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Do Sítio e do Garimpo para as Telas: A Trajetória Premiada de “Belo Ouro” no Cinema de Mato Grosso

Na última semana, a equipe do portal Click Nova Olímpia esteve no Sítio Bilui Bio, localizado na comunidade rural Nova Conquista, em Nova Olímpia, para registrar uma entrevista especial sobre uma conquista que projeta o talento regional no cenário cinematográfico de Mato Grosso.

Domingo (04/07), o curta-metragem “Belo Ouro” foi eleito o Melhor Curta de Mato Grosso no Festival Cinema Mato — Cinemato, realizado em Cuiabá. A produção também garantiu ao ator novaolimpiense Genival Soares o prêmio de Melhor Ator.

Com direção e roteiro de Pither Lopes, o filme é resultado de uma produção independente construída a partir das vivências, das raízes e da sensibilidade de artistas mato-grossenses. A obra reúne elementos do garimpo, da relação do homem com a terra, dos conflitos sociais e da busca pela sobrevivência.

Foi em meio à natureza, à simplicidade e à proposta sustentável do Sítio Bilui Bio que o Click Nova Olímpia conversou com o ator e o diretor. Durante a entrevista, os dois falaram sobre suas trajetórias, os desafios da produção, a construção dos personagens, a emoção das premiações e os próximos passos do filme.

De Minas Gerais para Mato Grosso: a trajetória de Genival Soares

A caminhada de Genival Soares nas artes começou muito antes de sua chegada a Mato Grosso. Natural de Minas Gerais, ele se mudou para o estado em 1996, motivado por uma oportunidade de trabalho em uma grande empresa.

“Eu sou de Minas Gerais e vim para Mato Grosso em 1996. A arte me acompanhou desde lá”, relembrou.

Ainda na juventude, Genival se envolveu com a capoeira, com movimentos da Igreja Católica e com a Pastoral da Juventude. Nos grupos de jovens, participou da organização de festivais de quadrilha e de encenações da Paixão de Cristo. “A gente encenava a Paixão de Cristo, bem amadorzão, mas, na época, era sucesso”, contou.

Após chegar a Nova Olímpia, ele retomou as atividades culturais. Também fundou um grupo de capoeira e, no ano de 2000, foi convidado para trabalhar no Departamento de Cultura do município.

Em 2005, Genival participou de um curso técnico de artes cênicas. Depois de ser aprovado no processo seletivo, passou a se dedicar profissionalmente ao teatro. Também fundou o Grupo Teatro NÓ, que permanece em atividade.

A vontade de atuar no cinema começou a se tornar realidade em 2010, quando foi convidado a participar de um teste para uma produção gravada na Amazônia. “Eu tinha vontade de fazer televisão, mas achava muito distante. Em 2010, fui convidado para fazer um teste para um filme na Amazônia e, por felicidade, passei. Foi o meu primeiro filme, a primeira tela da qual participei”, relatou.

Além de ator e técnico em artes cênicas, Genival também atua como artista plástico e cenotécnico, desenvolvendo cenários, esculturas e estruturas utilizadas em apresentações teatrais.

Sua trajetória inclui produções como “Cidade Invisível”, gravada na Amazônia, e os filmes “Pardais Coroa Branca” e “Religare”, ambos realizados em 2025. Agora, com “Belo Ouro”, o artista alcança um dos principais reconhecimentos de sua carreira.

Das raízes no garimpo à formação em cinema

Diretor e roteirista de “Belo Ouro”, Pither Lopes nasceu em Alto Paraguai, município historicamente ligado à atividade garimpeira. A temática do filme mantém uma relação direta com sua história familiar. “Nasci em Alto Paraguai, uma cidade garimpeira. Venho de uma família de garimpeiros. Meu pai era garimpeiro e foi assassinado no garimpo de Alto Paraguai”, revelou.

Após mudar-se para Tangará da Serra, Pither iniciou seus estudos no teatro. Posteriormente, foi para São Paulo, onde se formou em Cinema. Durante a pandemia, retornou a Mato Grosso e passou a desenvolver o projeto que daria origem ao curta-metragem.

