Uma descoberta botânica histórica acaba de colocar o Piauí no centro das atenções da conservação ambiental no Brasil. Pesquisadores da Universidade Federal do Piauí (UFPI), em parceria com o Instituto Nacional da Mata Atlântica (INMA), registraram pela primeira vez no Nordeste a espécie Utricularia warmingii, uma planta carnívora aquática raríssima.
O achado ocorreu em áreas alagadas do município de Campo Maior, a cerca de 80 quilômetros de Teresina, durante um inventário realizado em 2023. A importância do registro fica ainda maior pelo fato de a planta não ser vista em certas regiões brasileiras há quase um século.
Em São Paulo, por exemplo, o último registro datava de 1939, e em Minas Gerais ela não era coletada desde sua descrição original, em 1877.
Com apenas seis centímetros de altura, ela é uma especialista em sobrevivência submersa. Utiliza estruturas microscópicas chamadas utrículos para capturar pequenos organismos aquáticos e possui hastes infladas de ar que permitem que suas flores brancas, com tons de amarelo e vermelho, flutuem na superfície.
Embora ocorra de forma espaçada em outros países da América do Sul, como Bolívia e Venezuela, sua presença no Brasil é extremamente isolada. Os pesquisadores estimam que a área real ocupada pela espécie em território nacional seja de apenas 36 km², o que torna as populações vulneráveis e com baixa capacidade de recolonização natural caso desapareçam.
Diante desses novos dados, o estudo publicado na revista científica Kew Bulletin sugere que a planta seja reclassificada como “em perigo” de extinção no Brasil. O maior desafio para a sobrevivência da espécie é a degradação de seu habitat: lagoas rasas e áreas úmidas temporárias.
Esses ecossistemas sofrem pressão constante da expansão agropecuária, do uso de fertilizantes que alteram a química da água e das mudanças climáticas que afetam o regime de cheias.


