quinta-feira, 4 junho 2026
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UFMT, 55 ANOS – Universidade divisora de época em Mato Grosso

Desde 10 de dezembro de 1970 a UFMT promove transformações no território mato-grossense, sendo ela a maior

Mesmo isolada do país por falta de acesso pavimentado, cercada pela América do Sul por todos os lados e com a energia oscilante gerada por conjuntos estacionários, Cuiabá ostentando o título de Portal da Amazônia estava no centro das atenções do Brasil por ser a capital de um estado maior que a Bolívia, e que se estendia do Amazonas ao Paraná, de Goiás ao Paraguai, de São Paulo ao Pará, e onde as terras tinham preço de banana. Era um Eldorado que mexia com o imaginário de pecuaristas, agricultores, comerciantes, empresários, profissionais liberais, enfim, com todos. Mudar-se para Cuiabá ou se embrenhar no vazio demográfico para formar fazenda e até mesmo participar da fundação de alguma cidade virou mania verde e amarelo. Porém, para muitos havia um, porém – o mesmo porém que obrigava famílias cuiabanas a mandarem seus filhos para o Rio de Janeiro e outras capitais em busca do ensino superior, que na Terra de Rondon praticamente não existia.
No começo de 1970, neste cenário, o governador Pedro Pedrossian e seu secretário de Educação, Gabriel Novis Neves, foram ao ministro da Educação, Jarbas Passarinho, pedir a criação da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT). Passarinho, amazônida e entusiasta da interiorização dos cursos universitários, levou a demanda ao presidente Emílio Garrastazu Médici, que a abraçou. Para alegria dos 100.860 cuiabanos e dos 18.305 várzea-grandenses, naquele ano Papai Noel chegou mais cedo. Em 10 de dezembro Médici e Passarinho chancelaram a criação da UFMT, que por falta de meios de comunicação à época, foi chamada de Uniselva, por muitos. Transcorridos 55 anos, há mais de uma data a ser celebrada: Mato Grosso comemora um divisor de época – o antes e o depois da UFMT.
As duas canetadas deram o sopro de vida institucional à UFMT, que teve um embrião cuiabano: a incorporação da Faculdade de Direito, criada em 1934, e do Instituto de Ciências e Letras de Cuiabá, instalado em 1966; e no contexto embrionário havia uma joia da coroa: a Faculdade de Medicina que foi instituída no começo de 1970 por Pedro Pedrossian e Gabriel Novis Neves.
No dia seguinte às canetadas, o DIÁRIO publicou em editorial e estampou em manchete a grande vitória mato-grossense, causa que ele abraçou desde sua fundação em 24 de dezembro de 1968 pelo jornalista cuiabano João Alves de Oliveira.
Em 1970, dezembro era mês do inverno amazônico. Cuiabá chovia sem parar. As obras do campus estavam em andamento, mas dependiam do bom humor de São Pedro. Como tudo no Brasil – em se tratando de governo – cronograma é vaga referência, e elas se arrastaram até 1973, o ano em que a UFMT fisgou uma de suas figuras mais emblemáticas, a professora Maria Lúcia Cavalli Neder.
Professora recém-formada no interior paulista, Maria Lúcia desembarcou em Cuiabá no mês de fevereiro de 1973 e foi enleada por uma conspiração amorosa formada pelo calor, o azul do céu e o quê de encanto desta cidade que brotou bem no centro da América do Sul. À época, homens e máquinas trabalhavam “Em ritmo de Brasília”, como se dizia, em alusão ao piscar de olhos que foi a construção da capital federal pela ousadia do visionário estadista Juscelino Kubitschek. A correria era para concluir a construção da UFMT.
Encantada pelo calor e o azul do céu, Maria Lúcia bateu às portas da UFMT. Foi atendida por Gervásio Leite. Esse encontro da menina-mulher com a Universidade em construção foi o primeiro passo de uma caminhada ditada por uma paixão avassaladora ao longo de 45 anos ininterruptos, que a cada segundo mais e mais as fez complemento uma da outra e vice-versa. Esse quase meio século de boa e salutar cumplicidade resultou numa arejada, fértil e fabulosa relação bem proveitosa para ambas. Para a normalista foi mais que uma função, pela multiplicidade de suas atribuições – sem abrir mão da missão de professora que lhe proporcionou amizades sinceras, alargou horizontes profissionais com a conquista do mestrado e do doutorado. Para a Instituição virou marco referencial, pois aquela professora menina no ontem foi agente da sua maior guinada física no campus de sua sede em Cuiabá e nos demais campi, quando sua reitora por dois mandatos (2008/16).
Deputado constituinte em 1947, presidente da OAB regional, desembargador do Tribunal de Justiça, escritor com várias obras publicadas, membro e presidente da Academia Mato-grossense de Letras, jornalista e professor da UFMT, Gervásio Leite que a acolheu foi uma das figuras mais notáveis de Mato Grosso em sua época.

