A captura de um pirarucu de grande porte no Rio Paraguai, em Cáceres, não representa um episódio isolado, mas sim um sinal de um problema ambiental que vem se consolidando há mais de duas décadas no Pantanal. O alerta é do pesquisador Derick Victor de Souza Campos, do Laboratório de Investigação Ambiental do Pantanal Norte, da Universidade do Estado de Mato Grosso (Unemat).
Segundo o especialista, espécies exóticas como o pirarucu, o tucunaré e o tambaqui foram introduzidas no ecossistema pantaneiro principalmente por meio da piscicultura sem a devida regulamentação e por solturas clandestinas destinadas a fomentar a pesca esportiva.

Campos explica que, a partir dos anos 2000, houve uma significativa expansão da atividade aquícola na região, sem que fossem adotados mecanismos eficazes de fiscalização das estruturas utilizadas para a criação dos peixes.
Cheias favoreceram dispersão
Muitos criatórios foram implantados em áreas sujeitas a alagamentos periódicos. Com a ocorrência de cheias históricas, barragens e contenções acabaram rompidas, permitindo que espécies exóticas escapassem para córregos, lagoas e rios da região.
Um dos casos citados pelo pesquisador é o do Córrego do Caramujo, onde a soltura ilegal de alevinos de tucunaré em lagoas marginais acabou resultando em uma infestação da espécie após transbordamentos.
“Praticamente tem mais tucunaré do que espécies nativas lá”, afirmou Campos.
Como esses cursos d’água desembocam na Bacia do Rio Paraguai, a expansão dos predadores ocorre de forma relativamente rápida, ampliando os impactos sobre a fauna local.

Vantagens biológicas ampliam invasão
De acordo com o pesquisador, o sucesso adaptativo do pirarucu e do tucunaré está relacionado a características reprodutivas que lhes conferem vantagem sobre diversas espécies nativas do Pantanal.
Enquanto muitos peixes pantaneiros deixam seus ovos e larvas expostos à predação natural, essas espécies exóticas protegem seus filhotes durante os estágios iniciais de desenvolvimento, aumentando significativamente suas taxas de sobrevivência.
Além disso, o pirarucu realiza desovas parceladas ao longo do período reprodutivo, o que potencializa sua capacidade de colonização. Em contraste, espécies nativas como o pacu normalmente realizam apenas uma desova por temporada.
Outro fator de preocupação é a competição por alimento e espaço. Por serem maiores e mais agressivos, os tambaquis frequentemente afugentam espécies locais durante a alimentação e o período reprodutivo. O fenômeno pode favorecer processos de hibridização, gerando alterações genéticas nas populações nativas da bacia.
Ameaça sanitária
Além dos impactos ecológicos e da redução dos estoques pesqueiros a médio e longo prazo, o pesquisador destaca um risco ainda pouco conhecido: a introdução de doenças.
Peixes oriundos de criatórios podem transportar patógenos, fungos e parasitas desconhecidos pela fauna pantaneira. A eventual disseminação dessas enfermidades pode comprometer populações inteiras de espécies nativas que não possuem resistência natural aos novos agentes.
Segundo Campos, uma doença introduzida por espécies exóticas tem potencial para causar perdas significativas em grupos de peixes já adaptados ao ambiente pantaneiro.
Orientação aos pescadores
Diante da dificuldade de erradicar espécies invasoras em ambientes naturais de grande extensão, como baías e rios do Pantanal, uma das principais estratégias de controle depende da colaboração dos pescadores.
Conforme estabelece a Resolução nº 02/2024 do Conselho Estadual de Pesca de Mato Grosso (Cepesca-MT), toda captura de espécies exóticas, como pirarucu e tucunaré, deve resultar no abate imediato e embarque do animal.

“Pegou um pirarucu, abate. Pegou um filhote, embarca. Não existe medida mínima para essas espécies e elas não entram na contagem da cota permitida para peixes nativos”, explicou o pesquisador.
A legislação permite o transporte de qualquer quantidade dessas espécies sem aplicação de sanções ambientais.
A medida, entretanto, enfrenta resistência entre praticantes da pesca esportiva adepta do sistema “pesque e solte”. Para o especialista, devolver exemplares de tucunaré ou pirarucu às águas do Pantanal contribui diretamente para o agravamento do problema ambiental.
Necessidade de maior controle
A comunidade científica defende o fortalecimento da regulamentação da atividade aquícola como medida fundamental para conter novas invasões biológicas.
Entre as propostas estão a exigência de identificação formal dos criadores para aquisição de alevinos, mecanismos de rastreamento da comercialização desses animais, fiscalização mais rigorosa da engenharia dos tanques de criação e a adoção de estruturas resistentes a eventos de inundação.
Os pesquisadores também incentivam a criação de espécies nativas de alto valor comercial, como pintado, cachara, dourado e pacu, que oferecem menor risco ao equilíbrio ecológico do Pantanal em caso de fugas acidentais.
(Redação EB-enfoquebusiness.com.br, com Assessoria Unemat)


