Este é o primeiro de uma série de três artigos sobre a polarização política brasileira.
Nos dois primeiros textos, apresentaremos separadamente os principais argumentos utilizados pelos dois maiores campos políticos do país. Neste primeiro, assumiremos a perspectiva de um eleitor de direita que defende Jair Bolsonaro e seu governo. No segundo, o mesmo exercício será feito a partir da visão de um eleitor de esquerda que apoia Luiz Inácio Lula da Silva.
No terceiro artigo — “Narrativa pronta, pensamento terceirizado” — entraremos mais profundamente nessa disputa para analisar como os dois lados selecionam informações, justificam os próprios erros, condenam os erros adversários e transformam cidadãos em divulgadores voluntários de narrativas políticas.
O objetivo não é declarar antecipadamente quem está certo ou errado. A proposta é compreender o que pensa cada grupo antes de analisar como essas convicções são construídas, difundidas e, muitas vezes, manipuladas.
Feita essa explicação, vamos ao primeiro lado dessa história.
POR QUE EU DEFENDO BOLSONARO?
Eu defendo Jair Bolsonaro porque, depois de muitos anos assistindo aos mesmos partidos, às mesmas alianças e aos mesmos discursos, enxerguei nele uma possibilidade de rompimento com a política tradicional.
Bolsonaro não surgiu como um candidato polido, diplomático ou preocupado em agradar a todos. Pelo contrário. Falava de maneira direta, cometia excessos e frequentemente provocava reações. Mas foi justamente esse comportamento que fez muitas pessoas acreditarem que, finalmente, havia aparecido alguém disposto a dizer aquilo que parte da população pensava e não encontrava espaço para expressar.
Enquanto outros candidatos apresentavam discursos cuidadosamente ensaiados, Bolsonaro falava de segurança, corrupção, liberdade, família, religião, propriedade privada e autoridade. Temas que, para milhões de brasileiros, haviam sido abandonados ou tratados com desprezo.
Eu não o apoiei porque fosse perfeito. Apoiei porque representava uma reação.
UMA RESPOSTA AOS GOVERNOS DO PT
O bolsonarismo não pode ser compreendido sem considerar o desgaste dos governos petistas.
Durante anos, o Brasil acompanhou denúncias, julgamentos e escândalos como o mensalão e os casos revelados pela Operação Lava Jato. Empresários, dirigentes partidários, parlamentares e agentes públicos foram investigados, processados ou condenados.
Para uma parcela da população, aquilo não representava apenas a conduta de algumas pessoas. Era o retrato de um sistema político baseado na distribuição de cargos, no uso da máquina pública e na negociação permanente de apoio.
Bolsonaro apareceu prometendo combater esse modelo.
Por isso, quando a esquerda pergunta por que tantos brasileiros continuam apoiando Bolsonaro, uma das respostas está no passado do próprio PT. O bolsonarismo cresceu porque milhões de eleitores deixaram de confiar no discurso de que tudo havia sido apenas um conjunto de casos isolados.
Bolsonaro se tornou, para essas pessoas, o instrumento eleitoral capaz de impedir a volta daquele grupo ao poder.
DEFESA DA FAMÍLIA E DOS VALORES CONSERVADORES
Outro motivo para meu apoio está na defesa dos valores conservadores.
Acredito na família, na liberdade religiosa, no direito dos pais de participarem da formação moral dos filhos e na proteção da vida. Sou contrário à legalização das drogas e à banalização do aborto.
Essas posições não significam odiar pessoas que vivem de maneira diferente. Significam apenas que também tenho o direito de defender minhas convicções sem ser imediatamente chamado de atrasado, extremista ou intolerante.
Durante muito tempo, parte da esquerda tratou valores religiosos e familiares como sinais de ignorância. Bolsonaro percebeu essa insatisfação e deu voz a milhões de brasileiros que se sentiam desprezados no debate público.
Ele se aproximou dos evangélicos, dos católicos conservadores, dos produtores rurais, dos policiais, dos militares e de famílias que desejavam mais autoridade na educação dos filhos.
Posso discordar da maneira como Bolsonaro se expressou em várias ocasiões. Ainda assim, reconheço que ele colocou essas pautas no centro da política nacional.
SEGURANÇA PÚBLICA E DIREITO DE DEFESA
Também defendo o bolsonarismo porque considero que o Estado brasileiro, durante décadas, demonstrou mais preocupação em encontrar justificativas para o criminoso do que em proteger a vítima.
Bolsonaro apresentou um discurso firme contra a criminalidade e de valorização das forças de segurança. Policiais deixaram de ser tratados apenas como suspeitos e passaram a ser reconhecidos como profissionais que diariamente arriscam a vida.
