhões em 2021 e R$ 7,89 bilhões em 2022, além dos problemas de transparência na identificação dos responsáveis pelas indicações.

Supremo Tribunal Federal — STF. Decisão de dezembro de 2022 que considerou inconstitucional a utilização das emendas de relator do chamado “orçamento secreto”, nos moldes então praticados.

Controladoria-Geral da União — CGU e Polícia Federal. Informações sobre a investigação dos descontos associativos realizados em aposentadorias e pensões do INSS entre 2019 e 2024, que somaram aproximadamente R$ 6,3 bilhões. A auditoria indicou que mais de 97% dos beneficiários entrevistados não reconheceram as autorizações.

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