A arroba do boi gordo está cotada a cerca de R$ 370 em Mato Grosso, com valorização superior a 20% no acumulado do ano, segundo dados do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea).
Aproximadamente um terço desse avanço ocorreu em outubro.
O movimento beneficia a receita dos pecuaristas que têm animais para vender, mas aumenta os custos da indústria e pressiona o preço da carne ao consumidor.
A alta combina oferta mais restrita de animais para abate, em razão do ciclo pecuário, exportações aquecidas para os Estados Unidos e expectativa de retomada das compras chinesas.
Mais recentemente, a valorização do dólar frente ao real reforçou o interesse dos frigoríficos pelo mercado externo.
No mercado brasileiro, a cotação se aproxima de R$ 400 por arroba.
Segundo o responsável pelo setor de pecuária da Datagro, João Figueiredo, negócios nesse patamar já foram identificados em São Paulo, inclusive envolvendo empresas voltadas ao abastecimento doméstico.
A valorização cambial tornou a carne brasileira mais competitiva no exterior e ampliou a perspectiva de receita em reais para os exportadores.
Na avaliação da CEO da Agrifatto, Lygia Pimentel, esse foi o principal impulso recente para o encarecimento do boi.
“O principal motivo é a valorização do câmbio, que aumenta a competitividade brasileira no mercado internacional e aumenta também o interesse da indústria em exportar para faturar em dólares”, afirmou.
COMPRAS CHINESAS – A expectativa é que a China volte a contratar carne brasileira entre novembro e dezembro, com embarques destinados ao preenchimento da cota tarifária de 2027.
A cota de 2026 foi esgotada por volta de meados do ano.
Para o próximo ano, o volume previsto de carne brasileira sujeito à tarifa de 12% é de 1,128 milhão de toneladas.
Acima desse limite, a alíquota sobe para 55%.
“O mercado está numa expectativa construtiva dessa retomada das compras da China”, disse Figueiredo.
Além do interesse chinês, as compras dos Estados Unidos ajudam a sustentar os preços.
O país é o segundo principal destino da carne bovina brasileira e, segundo Pimentel, oferece remuneração atrativa aos exportadores.
LIMITE DO CONSUMIDOR – No mercado interno, a proximidade das festas de fim de ano tende a favorecer a demanda.
Figueiredo pondera, entretanto, que a arroba a R$ 400 começa a representar um limite para empresas que dependem das vendas ao consumidor brasileiro.
O pesquisador Thiago Bernardino de Carvalho, do Cepea, ligado à Esalq/USP, avalia que a oferta restrita e a demanda internacional deixam pouco espaço para recuos até a virada do ano e mesmo durante o primeiro semestre de 2027.
“A nossa carne realmente vem valorizada e isso reflete no boi”, afirmou.
Para ele, a combinação entre disponibilidade de animais e procura pela proteína mantém a sustentação das cotações.
MARGENS APERTADAS – A valorização não significa ganho uniforme para todos os elos da cadeia.
Carvalho prevê margens mais apertadas em 2027, desde o consumidor, que encontrará carne mais cara, até o pecuarista que compra bezerros e bois magros para engorda.
A reposição mais cara eleva o investimento necessário para produzir animais terminados.
Nos frigoríficos, a diferença entre o custo de aquisição do boi e a receita obtida com a venda da carne está entre as menores desde 2023, segundo o pesquisador.
Pimentel avalia que parte dessa pressão sobre a indústria poderá ser compensada adiante, com exportações realizadas a um dólar mais elevado e com o crescimento das compras chinesas e americanas.
Para o consumidor, porém, o cenário mantém a pressão sobre o orçamento destinado à alimentação.