A flexibilização do acesso às armas foi uma das medidas mais controversas de seu governo. Para a esquerda, representou risco de aumento da violência e de desvio de armamentos. Para quem apoia Bolsonaro, significou reconhecer o direito de defesa do cidadão que cumpre a lei.
O criminoso nunca dependeu de autorização para comprar uma arma. Quem sempre enfrentou a burocracia foi o cidadão registrado, identificado e submetido às exigências legais.
É possível discutir limites, fiscalização e controle. O que não considero correto é afirmar que desejar proteger a família transforma automaticamente alguém em defensor da violência.
LIBERDADE ECONÔMICA E MENOS ESTADO
Na economia, defendo uma administração que estimule o empreendedorismo, reduza a burocracia e permita que a iniciativa privada tenha espaço para investir e gerar empregos.
Durante o governo Bolsonaro, foram aprovadas medidas como a reforma da Previdência, a autonomia do Banco Central, o marco do saneamento, o marco das ferrovias, a Lei da Liberdade Econômica e a privatização da Eletrobras.
Nenhuma dessas mudanças resolveu todos os problemas do país. Algumas produziram controvérsias e seus efeitos precisam ser avaliados ao longo dos anos. Entretanto, elas apontaram para uma direção: diminuir a dependência do Estado e criar condições para o investimento privado.
Quem abre uma pequena empresa conhece o peso dos impostos, das exigências burocráticas e da insegurança jurídica. O empreendedor não deseja favores. Deseja regras claras, liberdade para trabalhar e a garantia de que não será tratado como inimigo por tentar obter lucro.
Essa visão econômica me aproxima da direita.
UM GOVERNO ATRAVESSADO PELA PANDEMIA
Qualquer avaliação do governo Bolsonaro precisa reconhecer que dois dos seus quatro anos foram profundamente atingidos pela maior crise sanitária mundial das últimas décadas.
Empresas fecharam, cadeias produtivas foram interrompidas, o desemprego aumentou e governos de todo o mundo recorreram a medidas emergenciais. Posteriormente, a guerra entre Rússia e Ucrânia pressionou os preços dos combustíveis, fertilizantes e alimentos.
Nesse cenário, o governo criou o Auxílio Emergencial, que chegou a milhões de brasileiros. É verdade que o Congresso participou decisivamente da definição do valor inicial de R$ 600. Também é verdade que o pagamento foi realizado pelo governo federal e representou uma das maiores transferências de renda da história brasileira.
Houve problemas na condução da pandemia? Sim.
Bolsonaro fez declarações desnecessárias, minimizou riscos em diferentes momentos e alimentou conflitos quando o país precisava de maior coordenação. Também houve controvérsias sobre vacinas e medicamentos.
Reconhecer esses erros não me obriga a aceitar a narrativa de que todas as mortes foram provocadas pessoalmente pelo presidente.
A pandemia atingiu o mundo inteiro. No Brasil, responsabilidades também envolveram governo federal, estados, municípios, gestores hospitalares e condições históricas do sistema de saúde. Atribuir toda a tragédia a uma única pessoa pode funcionar politicamente, mas não explica completamente a realidade.
O AGRONEGÓCIO E O BRASIL QUE PRODUZ
Bolsonaro também conquistou meu apoio pela proximidade com o agronegócio.
O produtor rural foi apresentado durante muito tempo como inimigo do meio ambiente, quando é responsável por parte importante dos alimentos, empregos, exportações e divisas do país.
Defender o agronegócio não significa apoiar desmatamento ilegal, invasão de terras públicas ou destruição ambiental. Significa reconhecer que o Brasil possui uma das agriculturas mais importantes e competitivas do mundo.
Durante o governo Bolsonaro, novos mercados foram abertos para produtos brasileiros e o setor continuou ampliando sua presença internacional.
É necessário fiscalizar e punir crimes ambientais. Porém, também é necessário oferecer segurança jurídica a quem produz legalmente, paga impostos e movimenta a economia.
AS OBRAS, CONCESSÕES E ENTREGAS
Outro argumento utilizado por quem defende Bolsonaro está nas obras concluídas e nas concessões realizadas.
Rodovias, aeroportos, portos e ferrovias foram concedidos à iniciativa privada. Projetos que permaneciam paralisados foram retomados ou entregues. Houve investimentos em infraestrutura e na ampliação de serviços.
Seus apoiadores afirmam que Bolsonaro preferiu concluir obras já iniciadas a abandonar projetos apenas porque haviam começado em governos anteriores.
