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Quase R$ 5 bilhões para pedir votos: quanto o Brasil poderia fazer com o Fundão Eleitoral?

A democracia tem custos. Organizar eleições em um país continental exige urnas, servidores, mesários, sistemas de tecnologia, segurança e transporte. Outra questão, porém, é o volume de dinheiro público entregue aos partidos para financiar propaganda, eventos, viagens, equipes e outras despesas de campanha.

Nas eleições gerais de 2026, o Fundo Especial de Financiamento de Campanha, o chamado Fundão Eleitoral, terá R$ 4.961.519.777. O recurso será distribuído entre os partidos para as disputas à Presidência da República, governos estaduais, Senado, Câmara dos Deputados e assembleias legislativas.

A análise precisa ser feita em dimensão nacional. Embora PL, PT e União Brasil também apareçam entre os partidos que mais movimentaram recursos partidários em Mato Grosso, o grande volume está concentrado nas estruturas nacionais das legendas. A conta é paga pelo contribuinte brasileiro.

É necessário, ainda, separar os dois mecanismos. O Fundão Eleitoral financia campanhas. Já o Fundo Partidário mantém as atividades permanentes dos partidos, incluindo sedes, funcionários, consultorias, comunicação e formação política. Portanto, os recursos destinados à política não terminam nos quase R$ 5 bilhões das campanhas.

Tudo isso está previsto em lei. Mas legalidade não impede questionamentos sobre prioridade, proporcionalidade e interesse público.

O que quase R$ 5 bilhões representam?

Números bilionários parecem abstratos. Quando transformados em casas, escolas, ônibus, ambulâncias e unidades de saúde, tornam-se mais fáceis de compreender.

Na habitação, o Ministério das Cidades estabeleceu tetos de subvenção entre R$ 140 mil e R$ 170 mil para casas de determinados empreendimentos do Minha Casa, Minha Vida. Tomando esses valores apenas como referência, o Fundão de 2026 equivale financeiramente a aproximadamente 29,1 mil a 35,4 mil moradias populares.

Na saúde, um investimento de R$ 4,2 bilhões foi associado à construção de 1,8 mil Unidades Básicas de Saúde. Aplicando essa média ao Fundo Eleitoral, seria possível alcançar o equivalente a cerca de 2.126 novas UBS, levando consultas, vacinação, pré-natal e atendimento preventivo a milhares de comunidades.

No atendimento de urgência, ambulâncias básicas do Samu adquiridas em 2025 tiveram custo unitário informado de R$ 289 mil. As unidades de suporte avançado, equipadas como UTIs móveis, custaram cerca de R$ 469,8 mil cada. Pelos mesmos parâmetros, R$ 4,961 bilhões equivaleriam a aproximadamente 17,1 mil ambulâncias básicas ou 10,5 mil UTIs móveis.

Educação e transporte escolar

Na educação, o Novo PAC anunciou R$ 500 milhões para a aquisição de mil ônibus do Caminho da Escola, média de R$ 500 mil por veículo. O valor do Fundão corresponderia a cerca de 9.923 ônibus escolares, destinados especialmente ao transporte de alunos da zona rural e de comunidades distantes.

Também é possível dimensionar o recurso pela remuneração dos professores. Considerando o piso nacional de R$ 5.130,63 mensais para uma jornada de 40 horas, os quase R$ 5 bilhões poderiam pagar, em uma comparação bruta, doze meses de salário para aproximadamente 80,5 mil professores.

Esse cálculo não inclui décimo terceiro, férias, previdência, encargos trabalhistas nem despesas administrativas. Portanto, não representa o custo integral de contratação. Ainda assim, revela a dimensão do dinheiro reservado para campanhas.

O mesmo recurso poderia financiar a construção, ampliação e modernização de centenas de escolas e creches. Nesse caso, não existe um valor nacional único: os custos variam conforme o tamanho da unidade, o terreno, a região, o projeto e os equipamentos. Por isso, qualquer quantidade fechada de escolas seria apenas estimativa. Mas não há dúvida de que quase R$ 5 bilhões permitiriam uma intervenção relevante na infraestrutura educacional do país.

Segurança pública

Na segurança, uma aquisição do Ministério da Justiça registrou custo unitário de R$ 196.550 para determinadas viaturas destinadas a programas de segurança escolar e proteção de vítimas. Por esse parâmetro, o Fundão equivaleria a aproximadamente 25,2 mil viaturas policiais.

Não é adequado afirmar quantos policiais poderiam ser contratados, porque salários, gratificações, jornadas e encargos variam entre estados, corporações e carreiras. Contudo, o montante seria suficiente para reforçar efetivos, renovar frotas, comprar equipamentos de proteção, ampliar sistemas de inteligência, financiar treinamentos e melhorar delegacias e batalhões.

É difícil explicar ao cidadão que não há viatura para atender uma ocorrência, enquanto bilhões são destinados à publicidade de pessoas que disputam o direito de administrar o dinheiro público.

Água, esgoto e saneamento

No saneamento, o Novo PAC Seleções de 2025 disponibilizou R$ 5 bilhões para projetos de abastecimento de água em áreas urbanas. O Fundão Eleitoral de 2026 corresponde praticamente a todo esse volume.

Em outra frente, a primeira etapa de seleção para esgotamento sanitário apresentou investimentos de bilhões de reais para ampliar a coleta e o tratamento de esgoto. Portanto, o dinheiro destinado a alguns meses de campanha possui dimensão semelhante à de grandes programas nacionais de infraestrutura sanitária.

