O fim da escala 6×1 – modelo em que o trabalhador atua seis dias e descansa um – e a adoção da jornada 5×2, com dois dias de folga, deve causar impacto aos setores produtivos, como analisam, no cenário mato-grossense, as Federações das Indústrias no Estado de Mato Grosso (Fiemt), das Associações Comerciais e Empresariais de Mato Grosso (Facmat) e Câmara de Dirigentes Lojistas de Cuiabá (CDL).
Nos últimos dias, a proposta passou a tramitar em regime de urgência no Congresso Nacional. Com isso, os parlamentares têm até 45 dias para analisar o texto, sob risco de travar a pauta de votações caso não haja deliberação.
ESCALA 5×2
Cenário até agora
???? O que éModelo em que o trabalhador atua 5 dias e folga 2 por semana.
???? Situação atualJá é permitido pela CLT, mas não é obrigatório. Convive com outras escalas, como a 6×1.
???? Jornada vigenteLimite de até 44 horas semanais, com possibilidade de compensação.
???? Discussões no CongressoProjetos propõem jornada de 40 horas semanais com escala 5×2 e implementação gradual.
???? Possíveis mudançasAlgumas propostas preveem redução maior, chegando a 36 horas semanais.
???? ObjetivoSubstituir a escala 6×1 e ampliar o descanso semanal.
???? Cenário atualMedidas ainda não foram aprovadas e seguem em tramitação no Congresso.
???? Panorama geralA escala 5×2 já existe, mas o debate é torná-la padrão no país.
Atualizado em 2026
O governo federal tenta acelerar a aprovação, impulsionado pelo apoio de trabalhadores à mudança. Já o presidente da Câmara, Hugo Motta, defende que o tema seja tratado por meio de uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC), que já foi apresentada e aguarda análise na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ).
O fim da escala 6×1 é uma marca que o presidente Lula (PT) quer deixar ao fim de seu terceiro mandato e, consequentemente, aliar forças para sua possível reeleição – pois ele já confirmou sua pré-candidatura à Presidência em 2026.
Conforme projetos em tramitação, a principal mudança proposta é a redução gradual da jornada de trabalho de 44 horas semanais para 40 horas, chegando a 36 horas em algumas propostas – sem alteração salarial – e substituindo, portanto, a atual escala de 6×1, comum em setores como Comércio e Serviços.
O Art. 67 da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) assegura o direito a, pelo menos, um descanso semanal de 24 horas consecutivas. Ele não pode ser descontado do salário e preferencialmente deve coincidir com o domingo.
Para o ministro do Trabalho e Emprego, Luiz Marinho, uma forma de amenizar os possíveis impactos da nova escala às empresas, a redução de jornada seria feita de forma gradual: 42 horas semanais em 1º de janeiro de 2027, atingindo 40 horas apenas em 1º de janeiro de 2028.
Apesar do avanço das discussões e do apoio do governo federal à redução da jornada, as propostas ainda não foram aprovadas e seguem em análise no Congresso. O tema deve permanecer entre as prioridades ao longo de 2026.
ESCALA 5×2
Pontos do debate
✅ A favorMelhor qualidade de vida, redução de distúrbios emocionais relacionados ao trabalho, como burnout, e possível ganho de produtividade.
❌ CríticasEstudos apontam risco de impacto em empregos, produtividade e custos em alguns setores, como comércio e serviços.
Impactos em Mato Grosso
O Primeira Página entrou em contato com os principais representantes dos setores da Indústria, Mercado e empresas mato-grossenses para analisar os possíveis impactos da implementação da lei no estado. Confira abaixo o que cada uma delas informou:
Federação das Indústrias
Em Mato Grosso, a redução da jornada semanal de trabalho de 44 para 40 horas semanais pode gerar um impacto anual de R$ 5,1 bilhões com encargos e horas extras para o setor produtivo, como aponta um estudo feito pelo Observatório do Sistema Federação das Indústrias do estado (Fiemt).
A estimativa da Federação leva em consideração os setores de Agropecuária, Comércio, Indústria, Serviços e Serviço Público, e foi baseada em dois cenários: novas contratações ou pagamento de horas extras.
