Camisa amarela com detalhes em verde (nas golas ou mangas), calção azul e meia branca. Você certamente conhece essa combinação nas roupas. É o uniforme principal da seleção brasileira de futebol, que por causa disso é conhecida como seleção amarelinha ou seleção canarinho.
Basta pensar na seleção brasileira para que a primeira coisa que venha à mente de alguém —seja da Inglaterra, da Argentina, da Índia ou até do Japão— é a imagem de algum craque, como Pelé, Ronaldo, Romário, Vini Jr. ou Zico, vestindo amarelo.
Mas será que não faria mais sentido usarmos uma camiseta verde, já que essa é a principal cor da bandeira do Brasil? Por que a roupa da seleção não seguiu essa lógica?
Por muitos anos, a seleção brasileira jogou com a camisa branca —até o fatídico 16 de julho de 1950, data do Maracanaço. Naquele dia, o Brasil perdeu a final da Copa do Mundo para o Uruguai, com o estádio do Maracanã, no Rio de Janeiro, lotado, com mais de 190 mil pessoas —por muito tempo, aquele foi considerado o maior vexame da história do time, até que viesse o 7 a 1 contra a Alemanha, em 2014.
O resultado da partida de 1950 fez com que o público brasileiro associasse a camiseta branca ao azar. Essa má fama motivou a CBD (Confederação Brasileira de Desportos), organização responsável pela seleção na época, a criar um concurso em parceria com o jornal carioca Correio da Manhã, no qual qualquer pessoa poderia enviar sugestões para um novo uniforme.
A imagem mostra um jogador de futebol em movimento, prestes a chutar a bola. Ele está usando uma camisa clara e calças escuras, com meias até os joelhos. O campo está coberto de grama e ao fundo há uma grande multidão assistindo ao jogo. Outro jogador, vestido de branco, está visível à direita, mas não está em foco.
O atacante uruguaio Alcides Gigghia chuta para marcar o gol que deu o título ao Uruguai na final da Copa do Mundo de 1950 – 16.jul.50/Reprodução
Uma das pessoas que viu o anúncio e decidiu participar foi um desenhista e amante de futebol, na época morador de Pelotas, no Rio Grande do Sul. Ele se chamava Aldyr Garcia Schlee e tinha menos de 20 anos na época.
No começo Aldyr teve um pouco de dificuldade para criar o uniforme, pois as regras do concurso exigiam que ele usasse todas as cores da bandeira: verde, amarelo, azul e branco. O gaúcho as dispôs em diferentes padrões na camisa, às vezes em listras, outras no formato de V. Mas percebeu que todas as cores juntas não ficavam bem na camisa. Então decidiu fazer uma versão inteira amarela, com detalhes em verde, um calção azul e meias brancas, acreditando que a combinação mais simples ficaria melhor.
Essa proposta acabou vencendo a competição e, assim, nasceu a camisa amarela da seleção brasileira. A primeira partida em que foi usada foi em uma vitória de 2 a 0 contra o Chile, em 1954, mas, na sua primeira Copa do Mundo, a amarela não se saiu bem, com o Brasil sendo eliminado nas quartas de final.
Foi apenas nas copas seguintes que a camisa ganhou o status que tem hoje, com as vitórias em 1958, 1962 e 1970, naquela que é considerada a era de ouro, quando a maneira técnica e habilidosa da seleção, conhecida como futebol-arte, com jogadores como Pelé, catapultou o futebol brasileiro para o mundo.
Curiosamente, na final da Copa de 1958, o Brasil não pôde jogar com a camisa amarela, pois seu adversário, a Suécia, também utilizava essa cor e, como era o país-sede, teve a vantagem na escolha.
A seleção precisou encontrar uma nova camisa para o jogo. Então, uma das pessoas que trabalhavam na equipe decidiu escolher o azul, inspirado no manto utilizado por Nossa Senhora Aparecida, considerada pelos católicos a protetora do Brasil. Assim, nasceu o uniforme reserva também utilizado atualmente.
A popularização do uniforme da seleção brasileira saiu do universo do futebol e entrou no da moda. Talvez você já tenha ouvido falar de um tal de “Brazil core”, uma tendência estética que pode ser traduzida como “essência do Brasil” e envolve o uso de roupas mais leves, como shorts, chinelos e camisetas amarelas, com imagem da bandeira ou a da seleção.
Não existe um registro exato de quando o “Brazil core” surgiu, mas, neste ano, ele ganhou força novamente, especialmente nas redes sociais, com pessoas fazendo vídeos com diferentes looks.
De tão simbólica, a camisa da seleção também acabou ganhando outro significado no país, mais ligado a movimentos políticos. Ela foi usada em manifestações como as das Diretas Já, em 1984, pelo fim da ditadura militar e, mais recentemente em protestos contra o governo em avenidas das grandes cidades.
Nos ataques de 8 de janeiro de 2023, quando um grupo de pessoas invadiu e depredou vários prédios públicos de Brasília, muitos dos manifestantes usavam a camisa amarela. A CBF, confederação responsável pela seleção, teve de ir a público dizer que não concordava com as atitudes dos manifestantes;
No entanto, independentemente da política ou da moda, usar a camisa da seleção brasileira às vezes só significa torcer para que o Brasil conquiste o hexa. Será que ele vem?