Estamos falando de água tratada, redes de esgoto, estações de tratamento e obras que reduzem doenças e melhoram a qualidade de vida. Saneamento não aparece tanto em vídeos eleitorais quanto uma propaganda bem produzida, mas permanece servindo à população muito depois que o período de campanha termina.

Dois pleitos, quase R$ 10 bilhões

O Fundo Eleitoral das eleições municipais de 2024 também alcançou R$ 4.961.519.777. Somando 2024 e 2026, o Brasil destinou aproximadamente R$ 9,923 bilhões ao financiamento público direto de duas campanhas eleitorais.

Pelos mesmos referenciais, esse montante corresponderia a algo entre 58 mil e 70,8 mil casas populares, aproximadamente 4,2 mil UBS, mais de 34 mil ambulâncias básicas, quase 20 mil ônibus escolares ou mais de 50 mil viaturas.

Não significa que seria possível financiar tudo isso simultaneamente. Cada comparação utiliza isoladamente o valor total para demonstrar sua dimensão. Também não significa que o recurso possa ser retirado automaticamente das campanhas e transferido para outra política pública. Isso exigiria mudança na legislação e no Orçamento aprovada pelo Congresso.

Mas a comparação é legítima. Orçamento público é escolha. Quando bilhões são destinados a uma finalidade, deixam de estar disponíveis para outras.

Como outras democracias financiam campanhas

As comparações internacionais exigem cautela, porque países possuem populações, territórios e sistemas eleitorais diferentes. Mesmo assim, ajudam a perceber que o modelo brasileiro não é a única alternativa.

No Reino Unido, partidos, candidatos e grupos políticos gastaram, juntos, £ 94,5 milhões nas eleições gerais de 2024. O valor foi recorde, mas correspondeu a despesas declaradas por partidos e candidatos dentro de limites legais, e não à entrega antecipada de um fundo público semelhante ao brasileiro.

Na França, há limites de gastos e possibilidade de reembolso público posterior, condicionado ao desempenho eleitoral e à aprovação das contas. Na eleição presidencial de 2022, os 12 candidatos declararam receitas conjuntas de aproximadamente € 85,2 milhões, provenientes de diferentes fontes, incluindo contribuições partidárias, doações e empréstimos.

Existem, portanto, democracias que preferem limitar despesas, fiscalizar as contas e ressarcir posteriormente parte dos gastos comprovados. No Brasil, bilhões são disponibilizados antecipadamente e as direções partidárias possuem grande poder para definir como distribuir os recursos entre suas candidaturas.

O custo completo da eleição

O Fundão não representa o custo total das eleições gerais de 2026. Além do financiamento de campanhas, a Justiça Eleitoral terá despesas com urnas, sistemas, servidores, mesários, transporte, armazenamento, segurança e transmissão dos votos.

O valor definitivo do processo eleitoral somente poderá ser conhecido após a realização do pleito e a consolidação das despesas. Por isso, não é tecnicamente correto somar todo o orçamento anual da Justiça Eleitoral ao Fundão e apresentar o resultado como custo fechado das eleições.

O que já se sabe é que apenas o financiamento público direto das campanhas consumirá quase R$ 5 bilhões.

O financiamento público surgiu, entre outras razões, para diminuir a dependência dos candidatos em relação às grandes empresas, cujas doações eleitorais foram proibidas. Esse objetivo é legítimo. Também é necessário garantir alguma igualdade de condições, permitindo que candidaturas sem grandes financiadores possam se apresentar ao eleitor.

Entretanto, combater a influência econômica privada não deveria significar oferecer um cheque de bilhões às cúpulas partidárias sem um debate permanente sobre limites, resultados e prioridades.

A democracia precisa de recursos. Mas a população tem o direito de questionar se uma eleição precisa consumir valor equivalente a milhares de casas, ambulâncias, ônibus, viaturas e unidades de saúde.

O dinheiro não nasce no cofre dos partidos. Ele sai dos impostos pagos por quem trabalha, compra alimentos, abastece o veículo, paga energia e sustenta a máquina pública.

Enquanto faltam vagas em creches, transporte escolar, médicos, policiais, ambulâncias, água tratada e redes de esgoto, quase R$ 5 bilhões não podem ser tratados como uma simples cifra eleitoral.

A democracia tem preço. A pergunta que permanece é se o contribuinte brasileiro não está pagando caro demais para que os políticos lhe peçam o voto.

Nelson Alves — É Apenas um Cidadão Brasileiro

Fontes consultadas

— Tribunal Superior Eleitoral: Fundo Especial de Financiamento de Campanha e distribuição dos recursos para as eleições de 2024 e 2026.

— Ministério das Cidades: Minha Casa, Minha Vida e investimentos do Novo PAC em abastecimento de água e esgotamento sanitário.

— Ministério da Saúde: investimentos em Unidades Básicas de Saúde e valores de ambulâncias do Samu.

— Ministério da Educação e FNDE: investimentos do Caminho da Escola.

— Ministério da Justiça e Segurança Pública: valores de aquisição de viaturas.

— Electoral Commission, do Reino Unido: despesas declaradas nas eleições gerais de 2024.

— Comissão Nacional de Contas de Campanha e Financiamento Político da França: dados da eleição presidencial de 2022.

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