O kākāpō, papagaio noturno e incapaz de voar, pode viver por décadas e pesar até 3,6 quilos, o que o torna o mais pesado do mundo.
A expectativa das autoridades é de que a abundância do fruto, parecido com pequenas bagas, resulte no nascimento de mais de 50 filhotes, o maior número já previsto em um único ciclo.
Reprodução do kākāpō depende de ciclos raros da floresta
Ao contrário de espécies que se reproduzem anualmente, o kākāpō depende de um calendário irregular.

A reprodução costuma ocorrer quando há grande oferta de alimento produzida em ciclos de frutificação intensa, principalmente da rimu.
Isso significa que, em anos de baixa produção, mesmo indivíduos em idade reprodutiva podem não se reproduzir.
Equipes do Departamento de Conservação da Nova Zelândia acompanham de perto a quantidade de frutos disponíveis e a resposta das aves.
A safra atual foi descrita como especialmente farta, o que elevou a confiança de que haverá mais ninhos, mais ovos e, por consequência, mais filhotes.
“Tecnicamente, é um pássaro”, disse ele, em entrevista por telefone, ao comparar o animal a “um amontoado de musgo” que se move lentamente.
Na mesma conversa, Digby afirmou que, em comportamento e presença, o kākāpō lembra “a versão aviária de um texugo”.
Ritual sonoro único marca a temporada de acasalamento
O anúncio de que a reprodução começou veio depois de sinais observados pelos conservacionistas, que monitoram cada indivíduo.
Pequenos transmissores ajudam a medir deslocamentos, condições de saúde, status de nidificação e até informações ligadas ao acasalamento.

O kākāpō é o único papagaio do mundo com reprodução em lek, sistema em que machos se reúnem em uma área comunal para exibir vocalizações e competir pela atenção das fêmeas.
Antes de “subir ao palco”, eles passam meses preparando trilhas e clareiras que facilitam a propagação do som.
Em seguida, ocupam depressões que limpam no chão, como pequenas tigelas, e vocalizam em baixa frequência.
“Eles se inflam como uma bola de futebol e então fazem o estrondo”, disse Digby. O chamado grave pode se repetir por semanas, funcionando como um anúncio de presença em grandes áreas de mata.
Evolução sem predadores tornou a espécie vulnerável
O kākāpō evoluiu na Nova Zelândia por milhões de anos em um ambiente sem predadores mamíferos terrestres.
Além disso, desenvolveu hábitos noturnos e uma estratégia de sobrevivência que não inclui fuga rápida de ameaças.
Esse conjunto de características se tornou um problema quando humanos se estabeleceram nas ilhas com novos animais.
A caça e a perda de habitat já haviam afetado a população após a chegada de colonos polinésios, há cerca de 700 anos.
Mais tarde, a colonização europeia acelerou a redução ao desmatar áreas florestais e introduzir competidores por alimento, como cervos e gambás, além de predadores como gatos, doninhas e ratos.
Em meados da década de 1970, houve um período em que autoridades relataram dificuldade para localizar sequer um único indivíduo.
A situação mudou após a localização de uma população no sul de Rakiura, ilha no extremo sul do país.
A descoberta embasou uma operação de resgate e translocação que, entre 1980 e 1997, removeu os indivíduos sobreviventes identificáveis para ilhas santuário.
Nesses locais, predadores não nativos foram erradicados gradualmente. Desde então, o programa passou a combinar proteção física, monitoramento individual e intervenções de manejo.
O resultado foi um aumento lento, porém consistente, de 51 indivíduos em 1995 para os atuais 236 kākāpōs, incluindo dezenas de fêmeas em idade reprodutiva.
Com as aves distribuídas em três áreas principais de reprodução protegidas e locais menores usados em testes, a equipe de conservação enfrenta limites de espaço.
A busca por novas áreas seguras se tornou parte central do plano, já que a perspectiva de reintrodução em áreas continentais depende de ambientes livres de predadores.
“Eles costumavam ser o quarto pássaro mais comum na Nova Zelândia, estavam absolutamente em todos os lugares”, disse Digby. “E queremos trazê-los de volta.”
A previsão é que os primeiros filhotes comecem a eclodir em fevereiro.
Caso a projeção se confirme, a temporada poderá marcar um dos momentos mais relevantes da história recente da espécie.


