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Brasil em alerta: fábricas fecham, demissões avançam e empresas buscam produzir fora do país

De grandes indústrias ao varejo, sequência de encerramentos, cortes de produção e transferência de novos investimentos acende sinal de preocupação; fechamento das Casas Bahia em Tangará da Serra traz o problema para perto de Nova Olímpia

O fechamento de uma fábrica pode ser consequência de uma decisão empresarial isolada. O encerramento de uma loja pode decorrer de uma estratégia específica de determinada rede. Uma indústria pode reduzir produção porque seu mercado mudou. Outra pode demitir porque perdeu competitividade.

Mas quando notícias dessa natureza começam a se repetir em diferentes setores, regiões e segmentos da economia, o conjunto passa a merecer atenção.

Nos últimos anos, o Brasil acompanhou anúncios envolvendo fechamento de fábricas, redução de linhas de produção, demissões, suspensão de investimentos e reestruturações de algumas das maiores empresas instaladas no país.

Ao mesmo tempo, do outro lado da fronteira, o Paraguai vem intensificando uma estratégia agressiva para atrair indústrias brasileiras com impostos menores, energia mais barata e custos operacionais reduzidos. Reportagens recentes mostram empresas nacionais instalando unidades produtivas no país vizinho para fabricar produtos destinados, em muitos casos, ao próprio mercado brasileiro.

Agora, um dos sinais dessa movimentação chegou praticamente ao nosso quintal.

A Casas Bahia encerrou sua loja em Tangará da Serra, cidade vizinha e principal polo comercial da região. A decisão faz parte de uma ampla reestruturação nacional da companhia, que atingiu centenas de lojas espalhadas pelo Brasil.

De repente, aquilo que parecia restrito às páginas nacionais de economia passou a acontecer a pouco mais de 40 quilômetros de Nova Olímpia.

Casas Bahia fecha quase 300 lojas

A dimensão da reestruturação das Casas Bahia impressiona.

A rede fechou 298 lojas, o equivalente a aproximadamente 29% de sua estrutura física, e cerca de 1.900 trabalhadores foram desligados em apenas dois dias, segundo informações publicadas pela Folha de S.Paulo. A companhia vinha enfrentando dificuldades financeiras e registrou prejuízo próximo de R$ 1,1 bilhão no primeiro trimestre de 2026.

Outras informações divulgadas pela imprensa indicam que o número final de desligamentos poderia chegar perto de 3 mil trabalhadores.

O problema não surgiu agora.

O varejo brasileiro atravessa um período particularmente difícil para negócios dependentes de crédito e vendas parceladas. Consumo mais fraco, endividamento das famílias e financiamento caro vêm pressionando empresas do setor. Magazine Luiza, Renner, C&A e outras grandes varejistas também apresentaram resultados ou projeções afetadas pelo ambiente de juros e menor disposição dos consumidores para gastar.

É justamente nesse mercado — móveis, eletrodomésticos, eletrônicos e compras parceladas — que a Casas Bahia construiu sua história.

Mas ela está longe de ser um caso solitário.

Gerdau corta empregos e reduz produção

Um dos maiores símbolos da indústria brasileira, a Gerdau também vem promovendo ajustes.

Em 2025, a siderúrgica informou ter desligado aproximadamente 1.500 trabalhadores no Brasil entre janeiro e julho e anunciou a intenção de reduzir o ritmo de investimentos no país.

A companhia apontou como uma das principais razões o crescimento das importações de aço, especialmente da China, alegando dificuldade de competir em condições equivalentes com produtos estrangeiros.

E o movimento continuou.

No início de agosto de 2026, outros 160 funcionários foram desligados da unidade Açonorte, no Recife. As áreas de aciaria e laminação tiveram as atividades interrompidas e a fábrica passou a concentrar sua operação em produtos trefilados, como arames, telas e pregos.

Somados, são cerca de 1.660 desligamentos anunciados pela companhia nesses dois movimentos.

É importante destacar que a Gerdau não deixou o Brasil e continua sendo uma grande produtora nacional. Inclusive, a própria empresa desmentiu informações divulgadas nas redes sociais de que estaria abandonando suas operações brasileiras.

O fato relevante é outro: uma companhia desse porte reduziu empregos e decidiu moderar investimentos diante das condições que afirma encontrar no mercado nacional.

