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PONTO CEGO – INDEPENDÊNCIA

Somos realmente independentes?
Mais uma vez, o Brasil comemora sua Independência!
Bandeiras nas ruas. Desfiles. Hinos. Discursos sobre soberania nacional.
Mas existe uma pergunta que talvez incomode mais do que qualquer discurso:
independentes de quem?
Porque um país pode ser independente de uma metrópole e continuar dependente de interesses estrangeiros.
Pode ser economicamente poderoso e politicamente vulnerável.
Pode ter Constituição, eleições e três Poderes — e ainda assim permitir que esses Poderes se confundam, se protejam ou se submetam uns aos outros.
O noticiário desta semana deveria nos fazer pensar.
O Congresso terminou seu esforço concentrado sem conseguir votar propostas importantes do governo, como o fim da escala 6×1 e a PEC da Segurança. O Senado decidiu empurrar parte dessa agenda para depois do primeiro turno.
Isso é ruim?
Não necessariamente.
É justamente assim que uma democracia constitucional deveria funcionar: um Poder não é extensão do outro.
O problema começa quando deixamos de perguntar por que um Poder bloqueia outro.
E pior ainda quando passamos a escolher nossos representantes apenas pelo candidato à Presidência.
Enquanto isso, o Supremo Tribunal Federal atravessa uma crise institucional que levou seu próprio presidente, Edson Fachin, a defender código de ética para a Corte, modernização do sistema de Justiça e o encerramento do inquérito das fake news. E afirmou algo que deveria ser óbvio numa República:
nenhuma autoridade está acima da Constituição.
Deveria ser óbvio.
Mas talvez justamente por ter deixado de ser óbvio seja necessário repeti-lo.
Porque independência não significa apenas ter uma bandeira própria.
Independência significa ter instituições capazes de dizer “não” umas às outras.
O Executivo precisa ser limitado pelo Legislativo.
O Legislativo precisa ser limitado pela Constituição.
O Judiciário precisa ser limitado pela lei e pela própria Constituição.
E todos precisam ser limitados por uma sociedade capaz de fiscalizá-los.
É aí que aparece o cidadão.
E é aí que aparece o voto.
O voto nos torna independentes?
Sim — mas somente se soubermos o que estamos fazendo com ele.
Em 2026, milhões de brasileiros estarão preocupados em escolher o presidente.
Mas o presidente não governa sozinho.
Haverá Congresso.
Haverá Senado.
Haverá Câmara dos Deputados.
Haverá governadores e assembleias legislativas.
Haverá Judiciário.
Haverá instituições de controle.
E haverá interesses econômicos, grupos organizados, partidos e forças externas disputando influência.
Uma pesquisa divulgada nesta semana mostra Lula e Flávio Bolsonaro tecnicamente empatados em vários cenários de segundo turno.
Mas talvez essa seja justamente a armadilha.
Transformar a eleição inteira na pergunta “Lula ou Flávio?”
Como se escolher o presidente fosse escolher o Brasil.
Não é.
Presidente nenhum é o Brasil.
O Brasil é uma arquitetura de poderes.
E quando elegemos apenas a cabeça da arquitetura e esquecemos de quem fiscaliza, limita ou controla essa cabeça, podemos estar entregando a chave da casa sem escolher quem ficará com as fechaduras.
Independência, portanto, não é apenas uma questão de política externa.
É uma questão de independência institucional.
Um país é independente quando seu destino não pode ser decidido por um único governante.
Quando um ministro não está acima da Constituição.
Quando um senador não confunde mandato com propriedade.
Quando um deputado entende que representa o eleitor — não o dono do partido.
Quando o Executivo aceita ser contrariado.
Quando o Legislativo sabe dizer não.
Quando o Judiciário sabe que também precisa ser controlado.
E quando o cidadão entende que seu voto não serve apenas para escolher quem manda.
Serve também para escolher quem terá poder para impedir que quem manda abuse do poder.
É isso que talvez devêssemos celebrar no próximo 7 de Setembro.
Não apenas a independência conquistada em 1822.
Mas a independência que ainda estamos tentando construir.
Porque talvez a pergunta mais importante desta eleição não seja:
“Quem vai governar o Brasil?”
Talvez seja:
“Quem vai controlar quem governar o Brasil?”
E existe uma resposta para isso.
Nós.
Pelo voto.
Mas não por um voto cego.
Por um voto que enxergue o sistema inteiro.
Porque um eleitor que escolhe apenas quem quer no poder pode eleger um governante.
Um eleitor que escolhe também quem poderá limitar esse poder começa a construir uma República.
PONTO CEGO
Independência não é não ter dono estrangeiro.
É não permitir que ninguém — presidente, Congresso, ministro, partido, grupo econômico ou potência estrangeira — seja dono do Estado.
7 de Setembro.
Antes de comemorar a Independência, talvez seja hora de perguntar se sabemos exercê-la.
Por Paulo Laurentino é Artista Plástico e Publicitário.
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