Naturalmente, nem toda obra inaugurada nasceu durante seu mandato. Da mesma forma, resultados entregues por qualquer presidente frequentemente dependem de decisões tomadas antes dele. A administração pública é contínua.
Ainda assim, finalizar uma obra parada também é uma realização administrativa.
O ENFRENTAMENTO AO SISTEMA
Bolsonaro enfrentou o Congresso, o Supremo Tribunal Federal, o Tribunal Superior Eleitoral, governadores, veículos de comunicação e diferentes setores do poder.
Seus adversários afirmam que isso demonstrou incapacidade de diálogo e tendência autoritária. Seus apoiadores interpretam esses conflitos de outra maneira: Bolsonaro teria incomodado estruturas que estavam acostumadas a governar sem resistência.
Quando quase todos os grandes centros de poder se unem contra uma única figura política, o eleitor bolsonarista não conclui automaticamente que essa pessoa esteja errada. Muitas vezes, chega à conclusão oposta: se o sistema reage com tanta força, é porque se sente ameaçado.
Esse raciocínio ajuda a explicar por que investigações e acusações nem sempre diminuem a popularidade de Bolsonaro. Para seus seguidores, cada nova ofensiva confirma a narrativa de perseguição.
Isso não significa que um político esteja acima da lei. Bolsonaro, seus familiares, aliados e adversários devem ser investigados quando houver elementos concretos. O que seus apoiadores exigem é que a mesma disposição seja aplicada a todos.
AS URNAS E OS LIMITES DA CONTESTAÇÃO
Um dos pontos mais difíceis para quem defende Bolsonaro está nos ataques ao sistema eleitoral.
Questionar procedimentos, cobrar transparência e defender mecanismos adicionais de auditoria são atitudes legítimas em uma democracia. Entretanto, acusações graves precisam ser acompanhadas de provas.
Bolsonaro ultrapassou esse limite em diferentes ocasiões ao lançar suspeitas sem apresentar elementos suficientes para demonstrar fraude no resultado eleitoral.
Posso defender Bolsonaro e, ao mesmo tempo, reconhecer que ele errou ao alimentar desconfiança generalizada nas urnas. Posso também condenar os atos de vandalismo ocorridos em Brasília no dia 8 de janeiro de 2023.
Nenhuma insatisfação eleitoral autoriza invasões, depredação do patrimônio público ou tentativa de impedir o funcionamento das instituições.
Ser de direita não significa defender desordem. Conservadorismo pressupõe respeito à lei, à propriedade e à estabilidade institucional.
BOLSONARO NÃO É TODA A DIREITA
Também é importante reconhecer que a direita brasileira não se resume a Jair Bolsonaro.
Existem liberais, conservadores, democratas-cristãos, nacionalistas e pessoas que concordam com parte de suas propostas, mas rejeitam seu comportamento ou sua forma de conduzir conflitos.
Bolsonaro se tornou o principal representante eleitoral desse campo, mas não é seu proprietário.
Defender valores de direita não exige concordância automática com cada declaração, atitude ou escolha feita por ele. Transformar qualquer líder em figura infalível é abandonar justamente a liberdade de pensamento que a direita afirma defender.
POR QUE, APESAR DOS ERROS, EU CONTINUARIA À DIREITA?
Eu continuaria defendendo a direita porque acredito em responsabilidade individual, liberdade econômica, propriedade privada, segurança pública, valores familiares, liberdade religiosa e limites para o poder do Estado.
Continuaria reconhecendo em Bolsonaro o político que reuniu essas insatisfações e rompeu o domínio eleitoral que o PT exercia desde 2003.
Mas apoio não deveria significar cegueira.
Bolsonaro cometeu erros na pandemia, escolheu mal alguns auxiliares, fez declarações ofensivas, criou conflitos desnecessários e frequentemente prejudicou o próprio governo pela maneira como se comunicava.
Ainda assim, para seus apoiadores, esses defeitos não anulam aquilo que ele representou: oposição ao PT, resistência ao avanço da esquerda, defesa de valores conservadores e enfrentamento a um sistema político desacreditado.
Essa é a narrativa de quem defende Bolsonaro.
No próximo artigo, faremos o mesmo exercício a partir do outro lado: quais são os argumentos de um eleitor de esquerda para defender Lula, o PT e o governo iniciado em 2023?
Somente depois de ouvir as duas versões entraremos na parte mais desconfortável da discussão: por que somos tão rigorosos com os erros do adversário e tão generosos com os erros de quem recebe o nosso voto?
Por Nelson Alves – Nova Olímpia-MT (17/09/2026)








