Descobrir uma gravidez aos 13 anos mudou completamente a rotina de Anny Julieny Cortes. Ainda muito nova, ela conta que o início da gestação foi marcado por medo, choro e insegurança. Além da responsabilidade de se tornar mãe, a adolescente também enfrentou julgamentos e comentários preconceituosos.
“No começo eu não quis, não. Eu chorava de noite, porque eu era muito nova para ter filho”, relembra Anne. “Passei por muita coisa na minha gravidez e depois que tive ele também. Eu era muito desprezada. Falavam: ‘ela engravidou cedo, ela não sabe quem é o pai do neném’”, contou.
A história de Anne reflete uma realidade ainda presente em Mato Grosso. No ano passado, o estado registrou mais de 7,6 mil nascimentos de bebês de mães com idades entre 10 e 19 anos. Em Cuiabá, foram quase mil casos.
Além do impacto emocional e social, a gravidez na adolescência também exige atenção jurídica. Segundo a defensora pública Elianeth Nazário, adolescentes grávidas podem procurar a Defensoria Pública antes mesmo do nascimento do bebê, especialmente quando precisam de apoio financeiro durante a gestação.
“Essa adolescente pode nos procurar. Nós vamos chamar o suposto pai, que geralmente também é um adolescente, e podemos fazer um pedido de alimentos gravídicos. Para quê? Para que ela tenha uma segurança financeira um pouco melhor do que a que ela dispõe sozinha”, explicou a defensora.
Os alimentos gravídicos são valores destinados a ajudar nas despesas da gestação, como alimentação, consultas, exames e outros cuidados necessários antes do nascimento da criança. Para a Defensoria, garantir esse suporte ainda durante a gravidez é uma forma de reduzir a vulnerabilidade da adolescente.
Elianeth também destaca que, após o nascimento do bebê, a Defensoria pode atuar em casos de dúvida ou resistência em relação à paternidade.
Família da Anne que está grávida aos 13 anos. – Foto: Arquivo pessoal]
“Depois que nasce o neném, se esse pai não quiser fazer o reconhecimento, se tiver dúvidas ou se a família se opuser, a Defensoria Pública oferece o exame de DNA gratuito”, afirmou.
Para a defensora, a gravidez na adolescência não deve ser tratada apenas como um problema individual ou familiar. Ela defende que o tema seja encarado como política pública, com atuação integrada entre saúde, assistência social, conselhos tutelares, CRAS, CREAS e Defensoria.
Na área da saúde, o Estado afirma manter estratégias voltadas à prevenção da gravidez na adolescência. De acordo com Helen Santana, técnica da Rede Materno-Infantil da Secretaria de Estado de Saúde de Mato Grosso, uma das ações é o planejamento reprodutivo, feito por equipes multidisciplinares.
“O Estado dispõe de estratégias voltadas para esse público, entre elas o planejamento reprodutivo, por meio das Equipes Multidisciplinares de Aconselhamento, as EMAs. No estado, possuímos cerca de 70 EMAs, onde a adolescente tem acesso a orientações para a prevenção da gestação”, afirmou.
Quando a gravidez já é uma realidade, o acompanhamento começa na unidade de saúde. A rede municipal faz o primeiro acolhimento quando a adolescente chega com suspeita de gestação, com solicitação de exame, testes rápidos e orientações iniciais sobre as mudanças no corpo e os cuidados necessários.
“Quando elas comparecem à unidade com suspeita, a gente faz a solicitação do exame para comprovação, mas, naquele momento, já começa a primeira parte do atendimento, com testes rápidos e as primeiras orientações”, explicou uma profissional da rede municipal.
Apesar de a maternidade precoce não estar nos planos, Anne agora tenta reorganizar a vida. Com o filho Arthur nos braços, ela diz que quer voltar a estudar, trabalhar e fazer faculdade.
“Eu pretendo voltar a estudar, levar ele comigo, trabalhar, fazer faculdade, terminar meus estudos, tudinho com ele do meu lado”, contou.