O roteiro começou a ser escrito em 2021 e foi trabalhado durante aproximadamente cinco anos. A produção avançou após a participação do projeto em laboratórios e a aprovação em um edital da Lei Paulo Gustavo.

“Em 2021, escrevi o roteiro de ‘Belo Ouro’ e fiquei trabalhando nele durante esses anos. Participamos de laboratórios, conquistamos o edital da Lei Paulo Gustavo, filmamos no ano passado e, agora, o filme está pronto e começando a percorrer os festivais”, explicou.

A relação entre o homem, o garimpo e a terra

“Belo Ouro” apresenta uma narrativa marcada pela relação do homem com a terra, pelo ambiente místico do garimpo e pelos conflitos provocados pela desigualdade social, pela sobrevivência e pela ambição.

Pither explicou que a construção do protagonista exigiu cuidado para não apresentar o garimpeiro de maneira superficial ou estereotipada. “Foi um personagem muito difícil de construir. Eu me perguntava como representaria esse garimpeiro. Ele é um personagem que vive a desigualdade social, possui questões complexas e mantém essa relação com a terra”, afirmou.

A história também promove o encontro entre o garimpeiro e um personagem indígena interpretado pelo ator Romeu Benedicto. Para o diretor, esse conflito representa questões que acompanham a formação histórica do país.

“O conflito pela terra é algo que permeia o nosso país desde a ‘invasão’ do Brasil. São temas delicados. No filme, tentamos trabalhar essa relação do homem com a terra, o ambiente místico do garimpo, a ganância e também a necessidade de sobrevivência”, explicou.

Pither ressaltou que a busca do personagem pelo ouro não significa necessariamente o desejo de enriquecimento. Em muitos casos, representa a tentativa de garantir condições básicas para a própria família. “Ele vai encontrar a pepita, mas provavelmente, vai se transformar em comida e em ajuda para a família. Ele acredita que pode enriquecer, mas não vai enriquecer de verdade. Isso aconteceu e ainda acontece com muitos garimpeiros”, analisou.

A identificação de Genival com o personagem

Embora nunca tenha trabalhado diretamente em garimpos, Genival encontrou no personagem elementos próximos de sua rotina e de sua ligação com a vida rural.

Morador de um sítio na zona rural, onde concilia a agricultura familiar com as atividades artísticas, o ator utilizou sua convivência com a natureza para construir o protagonista.

“O filme remete àquele homem que mexe com a terra e que busca nela uma oportunidade para melhorar de vida. É alguém que lida com o rio, entra no cerrado e sabe que precisa cortar um ramo com o facão para não ser ferido. Existe uma verossimilhança com o Genival Soares”, refletiu.

Para o ator, o prêmio também representa o reconhecimento de uma trajetória construída longe dos grandes centros culturais.

“Sou um ator com uma idade já significativa e sou do interior. Não moro em uma metrópole. Moro em uma pequena cidade e, mais do que isso, moro na roça”, destacou.

Segundo Genival, a conquista é um incentivo para continuar se qualificando e buscando novas oportunidades no cinema, independentemente da idade ou da distância dos grandes centros de produção.

A notícia que chegou por mensagem (‘zap’)

Genival não estava presente na cerimônia de premiação realizada em Cuiabá. Sem uma divulgação antecipada dos indicados, ele foi surpreendido por uma mensagem enviada por Pither durante a madrugada.

“O Pither me mandou um ‘zap’. Quando acordei, estava escrito: ‘Rapaz, Genival, você ganhou como Melhor Ator’. Pensei que tivesse alguma coisa nos meus olhos. Olhei novamente e, de fato, era verdade”, contou, entre risos.

Pouco depois, veio a segunda notícia: “Belo Ouro” também havia recebido o prêmio de Melhor Curta de Mato Grosso.

