O sábado (12) entrou para a história da capoeira de Nova Olímpia. Após 25 anos de dedicação ininterrupta, o capoeirista e produtor cultural Valter Lara, conhecido como Mikoka, recebeu a corda marrom e foi oficialmente formado professor de capoeira. A graduação ocorreu durante o IV Encontro Estadual de Capoeira Capuerê ‘Eu Vi Malandro e Mandingueiro’, realizado no Auditório Municipal Professora Sandra Rodrigues.
O encontro reuniu mestres, mestrandos, professores, graduados e alunos de várias cidades de Mato Grosso. Além da cerimônia de graduação, a programação contou com apresentações culturais, homenagens, depoimentos e rodas de capoeira, envolvendo participantes.
Realizado por meio da Política Nacional Aldir Blanc (PNAB), o evento também homenageou a memória do Graduado Furão, capoeirista e multiartista novaolimpiense que participou do desenvolvimento da modalidade no município.
Uma trajetória de resistência
Mikoka começou na capoeira ainda criança, sob a orientação de mestre Urubu, seu único mestre ao longo da trajetória. Participou de trabalhos da Associação Folclórica Capitães de Areia e de manifestações culturais como Maculelê, Balé Baiano, Puxada de Rede, Dança do Siriú e Samba de Roda.
Em 2010, participou, ao lado de seu mestre, da criação da Associação Cultural de Capoeira Capuerê, à qual permanece ligado. Desde então, passou a atuar em treinos, rodas, eventos, intercâmbios, oficinas, palestras e formações, além de ministrar aulas em Nova Olímpia e em outros municípios.
A caminhada ganhou um significado ainda maior depois do acidente que retirou os movimentos de suas pernas. Cadeirante, Mikoka retomou as atividades e voltou a ensinar capoeira. Naquele recomeço, conforme relatou, possuía apenas uma cadeira de rodas, um sonho e dois alunos.
Durante a abertura do encontro, ele relembrou as dúvidas que ouviu quando decidiu voltar a ministrar aulas.
“De tantas pessoas eu ouvi: ‘Você não precisa provar mais nada para ninguém’, ‘Você dará conta?’ e ‘Vai começar, mas vai terminar rapidinho’. É verdade: eu desisti. Eu desisti de desistir”, declarou.
A frase resumiu o espírito de uma cerimônia marcada pela superação e pelo reconhecimento construído ao longo de mais de duas décadas.
“Eu cheguei até aqui”
A troca do cordão foi acompanhada por familiares, alunos, amigos e representantes da capoeira mato-grossense. A emoção tomou conta do novo professor e também das pessoas que acompanharam sua caminhada.
“Não é um dia, não é um mês. São 25 anos de capoeira, treinando, cantando e correndo atrás dos meus objetivos. Foram muitas felicidades, muitas tristezas, mas, acima de tudo, pertencimento”, afirmou Mikoka.
Ele agradeceu aos alunos, aos mestres e, especialmente, a mestre Urubu, responsável por acompanhá-lo desde a infância.
“Ver os meus amigos aqui, que acreditam, confiam e reconhecem essa graduação de corda marrom, não dá para segurar a emoção. Fica tudo muito engasgado. É um momento de dizer: ‘Eu cheguei’. Não posso parar, cheguei até aqui”, disse.
Família e capoeira
Um dos momentos mais emocionantes ocorreu quando Mikoka chamou à frente sua mãe, Márcia Lara, apresentada como o elo entre a família e a capoeira. Ele relembrou a luta dela para criar cinco filhos e atribuiu à mãe parte da força que o manteve firme durante os momentos mais difíceis.
“Ela é minha força e minha criptonita. Para você ver um homem desse de pé, firme, é porque eu tive uma mãe”, declarou.
Dona Márcia também falou sobre a trajetória da família e deixou uma mensagem de perseverança.
“Tivemos uma vida com situações muito complicadas e complexas, mas estamos aqui, firmes e fortes. Quando cai, levanta e vamos para a luta. Não podemos deixar que nada nos abale”, afirmou.
Ela ainda destacou a importância de incentivar crianças e adolescentes a seguirem caminhos positivos e agradeceu a mestre Urubu pelo acompanhamento dado ao filho desde o início da caminhada.
Reconhecimento de quem acompanhou a caminhada
Durante a cerimônia, mestres e amigos relembraram passagens da trajetória de Mikoka. Um dos depoimentos recordou o período em que ele esteve internado após o acidente e o impacto causado pela notícia de que havia perdido os movimentos das pernas.
Anos depois, o amigo ressaltou a importância de vê-lo novamente inserido na capoeira, ensinando, participando das rodas e conquistando uma das graduações mais importantes de sua carreira.
Mestre Nego também destacou que o respeito alcançado por Mikoka foi conquistado por meio de sua postura e perseverança.
“Tem muitas pessoas com perna boa, braço bom e corpo bom que não querem dar aula. Ele desenvolve o trabalho aqui e continua levando a capoeira para outros lugares. Você não pode desistir. Ele é um cara vitorioso”, declarou.
Mestre Urubu, que conheceu Mikoka ainda criança, ressaltou que ministrar aulas exige mais do que habilidade dentro da roda.
“Dar aula não é apenas jogar capoeira. É preciso compromisso, responsabilidade, vontade e fazer acontecer. Vitorioso é aquele que permanece”, afirmou.
Arte como pertencimento
Além da capoeira, Mikoka possui uma trajetória ligada ao teatro, à música, à literatura e à produção cultural. É ator, diretor, apresentador, conselheiro municipal de cultura e um dos responsáveis por iniciativas como o Encontro Estadual de Capoeira Eu Vi Malandro e Mandingueiro e o festival teatral Palco Perebas.
Para ele, todas essas atividades estão conectadas pela ideia de resistência e pela responsabilidade de servir de referência para outras pessoas.
“Acima de tudo, a gente é resistência. A referência se constrói a partir de bons exemplos. É isso que tentamos desenvolver com a capoeira em Nova Olímpia e também nos outros segmentos em que atuo”, explicou.
Ao receber a corda marrom, Mikoka não apenas alcançou uma nova graduação. Diante da família, dos alunos e dos mestres que acompanharam sua caminhada, ele transformou uma história marcada por dificuldades, arte e persistência em uma demonstração de que nenhum limite precisa representar o fim de um sonho.








