Talvez esta seja uma das perguntas mais inconvenientes que podemos fazer neste 7 de setembro:
E se o Brasil já tivesse quase tudo o que precisava para ser uma superpotência — e o nosso verdadeiro problema não fosse a falta de riqueza, mas a incapacidade de transformá-la em prosperidade?
Pense no país que recebemos da natureza.
Um território continental.
Água em abundância.
Uma das maiores biodiversidades do planeta.
Terras agricultáveis.
Florestas.
Petróleo.
Gás.
Minérios.
Sol.
Ventos.
Rios.
Uma matriz energética excepcionalmente renovável.
Uma agricultura capaz de alimentar o próprio país e participar decisivamente da alimentação do mundo.
Uma população de mais de 200 milhões de pessoas.
Mercado interno gigantesco.
Indústria.
Ciência.
Universidades.
Tecnologia.
Criatividade.
E uma posição geográfica privilegiada.
Não estamos falando de promessa.
Estamos falando de ativos reais.
Em 2025, o Brasil exportou US$ 348,3 bilhões em mercadorias. O agronegócio sozinho respondeu por US$ 169,2 bilhões em exportações.
Nossa eletricidade tem uma característica que muitos países ricos gostariam de possuir: em 2025, 86,8% da matriz elétrica brasileira era renovável. Solar e eólica já representavam, juntas, 26,4% da geração elétrica.
Temos ainda recursos minerais estratégicos para a economia do futuro.
O Brasil possui cerca de 13,9% das reservas mundiais estimadas de terras raras, segundo dados consolidados pela Agência Nacional de Mineração.
E temos água.
Muita água.
Água que produz alimentos, movimenta indústrias, gera energia, sustenta cidades e pode ser decisiva para a economia das próximas décadas.
Então vem a pergunta que talvez seja mais importante do que todas as discussões ideológicas que ocupam nosso cotidiano:
Como um país com tudo isso ainda pode ter tanta gente vivendo no limite?
É aí que aparece o verdadeiro Ponto Cego.
NÃO SOMOS POBRES.
Somos um país rico que ainda produz pouca riqueza por pessoa.
E existe uma diferença brutal entre as duas coisas.
O subsolo brasileiro pode ser riquíssimo.
Mas minério exportado sem agregação de valor não transforma automaticamente essa riqueza em salário elevado.
Uma terra pode ser extremamente produtiva.
Mas produção concentrada, baixa produtividade em outras áreas e infraestrutura insuficiente não garantem qualidade de vida para todos.
Podemos produzir energia barata.
Mas energia disponível não significa automaticamente indústria sofisticada, cidades eficientes e famílias prósperas.
Podemos exportar alimentos para o mundo.
Mas isso não significa que toda criança brasileira terá alimentação adequada, educação excelente e oportunidades iguais.
** Possuir riqueza é uma coisa.
Saber transformar riqueza em prosperidade é outra. **
E talvez seja exatamente aí que o Brasil esteja preso.
Não à falta de recursos.
Mas a uma combinação perversa de baixa produtividade, desigualdade de oportunidades, infraestrutura insuficiente, educação desigual, burocracia, desperdícios, insegurança jurídica, planejamento de curto prazo e incapacidade histórica de transformar vantagens naturais em cadeias de maior valor agregado.
Produzimos muito.
Mas ainda precisamos produzir melhor.
Exportamos muito.
Mas precisamos capturar mais valor.
Temos talentos.
Mas ainda desperdiçamos talentos.
Temos universidades.
Mas precisamos transformar mais conhecimento em inovação, produtos e empresas.
Temos recursos naturais.
Mas precisamos transformar recursos em tecnologia.
Temos território.
Mas precisamos transformá-lo em infraestrutura.
Temos energia.
Mas precisamos transformá-la em indústria competitiva.
Temos uma população enorme.
Mas precisamos transformá-la em uma população altamente educada, produtiva e saudável.
** O Brasil não precisa apenas crescer.
Precisa aprender a multiplicar o valor daquilo que já possui. **
Porque há outro Ponto Cego ainda mais profundo:
UM PAÍS PODE SER POLITICAMENTE INDEPENDENTE E ECONOMICAMENTE DEPENDENTE.
Pode escolher seus governantes.
Pode ter bandeira.
Pode ter hino.
Pode ter Constituição.
Pode controlar seu território.
E ainda assim permanecer dependente de tecnologia, capital, infraestrutura, conhecimento e produtos de maior valor agregado produzidos por outros.
Independência verdadeira não é apenas poder decidir quem governa.
É possuir capacidade para decidir o próprio futuro.
E isso exige muito mais do que patriotismo.
Exige educação.
Ciência.
Tecnologia.
Infraestrutura.
Segurança jurídica.
Instituições funcionais.
Gestão pública competente.
Ambiente para empreender.
Indústria sofisticada.
Energia competitiva.
Logística eficiente.
E, principalmente:
gente preparada para transformar potencial em realidade.
Imagine o Brasil em que cada criança tenha uma educação capaz de revelar seu talento.
Em que nenhuma cidade esteja condenada pela falta de saneamento.
Em que a produção agrícola gere também tecnologia, indústria e conhecimento.
Em que nossos minerais sejam transformados aqui em materiais, componentes e produtos sofisticados.
Em que nossa energia renovável atraia uma nova indústria mundial.
Em que nossa biodiversidade seja fonte de ciência, medicamentos, alimentos, materiais e negócios — sem destruir aquilo que nos dá essa vantagem.
Em que nossos rios sejam vias de transporte.
Em que nossas ferrovias atravessem o continente.
Em que nossas universidades estejam conectadas às necessidades reais do país.
Em que inovação não seja exceção.
Em que trabalhar mais e produzir mais significasse também viver melhor.
Esse Brasil não é fantasia.
É uma possibilidade.
O que nos separa dele não é um oceano.
É uma sequência de escolhas.
E algumas dessas escolhas vêm sendo adiadas há décadas.
Por isso, talvez devêssemos parar de repetir que o Brasil é o país do futuro.
Essa frase já virou desculpa.
O Brasil precisa ser o país do presente.
Temos território.
Temos recursos.
Temos gente.
Temos conhecimento.
Temos energia.
Temos mercado.
Temos natureza.
Temos capacidade produtiva.
Temos criatividade.
Temos democracia.
Temos liberdade para escolher.
Então talvez a pergunta do 7 de setembro não seja:
“Somos independentes?”
Talvez seja:
“Se somos tão ricos em possibilidades, por que ainda aceitamos viver tão pobres em resultados?”
Esse é o nosso Ponto Cego.
O Brasil não precisa descobrir que é rico.
Precisa descobrir por que sua riqueza ainda não chegou à vida de cada brasileiro.
Porque independência não termina quando uma nação deixa de obedecer a outra.
Independência termina quando um povo conquista a capacidade de determinar o próprio destino.
E talvez o maior ato de independência que ainda nos falte seja este:
parar de administrar o mínimo quando temos condições de construir o máximo.
Paulo Laurentino é Artista Plástico e Publicitário