O estudo aponta, ainda, uma perda de mais de 155 milhões de horas de produção por ano com a alteração trabalhista, impactando a produtividade e competitividade de todos os setores da economia, provocando uma “necessidade imediata de reposição de capital humano”.
Nesse cenário, o Observatório afirma que o setor produtivo pode ter um aumento de 9,92% no custo na folha de pagamento ao realizar novas contrações, e de 14,88% ao realizar pagamento de horas extras.
No setor de Indústria, ainda conforme o Observatório, mais de 160 mil empregados seriam diretamente impactados e mais de 34 milhões de horas seriam perdidas, causando aumento de custo de R$ 1,2 bilhão por ano no cenário que considera o pagamento de hora extra e pouco mais de R$ 800 milhões em caso de novas contratações na folha de pagamento.
Esses valores são significativos, já que representam, juntos, mais de 5% do Produto Interno Bruto (PIB) de Mato Grosso, que é de R$ 36,4 bilhões.
Possíveis impactos da escala 5×2
???? Pagamento de horas extrasAumento estimado de R$ 5,1 bilhões na folha de pagamento dos funcionários formais: alta de 14,88% em relação ao custo atual.
???? Novas contrataçõesAumento estimado de R$ 3,4 bilhões na folha de pagamento dos funcionários formais: alta de 9,92% em relação ao custo atual.
Fonte: Fiemt
Tais impactos poderiam ser amenizados, conforme o Fiemt, caso a redução de jornadas não fosse generalizada para todos os setores e feita de forma gradual.
Para o presidente da Fiemt, Silvio Rangel, o Brasil ainda não dispõe de condições estruturais em termos de produtividade, competitividade e base tecnológica para suportar uma redução de jornada por imposição legal sem comprometer a sustentabilidade econômica das empresas, especialmente das micro e pequenas, que respondem por parcela significativa dos empregos formais.
Em Mato Grosso, do total de mais de 16 mil estabelecimentos industriais, 96% são micro e pequenas empresas.
Além disso, a medida pode gerar impactos para toda a sociedade, uma vez que o aumento dos custos de produção tende a ser repassado ao preço final dos produtos, pressionando a inflação e reduzindo o poder de compra da população.
Câmara dos Dirigentes Lojistas
Para a Câmara dos Dirigentes Lojistas (CDL Cuiabá), o tema também deve ser debatido de forma gradual, incluindo a participação de sindicatos, já que cada profissão tem particularidades que “impedem a imposição de um padrão único para todo o mercado”.
A proposta de redução de horas trabalhadas não tem indícios de afetar o salários dos trabalhadores, mas as empresas terão custo adicional de 25% em sua despesa operacional, o que pode levar muitas delas a enfrentar problemas sérios ou até fechar, como alertou o presidente da CDL, Júnior Macagnam.
A entidade de lojistas lembra que o objetivo de melhoria da qualidade de vida do trabalhador é legítimo, mas as mudanças precisam considerar emprego e produtividades nos setores empresariais.
Outro ponto destacado pela CDL é em relação aos setores com funcionamento contínuo, como comércio, supermercados, farmácias, restaurantes e serviços urbanos – que não podem, segundo o órgão, simplesmente fechar um dia da semana.
Instituto de Pesquisa e Análise da Fecomércio
O Instituto de Pesquisa e Análise da Fecomércio de Mato Grosso (IPF-MT) publicou um estudo com base na análise de dados da Relação Anual de Informações Sociais (RAIS) de 2024, para estimar efeitos sobre a massa salarial, o excedente operacional bruto e os preços ao consumidor caso a nova escala de trabalho seja sancionada no país.
Atualmente, 1,2 milhão de pessoas são empregadas formalmente no estado, segundo a RAIS, sendo os setores de Agricultura e Pecuária responsáveis por 96% do cenário de empregos, com mais de 151 mil trabalhadores cumprindo mais de 40 horas semanais.
Em seguida, vem o setor de Indústria, com mais de 131 mil trabalhadores também cumprindo carga horária acima das 40 horas semanais previstas na nova escala, responsável por 88% do cenário de empregos.
Dessa forma, o Instituto analisa um custo adicional entre R$ 913 milhões e R$ 2,2 bilhões mensais para a economia mato-grossense, um montante de até R$ 669,8 milhões para o Comércio e outros R$ 759,4 milhões para os Serviços, considerando a necessidade de novas contratações em um cenário futuro.