“Eu já ia perguntar se o curta também tinha ganhado quando ele mandou outra mensagem dizendo que o filme havia sido premiado. É uma emoção ímpar. Você acorda com uma notícia maravilhosa e passa o dia inteiro feliz”, relatou.

Reconhecimento até durante a ordenha

A repercussão da premiação também modificou, ainda que momentaneamente, a rotina de Genival no sítio. Pouco acostumado com as redes sociais, o ator passou a receber dezenas de mensagens de familiares, amigos e admiradores.

Com bom humor, ele contou que as notificações chegavam até mesmo durante a ordenha das vacas.

“Eu sou bem secão, bem matutão nessa questão de rede social. Mas estava na ordenhadeira, ordenhando as vacas, e toda hora o telefone fazia ‘tidit, tidit’. Eu pensava: estão me homenageando de novo. Foi tão bacana que até o leite aumentou”, brincou.

Apesar de não ter o hábito de publicar frequentemente, Genival reconheceu que as redes sociais, assim com o site ClickNovaOlímpia (primeiro a dar a notícia na região) se tornaram uma forma importante de aproximação com o público e de divulgação do trabalho artístico.

Euforia e emoção no palco

Pither Lopes esteve presente na cerimônia e representou Genival no momento da entrega do prêmio de Melhor Ator. O diretor contou que a primeira subida ao palco foi marcada pela surpresa e pela emoção.

“Foi uma euforia. Fiquei meio abobalhado ao subir ao palco. Primeiro recebemos o prêmio de Melhor Ator, representando o Genival. Eu disse: ‘Gente, eu não sou o Genival, mas queria ser agora para receber um prêmio de Melhor Ator’”, recordou.

Naquele momento, Pither ainda não sabia que retornaria ao palco para receber o prêmio de Melhor Curta de Mato Grosso.

Após o anúncio de “Belo Ouro” como vencedor, ele subiu novamente, desta vez acompanhado por integrantes da equipe técnica presentes no cine-teatro. “Na segunda vez, já subi com parte da equipe. Estavam presentes a produtora executiva e o fotógrafo do filme. Foi um momento muito especial”, afirmou.

Para o cineasta, o festival também funcionou como uma vitrine para os profissionais que trabalham no audiovisual mato-grossense.

“Temos muitos profissionais e artistas em Mato Grosso: diretores, roteiristas e pessoas que trabalham com computação gráfica. Às vezes, isso parece algo restrito a Hollywood, mas existem profissionais qualificados aqui no nosso estado”, ressaltou.

“Belo Ouro” seguirá para outros festivais

Depois da conquista no Cinemato, a equipe pretende inscrever “Belo Ouro” em festivais de outros estados durante os próximos doze meses.

“A gente vai passar aproximadamente um ano inscrevendo o filme em festivais e tentando percorrer outros espaços do cinema”, adiantou Pither.

Paralelamente à circulação do curta, o diretor já trabalha em novas produções. Entre os projetos estão outro curta-metragem, previsto para o segundo semestre, e o desenvolvimento de um longa também ambientado no universo do garimpo.

“Estou entrando cada vez mais nessa área de direção e roteiro, trabalhando com atores maravilhosos, como Genival Soares, Romeu Benedicto e Igor Fedrozo. É uma produção muito nossa, da nossa terra, e queremos ocupar cada vez mais espaços”, afirmou.

A premiação de “Belo Ouro” confirma a força de uma produção cinematográfica feita por artistas que conhecem profundamente as histórias, os conflitos e as paisagens de Mato Grosso.

Ao reconhecer o talento de Genival Soares e o trabalho de Pither Lopes, o Festival Cinemato também lança luz sobre a arte produzida no interior, muitas vezes distante dos grandes centros, mas próxima das vivências e da identidade de seu povo.

Do trabalho no sítio e das memórias do garimpo nasceu uma obra capaz de chegar às telas, emocionar o público e conquistar o principal prêmio do cinema mato-grossense. Para Genival, Pither e toda a equipe de “Belo Ouro”, a caminhada pelos festivais está apenas começando.

 

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