T’CHEGADA – Desde o primeiro momento Cuiabá abraçou a UFMT. Não era segredo para ninguém que Mato Grosso daria um grande salto desenvolvimentista. O ministro do Planejamento, João Paulo dos Reis Velloso, elaborou um plano tão ousado que tinha contornos de pirotecnia. A Universidade não podia ficar para trás, por ela em si, e pela correspondência que se projetava para sua relação com o novo Mato Grosso, que inevitavelmente seria desmembrado para a criação de Mato Grosso do Sul, o que aconteceu em 1977.
João Celestino Corrêa Cardoso Neto era um nome estranho a Cuiabá. Porém, se alguém se referisse a ele por seu apelido, João Balão, a cidade inteira saberia de quem se tratava. Maior empreendedor na noite cuiabana, João Balão também estendeu a mão à UFMT.
Pantaneiro, pecuarista e investidor, João Balão também era médico-veterinário, e estendeu a mão à UFMT compondo seu Conselho Diretor ao longo da década de 1970, período inicial e o mais difícil da UFMT, tendo assinado inúmeras e importantes resoluções do Conselho, à época, presidido por Gabriel Novis Neves.
No engatinhar da UFMT estavam em curso as obras de pavimentação da BR-364, de Goiânia para Cuiabá, e da BR-163, de Campo Grande para o mesmo destino; em sua vizinhança acabava de ser instalado o 9º BEC, para construir a lendária Cuiabá-Santarém; e em várias regiões colonizadores criaram loteamentos urbanos que resultaram em Sinop, Sorriso, Lucas do Rio Verde, Nova Mutum, Canarana, Água Boa, Querência, Terra Nova do Norte, Vila Rica, Alta Floresta, Colíder, Comodoro, Campo Novo do Parecis, Marcelândia, Juara, Tapurah e outras cidades, e o governo criou Juína e Peixoto de Azevedo.
Cuiabá tentava manter ares de cidade sisuda, mas a irreverência dos alunos da UFMT mudou conceitos ao criarem a Escola de Samba Mocidade Independente Universitária, que tomava a avenida com as curvas estonteantes de suas passistas e destaques, com samba no pé e pouca roupa. Aos integrantes da escola, sempre se juntavam seus namorados e namoradas. A UFMT lançou luzes de juventude sobre a cidade que acabava de completar 250 anos em ritmo de festejos religiosos.
Em 1995 a UFMT diplomou a primeira turma de Comunicação em Mato Grosso, com oito jornalistas, seis radialistas e sete publicitários. Os pioneiros do jornalismo foram Ademar Adams, Adilson Rosa da Silva, Aline de Paula Cubas, Francisca Bezerra de Medeiros, Gustavo Adolfo Capilé de Oliveira, Justina Fiori, Luzimar Maria da Silva e Neila Corrêa Ribeiro; no radialismo, Ademir Nunes de Siqueira, Glaucos Luis Flores Monteiro, Jane Bezerra Flores de Campos, José San Martín Caminã Neto, Lourembergue Alves e Paulo Figueiredo do Carmo; e na publicidade, Cláudia Cristina Neves Luz, Heliara Costa, Lucía Pozzi, Luciana Bezerra Figueiredo, Marcelucy Bueno de Moraes e Patrícia de Figueiredo Vilela.

JALECO – A Faculdade de Medicina criada em 1970 saiu do papel em 1979. Seus estudantes, no entanto, sofriam uma dor de cabeça: a UFMT não tinha um hospital-escola, situação essa que obrigava o aluno a sair para outros estados em busca de vagas para o Internato e a Residência Médica, pois a acanhada rede hospitalar cuiabana não tinha capacidade para atender a todos.
Uma Universidade não pode ser de improviso. Em 1979 a mão estendida de Cuiabá entrou em cena mais uma vez. O governador Frederico Campos cedeu em comodato à UFMT o desativado Hospital dos Tuberculosos, construído nos anos 1940 pelo interventor Júlio Müller. Em 1984, quando o governador era Júlio Campos aquela unidade hospitalar foi transformada no Hospital Universitário Júlio Müller da UFMT (HUJM); o reitor era o professor Benedito Pedro Dorileo; Gabriel Novis Neves era secretário estadual de Saúde; o professor Eduardo De Lamonica Freire chefiava o Departamento de Medicina; e o médico Fernando Arruda foi nomeado seu superintendente.
Único hospital federal em Mato Grosso, o HUJM ganhará novo endereço. À margem da rodovia MT-040, que liga Cuiabá a Santo Antônio de Leverger, uma parceria do Ministério da Educação (MEC) com a UFMT e o governo estadual constrói o novo HUJM, que funcionará a partir de 2026, sob a administração da Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (Ebserth) ligada ao MEC.
A velha instalação será coisa do passado, mas sempre terá reconhecimento pelo atendimento não somente aos mato-grossenses, mas, também, aos vizinhos de Rondônia, Acre e até da Bolívia. Linha de frente na luta contra a covid-19 o HUJM perdeu médicos e enfermeiros, mas não recuou. Durante a pandemia do vírus que ceifou milhares de vida no Brasil, as equipes médicas do HUJM enfrentaram isolamento que as afastavam do convívio familiar e social, como revela a médica anestesiologista, professora aposentada da UFMT e figura pública, Elza Queiroz.

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