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POLARIZAÇÃO

Entre a cruz, a espada e o meio.

A polarização é uma ferramenta poderosa para quem quer controlar uma disputa.
Primeiro, divide-se o mundo em dois lados: nós e eles. A cruz e a espada. O bem e o mal.
Depois, alimenta-se o conflito.

Quanto maior a distância entre os lados, mais fácil convencer o eleitor de que ele precisa escolher um deles.
Mas existe um terceiro movimento — ainda mais sofisticado.
Quando os dois lados já estão consolidados, surge o “novo”.
“Esse é diferente.”
“Esse não é de nenhum lado.”
“Esse é neutro.”
E uma parte do eleitorado corre para ele.
Sem perceber que pode estar apenas diante de uma nova estratégia de divisão do voto.
E aqui existe um ponto cego ainda mais perigoso:
o falso centro.
Não estamos falando do centro como posição política legítima.
O centro pode ser necessário. Pode representar equilíbrio, moderação, diálogo e capacidade de construir consensos.
O problema aparece quando o “centro” não nasce de uma convicção política, mas de uma estratégia eleitoral.
Cria-se então um personagem, uma candidatura ou um movimento com aparência de independência.
Não é “da esquerda”.
Não é “da direita”.
Não é “de nenhum dos dois”.
É o novo.
É o moderado.
É o “caminho do meio”.
E justamente por parecer uma alternativa aos dois lados, consegue capturar uma parcela do eleitorado que, em outras circunstâncias, poderia votar em um dos adversários.
O cálculo pode ser simples:
retirar votos suficientes de um lado no primeiro turno para alterar a composição da disputa.
Não é necessariamente preciso vencer.
Basta crescer o suficiente para tirar votos de quem não deveria chegar forte ao segundo turno.
E então acontece algo que, para o eleitor desatento, pode parecer contraditório.
A candidatura que se apresentou como independente, neutra ou alternativa revela sua proximidade.
No segundo turno, o “meio” encontra um lado.
O “neutro” escolhe uma trincheira.
O “centralizado” faz uma aliança.
E aquilo que parecia uma terceira via pode ter funcionado, desde o começo, como uma ponte eleitoral para um dos lados.
É aí que a polarização se torna uma engenharia mais sofisticada.
Primeiro, apresentam-se dois inimigos.
Depois, cria-se um terceiro caminho.
O terceiro caminho divide os votos.
E, no momento decisivo, ele pode voltar para um dos dois lados originais.
Dividir no primeiro turno. Somar no segundo.
Essa possibilidade não significa que toda terceira candidatura seja falsa.
Nem que todo candidato de centro seja um instrumento de alguém.
Seria tão simplista quanto a própria polarização que estamos tentando compreender.
O ponto cego está em outro lugar:
não investigar a origem, os interesses, as alianças, os financiadores, os discursos e, principalmente, a trajetória de quem aparece como “novo”.
Porque novidade não é sinônimo de independência.
Neutralidade declarada não é prova de imparcialidade.
E estar no meio não significa necessariamente estar acima da disputa.
Às vezes, estar no meio é exatamente a posição mais conveniente para capturar votos dos dois lados.
O problema não é existir um terceiro caminho.
O problema é acreditar que estar no meio é, por si só, uma virtude.
Não é.
Entre a cruz e a espada pode existir sabedoria.
Mas também pode existir oportunismo, ausência de posição ou cálculo eleitoral.
Por isso, antes de entregar nosso voto ao “neutro”, talvez devêssemos fazer algumas perguntas incômodas:
Novidade em quê?
Novidade para quem?
Quem está por trás?
De onde veio?
Com quem se relaciona?
Quem ganha se ele crescer?
E, principalmente:
Se houver segundo turno, para onde esse “neutro” irá?
Porque talvez a pergunta mais importante não seja descobrir quem está no meio.
É descobrir:
A serviço de quem esse meio está?
Em 2026, talvez o maior sinal de que ainda estamos sem rumo seja este:
continuamos escolhendo pelo lugar que alguém ocupa no conflito — e não pela capacidade que demonstra para conduzir o país.
A pergunta não deveria ser:
“De que lado ele está?”
Nem:
“Ele é o novo?”
Nem sequer:
“Ele é neutro?”
A pergunta deveria ser:
“Ele está preparado para governar?”
Porque, quando o eleitor não sabe para onde quer ir,
qualquer caminho parece uma saída.
E quando um povo não sabe para onde quer ir,
até o caminho pode ser escolhido por quem sabe exatamente onde quer chegar.

Paulo Laurentino é
Artista Plástico e Publicitário

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