Ao transferir essa análise para empresas, o peso da alteração fica ainda mais concentrado em empresas de menor porte, como é mostrado abaixo:
Um estudo recente da Confederação Nacional do Comércio (CNC) indica que, para cada 1% de aumento na massa salarial do comércio, os preços ao consumidor final sobem cerca de 0,6%. Esse estudo foi citado pelo Instituto de Pesquisa e Análise da Fecomércio de Mato Grosso para embasar as análises dos impactos causados pela escala 5×2.
ESCALA 5×2
Custo econômico adicional por mês
???? Microempresa
- Participação no custo geral: 16%
- Comércio: 18%
- Serviços: 16%
???? Pequena empresa
- Participação no custo geral: 47%
- Comércio: 58%
- Serviços: 49%
???? Média empresa
- Participação no custo geral: 10%
- Comércio: 9%
- Serviços: 12%
???? Grande empresa
- Participação no custo geral: 27%
- Comércio: 15%
- Serviços: 23%
???? Total estimado
Custo geralR$ 2,2 bilhões100%
ComércioR$ 669,8 milhões100%
ServiçosR$ 759,4 milhões100%
Fonte: RAIS 2024 e estimativas IPF-MT
No cenário em que apenas 40% das contratações necessárias fossem realizadas, o impacto nos preços ao consumidor em Mato Grosso poderia chegar a 24%, uma alta significativa diante das margens já apertadas do setor. Considerando apenas a reposição de horas de trabalho, o custo anual estimado varia entre R$ 4,5 bilhões e R$ 11,8 bilhões.
“Portanto, essa alteração gera um choque macroeconômico alterando preços e nível produtivo, assim como impacta a microeconomia nas margens de lucro, sustentabilidade dos negócios e incentivo a investimentos. Os resultados negativos e contrários ao intuito da lei proposta podem ser ainda maiores, ao pressionar os trabalhadores em mais de um emprego ou ainda com a inversão, em Mato Grosso, por exemplo, da formalidade versus informalidade”, diz trecho do estudo publicado pelo IPF-MT.
Federação das Associações Comerciais e Empresariais
ESCALA 5×2
Efeitos indiretos da mudança de jornada
???? Substituição de trabalhoEmpresas podem acelerar automação e digitalização para reduzir dependência de mão de obra.
???? Aumento da informalidadeEmpresas menores podem migrar parte das relações para contratos menos regulados, reduzindo arrecadação.
???? Reestruturação produtivaPequenas empresas enfrentam mais dificuldade de adaptação, favorecendo a concentração de mercado.
???? Impacto macroeconômicoO aumento de preços reduz o poder de compra das famílias, limitando ganhos com redução da jornada.
???? Mercado de trabalhoMato Grosso opera próximo ao pleno emprego; novas contratações exigem qualificação e mobilidade.
Fonte: IPF-MT
O Primeira Página entrou em contato também com a Federação das Associações Comerciais e Empresariais de Mato Grosso (Facmat), que se manifestou contrária à aprovação da Proposta de Emenda à Constituição que propõe a redução de jornada semanal de trabalho, apesar de afirmar que “respeita o objetivo social que inspira o debate, especialmente a busca por melhor qualidade de vida, convivência familiar e equilíbrio entre vida pessoal e trabalho”.
Responsável por representar 57 associações comerciais no estado, a Facmat defende, como alternativa, investimentos em educação, qualificação profissional e produtividade, além de fortalecer negociações flexíveis entre empregadores e trabalhadores, respeitando direitos legais e adaptando jornadas à realidade de cada setor e região.

“Essa alternativa permite maior equilíbrio entre proteção social e viabilidade econômica, evitando uma imposição constitucional uniforme para realidades produtivas profundamente distintas no país”, diz trecho da nota encaminhada pela Federação.
O Primeira Página entrou em contato, ainda, com o Sindicato do Comércio Varejista de Derivados de Petróleo (Sindipetroleo), mas não obteve retorno até o momento.
Já representantes dos shoppings de Cuiabá e Várzea Grande, além do Sindicato das Indústrias de Frigoríficos do Estado de Mato Grosso (Sindifrigo-MT), informaram que não irão se pronunciar sobre o assunto, enquanto