ADM: fábrica com mais de 900 trabalhadores encerrada

Outro caso de grande repercussão aconteceu em Minas Gerais.

A multinacional norte-americana ADM decidiu fechar sua fábrica de alimentos para animais em Três Corações.

A unidade tinha mais de 900 funcionários e capacidade para produzir aproximadamente 525 mil toneladas de produtos por ano.

Segundo a Reuters, a empresa tentou vender a fábrica durante aproximadamente um ano, sem encontrar comprador, e decidiu encerrá-la dentro de um programa internacional de redução de custos e reorganização de suas operações.

Novamente, a ADM não abandonou o Brasil. Mantém outras operações no país.

Mas uma unidade industrial com centenas de trabalhadores deixou de existir.

GE Vernova: cerca de mil empregos afetados

Em Pernambuco, outro fechamento atingiu uma indústria de grande porte.

A LM Wind Power, pertencente à GE Vernova, anunciou o encerramento da fábrica de pás para turbinas eólicas instalada em Suape.

A decisão afetou aproximadamente mil postos de trabalho.

Segundo a Reuters, a companhia relacionou o fechamento à redução da demanda por equipamentos eólicos na América Latina. O setor enfrentou excesso de oferta, dificuldades de expansão e maior concorrência de projetos de energia solar.

O episódio revelou problemas que vão além daquela fábrica.

A instalação de novos parques eólicos no Brasil caiu mais de 30% em 2024, segundo informações do setor citadas pela agência internacional.

Energia renovável também reduz investimentos

E as dificuldades do setor energético continuaram em 2026.

Atlas Renewable Energy, Newave Energia e Voltalia estão entre empresas que reduziram operações e empregos diante das limitações impostas à geração eólica e solar pela capacidade do sistema elétrico brasileiro.

Em junho, a Atlas Renewable Energy, controlada por uma unidade da BlackRock, anunciou a suspensão de aproximadamente US$ 1 bilhão em novos investimentos previstos para o Brasil.

Cerca de 1,5 gigawatt em novos projetos que deveriam entrar em construção foram colocados em espera.

O motivo apontado foi a dificuldade de escoamento da energia produzida e os cortes de geração determinados quando o sistema não consegue absorver toda a oferta disponível.

Nesse caso, não se trata de uma fábrica fechada, mas de algo igualmente importante para o debate econômico: capital que estava previsto para ser investido e deixou, ao menos temporariamente, de entrar na economia brasileira.

M. Dias Branco fecha unidade com 480 trabalhadores

Em janeiro de 2025, a M. Dias Branco, dona de marcas conhecidas nacionalmente como Piraquê, Adria e Vitarella, encerrou sua fábrica em Lençóis Paulista, interior de São Paulo.

A unidade empregava 480 pessoas.

A empresa informou que o fechamento fazia parte de uma reestruturação e que a produção seria transferida para outras unidades da própria companhia no Brasil.

Portanto, não houve saída do país.

Ainda assim, para Lençóis Paulista, perder uma fábrica com quase 500 trabalhadores representou impacto econômico direto.

Michelin fecha fábrica em Guarulhos

A Michelin também encerrou uma de suas unidades industriais brasileiras.

A fábrica de Guarulhos, em São Paulo, deixou de produzir em 2025, atingindo aproximadamente 350 trabalhadores.

A companhia relacionou a decisão à perda de competitividade dos produtos fabricados no local diante da concorrência de mercadorias importadas.

É outro caso em que informações falsas circularam posteriormente dizendo que a Michelin teria abandonado completamente o Brasil.

Não abandonou.

A empresa continuou mantendo outras operações brasileiras.

Mas o fechamento daquela unidade é verdadeiro — assim como os postos de trabalho associados à produção que deixou de existir.

Bridgestone fala em “maior crise da história” dos pneus

Talvez uma das declarações mais contundentes dos últimos dias tenha vindo da indústria de pneus.

O presidente da Bridgestone no Brasil, Lafaiete Oliveira, afirmou à Folha de S.Paulo que o setor atravessa a maior crise de sua história no país.

Segundo ele, em poucos anos a participação dos pneus importados no mercado brasileiro de caminhões e ônibus passou de aproximadamente 30% para 70%, invertendo completamente a proporção em relação à indústria nacional.

