Depois de virar psicóloga e conselheira para a vida, as ferramentas de inteligência artificial passaram a ser usadas como guias em jornadas alucinógenas. Sim, usuários de substâncias como LSD e cogumelos psicodélicos estão recorrendo a chatbots de IA para “guiar” suas jornadas.
Uma prática crescente que, claro, acendeu um alerta vermelho entre especialistas em saúde mental. A grande preocupação é com os possíveis resultados da interação entre uma mente alterada e algoritmos que operam sem qualquer supervisão humana.
Por que a IA se tornou uma “guia” em viagens psicodélicas?
A principal força motriz por trás dessa tendência é a dificuldade de acesso e o alto custo da terapia psicodélica tradicional. Essa abordagem terapêutica, que ainda é ilegal em muitas regiões do mundo, quando disponível, pode custar milhares de dólares por sessão, tornando-a inviável para a maioria.
Nesse cenário, aplicativos de IA, como o Alterd, emergem como “acompanhantes” digitais — ou “trip-sitters” — oferecendo suporte aos usuários durante suas experiências psicodélicas.
Relato de um usuário: ajuda ou risco?
Um caso que ilustra essa prática é o de Trey, um socorrista de 36 anos. Em abril de 2025, ele consumiu uma dose massiva de 700 microgramas de LSD – o equivalente a 7 vezes a dose recreativa usual – sozinho em seu quarto, tendo apenas o chatbot do Alterd como companhia.
Trey relatou uma experiência que ele descreve como transformadora, afirmando que o ajudou a superar 15 anos de alcoolismo. Segundo ele, o chatbot forneceu insights valiosos e o auxiliou a processar a experiência em tempo real.
Os alertas da saúde mental: falta de empatia e riscos de crises
Apesar de relatos como o de Trey, a comunidade de saúde mental analisa essa prática com profunda preocupação. Embora a IA possa oferecer respostas “intuitivas” e até sugerir playlists calmantes, a ausência de empatia real e a incapacidade de intervir em situações de crise psiquiátrica grave tornam esses “acompanhantes” digitais extremamente perigosos.
Críticos alertam que, se um chatbot já é capaz de induzir psicose em pessoas sóbrias, o risco é exponencialmente amplificado quando se trata de indivíduos sob o efeito de substâncias que alteram profundamente a mente e a percepção da realidade.
Limites éticos e segurança da inteligência artificial
A intersecção da IA com o uso de substâncias psicoativas representa um território novo, incerto e com alto grau de risco. Sem uma regulamentação clara e sem a capacidade de discernir o real do alucinatório, a promessa de uma “terapia” acessível via chatbot pode, na verdade, conduzir a desfechos imprevisíveis e com consequências graves para a saúde mental e física dos usuários.
Este cenário reforça a necessidade urgente de um debate aprofundado sobre os limites éticos e de segurança da inteligência artificial, especialmente quando sua aplicação toca em áreas tão delicadas da saúde e do bem-estar humano.


