O mapa da produtividade brasileira mudou de endereço. O avanço da eficiência econômica, historicamente associado aos grandes centros industriais do Sudeste, ganhou força no interior do país, impulsionado principalmente pela agropecuária e pela rede de atividades que cresceu ao redor da produção rural.
Mato Grosso está no centro dessa transformação.
Estudo sobre a produtividade do trabalho nos mais de 5,5 mil municípios brasileiros mostra que, entre 2002 e 2019, a produtividade nacional avançou 18,7%. Na agropecuária, entretanto, o crescimento chegou a 80,1%, muito acima dos 10,3% registrados nos serviços e dos 5,4% da indústria.
O movimento ajuda a explicar a mudança econômica observada nas últimas décadas no Centro-Oeste e, mais recentemente, nas novas fronteiras agrícolas do Matopiba — Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia.
Mato Grosso tornou-se um dos principais símbolos dessa redistribuição. O avanço da produção agrícola não ficou restrito às propriedades rurais. A riqueza gerada pelas lavouras e pela pecuária passou a alimentar transportadoras, armazéns, revendas, concessionárias, construção civil, comércio, serviços financeiros, tecnologia e indústria.
É uma cadeia que começa antes do plantio e continua muito depois da colheita.
O tamanho atual dessa economia pode ser medido pelo Valor Bruto da Produção Agropecuária (VBP). Em julho, o Ministério da Agricultura estimou o VBP brasileiro em R$ 1,39 trilhão. Mato Grosso aparece na liderança nacional, com R$ 216 bilhões, equivalentes a 15,5% de toda a produção agropecuária do país medida pelo indicador.
PRODUTIVIDADE MUDA DE EIXO – A transformação contrasta com o desempenho da indústria tradicional.
Desde 1995, a participação da indústria de transformação no Produto Interno Bruto brasileiro caiu de 15,7% para 9,8%, redução de aproximadamente 38%. No mesmo período, o aumento da produtividade industrial ficou muito abaixo do observado no campo.
Uma medição mais recente reforça a distância. Estudo da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), em parceria com o Cepea/Esalq-USP, aponta que a produtividade por hora trabalhada na agropecuária cresceu 515% entre 1995 e 2025, ante apenas 28% para o conjunto da economia brasileira.
O resultado é fruto de décadas de mecanização, melhoramento genético, pesquisa, correção dos solos, agricultura de precisão, desenvolvimento de sementes adaptadas ao clima tropical e incorporação de tecnologia.
Mas a produtividade não termina na porteira.
Uma lavoura maior e mais tecnificada demanda máquinas, fertilizantes, sementes, software, crédito e assistência técnica. Depois da colheita, movimenta caminhões, armazéns, silos, ferrovias, portos e unidades industriais.
Soja vira óleo, farelo e ração. Milho abastece fábricas de alimentos, confinamentos e usinas de etanol. A pecuária sustenta frigoríficos, curtumes e outras atividades industriais.
É essa multiplicação que ajuda a explicar por que cidades agrícolas passaram a apresentar economias cada vez mais diversificadas.
SAPEZAL MOSTRA A TRANSFORMAÇÃO – Sapezal é um dos exemplos dessa mudança em Mato Grosso.
Localizado numa das maiores regiões produtoras de grãos do país, o município construiu ao redor das lavouras uma economia que ultrapassa a produção primária.
O efeito aparece inclusive nos indicadores de mobilidade social. Dados do Instituto Mobilidade e Desenvolvimento Social (IMDS) mostram que a probabilidade média de uma criança brasileira chegar à vida adulta entre os 10% de maior renda é de 1,8%. No Centro-Oeste, sobe para 2,86%.
Em Sapezal, chega a 3,9%.
O diretor de Pesquisas do IMDS, Fernando Veloso, associa parte desse resultado à elevada arrecadação das cidades mais dinâmicas e à capacidade de transformar recursos públicos em serviços de educação e saúde.
Outro efeito ocorre dentro das próprias famílias. A renda obtida na produção agrícola financia novas atividades urbanas. Filhos de produtores e trabalhadores passam a abrir escritórios, clínicas, lojas e empresas de serviços nas cidades onde vivem.
Assim, parte do capital permanece na própria região e cria uma segunda camada de atividade econômica que já não depende diretamente da lavoura.
FALTA GENTE NO CAMPO – O aumento da produtividade trouxe um paradoxo: um campo cada vez mais tecnológico enfrenta dificuldade crescente para encontrar trabalhadores.
Pesquisa nacional da CNA mostra que 94,8% dos produtores rurais relatam algum grau de dificuldade para contratar mão de obra. Outros 84,3% afirmam operar com equipes menores que o necessário.
A falta de trabalhadores já interfere nas decisões empresariais. Segundo o levantamento, 48,7% relatam atrasos nas operações, 48% adiaram ou desistiram de projetos de expansão e 42,6% anteciparam investimentos em mecanização e automação devido à escassez de pessoal.
Em Mato Grosso, o problema é ainda mais específico.
Pesquisa do Imea em parceria com o Senar-MT mostra que 62,62% dos produtores enfrentam alta dificuldade para contratar novos funcionários. Para 69,16%, a falta de qualificação técnica é o principal problema relacionado à mão de obra.
Isso significa que o avanço tecnológico que elevou a produtividade também mudou o perfil das vagas. O campo necessita cada vez menos de trabalho exclusivamente braçal e mais de operadores de máquinas, técnicos e profissionais capazes de trabalhar com equipamentos, sistemas digitais e agricultura de precisão.
AGRO PUXA INDÚSTRIA – A expansão também alcança a indústria brasileira.
Quase 70% da produção agrícola nacional é destinada à indústria de alimentos. No primeiro semestre deste ano, as exportações dessa indústria chegaram a US$ 33 bilhões, crescimento de 8,5% em receita e 6,3% em volume frente ao mesmo período de 2025. O segmento respondeu por aproximadamente 18% das exportações brasileiras no período, segundo a Associação Brasileira da Indústria de Alimentos (Abia).
A questão passa, portanto, a ser não apenas quanto o Brasil consegue produzir, mas quanto consegue transformar antes de exportar.
É justamente aí que está um dos próximos desafios de Mato Grosso. Líder nacional do VBP agropecuário, o Estado produz grande quantidade de soja, milho, algodão e proteína animal, mas ainda possui espaço para ampliar a parcela dessa matéria-prima processada dentro de seu território.
Quanto maior a industrialização local, maior a possibilidade de transformar o ganho de produtividade da fazenda em empregos, salários, impostos e renda urbana.
O novo mapa econômico brasileiro mostra que a produtividade já avançou para o interior. O desafio agora é fazer com que a riqueza que nasce no campo permaneça cada vez mais nas regiões onde é produzida.