A fábrica de pneus agrícolas da Bridgestone está fechada desde o início de 2025. A unidade possuía aproximadamente 200 trabalhadores; parte foi transferida para outra operação da empresa e outra parcela acabou desligada.

O executivo também afirmou que há capacidade ociosa nas fábricas brasileiras e não descartou novas demissões caso as condições de concorrência não sejam alteradas.

O caso da Bridgestone talvez ajude a compreender uma das preocupações recorrentes da indústria nacional: produzir no Brasil e disputar o consumidor brasileiro contra produtos fabricados em países com estruturas de custos diferentes.

John Deere também enxugou quadro

Nem mesmo o forte setor de máquinas agrícolas ficou imune.

A John Deere, uma das maiores fabricantes mundiais de equipamentos agrícolas, promoveu cortes em sua unidade de Horizontina, no Rio Grande do Sul.

Em setembro de 2025, foram aproximadamente 150 desligamentos, justificados pela empresa como adequação da produção à demanda do mercado.

A imprensa gaúcha registrou que uma redução semelhante, também com aproximadamente 150 trabalhadores, havia ocorrido um ano antes.

A empresa continuou operando normalmente no Brasil, mas os dois movimentos mostram os ajustes enfrentados mesmo por companhias ligadas a um dos segmentos mais importantes da economia brasileira.

Parker encerra fábrica depois de mais de 50 anos

Em julho deste ano, outro anúncio chamou atenção no interior paulista.

A multinacional norte-americana Parker Hannifin decidiu encerrar sua fábrica de Jacareí, depois de mais de meio século de atividades na cidade.

A unidade possuía cerca de 100 trabalhadores. Em agosto, a empresa confirmou o encerramento dos contratos vinculados à operação.

O fechamento provocou mobilização sindical e protestos dos funcionários.

Mais uma fábrica deixava de produzir.

Calçadista transfere produção e elimina empregos no Sul

No Rio Grande do Sul, a Sugar Shoes encerrou sua produção industrial em Picada Café.

A empresa manteve apenas sua estrutura administrativa na cidade e transferiu a produção para o Ceará.

Cerca de 70 trabalhadores foram desligados, depois de a companhia já ter reduzido aproximadamente 30% de seu quadro no final do ano anterior.

O episódio demonstra que nem toda transferência significa saída do Brasil. Nesse caso, a produção apenas mudou de região.

Mas para o município que perdeu a indústria, o efeito econômico é bastante concreto.

Fertilizantes: Nutrien reduz presença industrial

A gigante canadense Nutrien, maior produtora mundial de potássio, também promoveu uma profunda reestruturação de suas operações brasileiras.

Em 2024, três unidades de mistura de fertilizantes foram paralisadas por tempo indeterminado — duas em Goiás e uma em Minas Gerais — diante do que a empresa classificou como condições difíceis de mercado e necessidade de melhorar eficiência e rentabilidade.

A companhia posteriormente decidiu descontinuar sua operação brasileira de mistura de fertilizantes e colocou ativos à venda.

A Nutrien vinha enfrentando dificuldades em suas operações sul-americanas após a forte volatilidade dos preços internacionais de fertilizantes provocada pela guerra na Ucrânia.

Mais de 6 mil postos envolvidos apenas nesses casos

Quando colocados lado a lado, os números ajudam a perceber a dimensão das notícias.

Somente os episódios envolvendo Casas Bahia, Gerdau, ADM, GE Vernova, M. Dias Branco, Michelin, John Deere, Parker Hannifin e Sugar Shoes alcançam aproximadamente 6.760 postos de trabalho desligados, atingidos pelo fechamento de unidades ou envolvidos nas reduções anunciadas.

Não significa que todos esses 6.760 empregos desapareceram definitivamente, porque houve situações de transferência, reestruturação e realocação de trabalhadores.

Também não significa que sejam todos os empregos industriais e comerciais perdidos no país.

É simplesmente a soma dos números divulgados pela imprensa nesses grandes casos selecionados.

E ainda ficam de fora empresas cujos anúncios não informaram claramente quantos trabalhadores foram dispensados.

Enquanto algumas fábricas fecham, outras atravessam a fronteira

Paralelamente aos fechamentos, outro fenômeno ganhou força e merece atenção.

