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Soldado Nascimento, soldado nº 202: a história de quando Pelé serviu ao Exército Brasileiro e venceu a Argentina em La Bombonera pela Seleção Militar das Forças Armadas

Em 1959, com 18 anos e já campeão da Copa do Mundo de 1958, Edson Arantes do Nascimento foi incorporado ao 6º Grupo de Artilharia de Costa Motorizado em Santos, serviu como soldado de número 202 durante seis meses, marcou 14 gols em 10 partidas pelo time do Exército e conquistou para o Brasil o Campeonato Sul-Americano de Futebol das Forças Armadas em pleno solo argentino

Em 20 de janeiro de 1959, um soldado raso se apresentou ao quartel do 6º Grupo de Artilharia de Costa Motorizado (6º GACosM) do Exército Brasileiro, na cidade de Santos, em São Paulo. Ele tinha 18 anos, havia sido eleito o melhor jogador de futebol do mundo no ano anterior e era o atleta mais jovem da história a ter conquistado uma Copa do Mundo da FIFA.

Edson Arantes do Nascimento, o Rei Pelé, foi registrado como Soldado nº 202 do mais novo contingente das Forças Armadas Brasileiras. Pelos seis meses seguintes, tirou serviço de sentinela como qualquer outro recruta, aprendeu a costurar, lavar e cozinhar como qualquer outro recruta, e ainda marcou 14 gols em apenas 10 partidas pela equipe oficial do Exército, conquistando para o Brasil o Campeonato Sul-Americano de Futebol das Forças Armadas em pleno solo argentino.

A passagem do maior jogador da história do futebol mundial pelas fileiras do Exército é um dos episódios mais curiosos e menos explorados do imaginário militar brasileiro. Em 1958, Pelé havia desembarcado em Santos depois de marcar dois gols na final contra a Suécia, virando o atleta mais jovem do planeta a ser campeão mundial.

Apesar da fama internacional e da pressão do Santos Futebol Clube, o serviço militar era obrigatório para todo brasileiro do sexo masculino com 18 anos completos, conforme regulamentação herdada da legislação de defesa nacional vigente à época. O Rei do Futebol não foi exceção.

Como era a rotina do Soldado Nascimento no quartel do 6º GACosM

A unidade que recebeu Pelé era integrada ao Sistema Defensivo da Baía de Santos, montado durante a Segunda Guerra Mundial para proteger o que era, à época, o maior porto exportador do Brasil. O 6º GACosM ocupava o quartel da Rua Luís de Camões, no centro de Santos, próximo à sede do Clube Atlético Santista.

O comandante da unidade era o coronel Osman Ribeiro de Moura, oficial de artilharia que anos depois ocuparia cargos de direção no próprio Santos Futebol Clube. O soldado de número 202 cumpria a mesma rotina dos demais recrutas, sem mordomias.

“Quando voltei da Copa do Mundo da Suécia, tirava serviço de sentinela no portão do quartel em Santos, e todo mundo que passava queria cumprimentar o Pelé, campeão do mundo, e pedir autógrafos. Eu morria de vergonha e levava bronca do sargento”, contou o próprio Pelé, em entrevista à Revista Verde-Oliva, publicação oficial do Exército Brasileiro, em 2006.

Na mesma entrevista, segundo apuração do Comando Militar do Sudeste (CMSE), o Rei afirmou que aprendeu na caserna a costurar, cozinhar, lavar e passar roupas, habilidades que, segundo ele, lhe serviram como base de formação. “Eu me orgulho muito, porque serviu de base para minha formação e meu caráter. Acho que todos os jovens deveriam passar pelo Exército“, declarou.

Durante o período em que esteve incorporado, Pelé também treinava no Forte de Itaipu, em Praia Grande, outra unidade do mesmo Sistema Defensivo da Baía de Santos. Em 11 de setembro de 1959, o soldado Nascimento entrou em campo pela 6ª GACosM contra um time misto formado por reservas do Santos FC, e a vitória foi por 8 a 4. Pelé marcou três gols nesse confronto, segundo o Centro de Memória e Estatística do Santos Futebol Clube, em registro publicado pelo próprio clube.

A campanha do Brasil no Sul-Americano Militar de 1959 e o gol decisivo na Bombonera

Mais marcante do que a rotina de quartel foi o legado esportivo do Rei como combatente. Em novembro de 1959, Pelé foi convocado para integrar a Seleção Brasileira de Futebol Militar, formada exclusivamente por jogadores em serviço ativo nas três Forças Armadas.

O time disputou em Buenos Aires o Campeonato Sul-Americano de Futebol das Forças Armadas, torneio que precedeu em décadas a estrutura atual do desporto militar continental coordenado pelo Conselho Internacional do Desporto Militar (CISM).

O título consolidou a tradição brasileira no esporte militar continental e, simultaneamente, projetou ainda mais a figura de Pelé como ícone da camisa amarela, fardada ou não. No total, segundo o Centro de Memória do Santos Futebol Clube e dados do CMSE, o Rei marcou 14 gols em 10 partidas pela equipe verde-oliva, em apenas seis meses de serviço.

Mais de seis décadas depois, a passagem segue inspirando registros institucionais. Quando do falecimento de Pelé, em dezembro de 2022, o Exército Brasileiro publicou nota oficial de pesar destacando o período em que o Rei serviu à pátria. “Nessa OM, viveu um período inesquecível de sua vida, sobre o qual, mais tarde, afirmou agradecido que lhe serviu de base para a sua formação como cidadão”, registrou a corporação em sua homenagem oficial.

A imagem do Soldado Nascimento, com farda verde-oliva e bola nos pés, segue sendo um dos cruzamentos mais singulares entre futebol e Forças Armadas já registrados na história do esporte mundial.

 

Jefferson Silva

Jefferson Silva

Atuo na Sociedade Militar trazendo análises e conteúdos relacionados a Geopolítica, Tecnologia militar, Industria de Defesa e Inteligência Artificial.

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