Empresas brasileiras estão instalando unidades produtivas no Paraguai.

É preciso cuidado com a expressão “fuga de empresas”. Na maioria dos casos pesquisados, as companhias não fecharam suas fábricas brasileiras para abandonar o país. O que ocorreu foi a decisão de realizar parte de sua expansão industrial do outro lado da fronteira.

Do ponto de vista econômico, entretanto, permanece uma pergunta relevante:

por que o novo investimento foi feito no Paraguai e não no Brasil?

A resposta aparece de maneira bastante clara nas entrevistas dadas pelos próprios empresários.

Lupo: produzir no Paraguai pode custar 28% menos

Um dos exemplos mais conhecidos é a tradicional fabricante de meias Lupo.

A companhia investiu aproximadamente R$ 30 milhões em uma fábrica em Ciudad del Este, sua primeira unidade industrial fora do Brasil.

Quando estiver em plena capacidade, poderá fabricar cerca de 20 milhões de pares de meias por ano.

A direção da empresa explicou ao NeoFeed que produzir no Paraguai pode representar uma economia de aproximadamente 28% em relação ao Brasil.

A própria Lupo apontou a combinação de impostos mais baixos, energia mais barata, disponibilidade de mão de obra e necessidade de competir com produtos asiáticos como fatores relevantes na decisão.

A companhia mantém suas fábricas brasileiras. Portanto, não se trata de abandono do país.

Mas os novos empregos, máquinas e parte da capacidade produtiva poderiam, em tese, ter sido instalados aqui.

Foram instalados no Paraguai.

Karsten segue caminho semelhante

A centenária Karsten, fabricante catarinense de produtos de cama, mesa e banho, também decidiu instalar uma operação industrial no Paraguai.

A empresa possui mais de 140 anos de história em Blumenau e mantém suas fábricas brasileiras.

Segundo reportagem da CNN Brasil, porém, ao avaliar sua expansão produtiva, escolheu utilizar o regime paraguaio de maquila.

O modelo estabelece, para determinadas operações exportadoras, uma tributação especial de aproximadamente 1% sobre o valor agregado ou das exportações, além de benefícios sobre importação de equipamentos e matérias-primas.

A própria direção da Karsten ressaltou que não pretende substituir a operação de Santa Catarina pela fábrica paraguaia.

Mas decidiu que a nova expansão seria feita no país vizinho.

Mais empresas brasileiras do outro lado da fronteira

A Lupo e a Karsten não estão sozinhas.

Reportagens do NeoFeed e da CNN Brasil citam empresas como Buddemeyer, Lunelli, Kidy Calçados, Koumei, Fiasul e outras companhias brasileiras com atividades industriais instaladas no Paraguai.

Segundo levantamento divulgado pela CNN em julho de 2026, havia pelo menos 179 empresas de capital brasileiro operando no Paraguai dentro do regime de maquila (sistema criado para atrair indústrias, especialmente voltadas à exportação), sendo que 47 haviam se instalado nos cinco anos anteriores.

Outro levantamento, utilizando critério diferente e divulgado pelo NeoFeed com base em dados paraguaios de 2024, identificava 223 programas de maquila ligados a empresas brasileiras entre 332 em vigor naquele momento.

Os números podem variar conforme o critério utilizado — capital brasileiro, origem da matriz ou número de programas aprovados —, mas apontam na mesma direção: o empresariado brasileiro tem participação expressiva no processo de industrialização paraguaio.

E boa parte da produção realizada lá atravessa novamente a fronteira.

Em 2025, 64% das exportações das empresas paraguaias enquadradas no regime de maquila tiveram o Brasil como destino, segundo dados reproduzidos pela CNN.

Ou seja: existem empresas brasileiras produzindo no Paraguai para vender ao consumidor brasileiro.

O que o Paraguai está oferecendo?

A explicação aparece repetidamente nas reportagens.

Carga tributária menor.

Energia elétrica mais barata.

Menores custos trabalhistas.

Regime tributário simplificado.

Facilidade para importar máquinas e matérias-primas.

Previsibilidade das regras.

E um programa governamental construído justamente para atrair fábricas destinadas à exportação.

Segundo reportagem da CNN, a energia elétrica paraguaia pode custar até 60% menos, dependendo das condições da operação.

A Lupo estimou redução de aproximadamente 28% em seus custos produtivos.

O NeoFeed cita estimativas de custos operacionais até 40% menores dependendo do segmento industrial.

É difícil imaginar que números assim passem despercebidos em uma reunião de conselho de administração quando uma empresa precisa decidir onde construir sua próxima fábrica.

E o Brasil?

O cenário brasileiro é bem mais complexo do que simplesmente afirmar que “as empresas estão indo embora”.

Também existem companhias ampliando investimentos e novas fábricas sendo inauguradas no país. A LG, por exemplo, inaugurou neste mês uma nova fábrica de linha branca no Paraná, com investimento de R$ 1,5 bilhão.

A indústria brasileira, portanto, não está desaparecendo.

O que existe é uma disputa cada vez mais intensa por investimentos.

E é justamente por isso que a sequência de fechamentos e transferências precisa ser observada.

No varejo, juros elevados, crédito caro e endividamento afetam o poder de compra.

Na siderurgia, pneumáticos e indústria têxtil, a concorrência dos produtos asiáticos é apontada como uma das grandes preocupações. A indústria de transformação brasileira vem alertando para a perda de espaço dos produtos nacionais no próprio mercado interno.

No setor de energia renovável, aparecem gargalos estruturais e regulatórios.

Em outros casos, são problemas administrativos particulares, mudanças tecnológicas, reorganizações globais ou decisões estratégicas das próprias companhias.

Não existe, portanto, um único culpado nem uma única explicação capaz de reunir todos esses episódios.

Mas existe uma pergunta que não pode ser ignorada:

o Brasil está conseguindo oferecer condições suficientemente competitivas para que empresas mantenham e ampliem aqui suas fábricas, seus investimentos e seus empregos?

Quando a placa baixa perto de casa

É nesse contexto que o fechamento das Casas Bahia em Tangará da Serra ganha significado especial para Nova Olímpia e região.

Talvez uma fábrica fechada em Pernambuco pareça distante.

Talvez uma siderúrgica reduzindo produção em São Paulo não seja assunto para o café da manhã de quem mora em Nova Olímpia.

Talvez empresas construindo fábricas em Ciudad del Este pareçam uma discussão restrita aos economistas.

Até que a porta fecha ali perto.

Tangará da Serra é referência regional em comércio, serviços, educação e saúde e recebe diariamente consumidores de Nova Olímpia e de vários municípios do Médio-Norte.

Quando uma das maiores e mais tradicionais redes varejistas brasileiras decide deixar a cidade, dentro de uma reestruturação que eliminou quase 300 lojas pelo país, a discussão nacional ganha endereço conhecido.

E talvez seja exatamente esse o alerta.

Não se trata de decretar uma crise generalizada ou afirmar que o Brasil esteja sendo abandonado pelas empresas. Os fatos disponíveis não autorizam essa conclusão.

Mas também seria imprudente tratar cada fechamento, cada centena de demissões, cada linha de produção interrompida e cada novo investimento brasileiro do outro lado da fronteira como acontecimentos completamente desconectados.

Casas Bahia fecha centenas de lojas. Gerdau reduz produção e empregos. ADM encerra uma fábrica com mais de 900 trabalhadores. GE Vernova fecha uma unidade envolvendo cerca de mil postos. Michelin deixa de produzir em Guarulhos. M. Dias Branco desativa uma fábrica. Bridgestone alerta para a maior crise já enfrentada pelo setor de pneus. Atlas suspende US$ 1 bilhão em novos projetos. Enquanto isso, Lupo, Karsten e outras empresas brasileiras descobrem que produzir no Paraguai pode sair significativamente mais barato.

Cada história tem suas particularidades.

Mas o conjunto merece atenção.

Porque uma economia não perde sua capacidade produtiva de uma só vez.

Ela pode perdê-la aos poucos — uma fábrica que fecha aqui, uma linha de produção que muda de endereço ali, um investimento que deixa de acontecer acolá e uma nova unidade que, em vez de nascer deste lado da fronteira, começa a produzir do outro.

E quando uma dessas portas baixa praticamente no nosso quintal, talvez seja hora de olhar com mais cuidado para o que está acontecendo no restante do país.

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