Existe uma cena que se repete milhões de vezes antes de cada eleição.
O eleitor olha para seu voto e pensa:
“O que pode fazer diferença o meu voto? É apenas um.”
Talvez esteja aí um dos grandes pontos cegos da democracia.
Ele enxerga o “votinho”, mas não enxerga o “votão”.
Seu voto é uma unidade. Mas, somado aos votos de milhões de cidadãos, transforma-se em uma das maiores forças de uma democracia: a decisão sobre quem receberá o poder político.
E então surge uma pergunta incômoda:
Quem é o patrão de quem?
QUEM ENTREGA O PODER?
O político não nasce com um mandato.
Ele recebe um mandato.
O eleitor escolhe.
O voto delega.
O mandato nasce.
A relação deveria ser simples:
ELEITOR → VOTO → MANDATO → PODER.
Mas, depois da eleição, essa relação muitas vezes se inverte.
O eleitor passa a procurar o político.
Pede.
Agradece.
Espera.
E, quando recebe alguma coisa, muitas vezes pensa:
“Ele me ajudou.”
Mas a pergunta deveria ser:
“Ele me fez um favor ou cumpriu uma obrigação pública?”
Quando uma obrigação do Estado passa a ser percebida como favor pessoal do político, nasce uma relação perigosa:
favor → gratidão → dívida → fidelidade política.
O cidadão que deveria fiscalizar começa a agradecer.
O representante que deveria prestar contas começa a ser visto como benfeitor.
O mandante começa a se sentir dependente do mandatário.
E o poder muda de lugar na cabeça das pessoas.
O ELEITOR SE SENTE PEQUENO
Talvez esse seja outro ponto cego.
O eleitor pensa:
“Meu voto é só um.”
Mas ninguém é eleito por um voto.
A eleição é construída pela soma:
1 + 1 + 1 + 1 + 1…
O eleitor vê a unidade.
A política trabalha com a soma.
Campanhas sabem que milhares de votos podem decidir uma eleição. O cidadão, porém, frequentemente não percebe a força coletiva daquilo que possui individualmente.
O eleitor enxerga o tamanho do próprio voto. Não enxerga o tamanho do poder que nasce quando seu voto se junta aos demais.
E essa sensação de pequenez pode produzir dependência.
Quem acredita que seu voto vale pouco pode começar a acreditar que precisa do político para conseguir aquilo que, em uma democracia saudável, deveria ser tratado como direito ou política pública.
NÃO É “O QUE ELE FARÁ POR MIM?”
Talvez a pergunta mais comum antes de uma eleição seja:
“O que esse político pode fazer por mim?”
Mas uma democracia madura deveria estimular outra:
“O que esse representante poderá fazer para melhorar o ambiente em que todos nós vivemos?”
A diferença parece pequena.
Não é.
Uma pergunta pensa no eu.
A outra começa a pensar no nós.
Escolher um representante deveria significar avaliar quem está mais preparado para receber temporariamente uma parcela do poder público e utilizá-la em benefício da coletividade.
Não é escolher um salvador.
Não é contratar um despachante de favores.
Não é comprar uma promessa.
É delegar poder.
O VOTO É UMA PROCURAÇÃO
Imagine que alguém lhe pedisse uma procuração para administrar algo que pertence a todos.
Você entregaria essa procuração apenas porque a pessoa foi simpática?
Porque prometeu alguma coisa?
Porque resolveu um problema seu?
Provavelmente perguntaria:
É competente?
É confiável?
Tem histórico?
Sabe o que está fazendo?
Presta contas?
Por que deveria ser diferente quando estamos entregando poder político?
O voto é muito mais do que uma escolha de nome.
É uma delegação temporária de poder.
E quem recebe essa delegação não deveria ser escolhido apenas pelo que promete fazer pelo eleitor, mas pelo que é capaz de fazer pela sociedade.
O VERDADEIRO DESPERTAR
O objetivo não deveria ser transformar o eleitor em alguém que diga:
“Eu mando no político.”
Isso seria apenas outra distorção.
O despertar é outro:
“Eu preciso compreender a quem estou entregando uma parcela do poder que pertence à sociedade.”
O eleitor não precisa se sentir poderoso contra o político.
Precisa perceber que é parte de um poder coletivo na construção da representação política.
Porque seu voto sozinho é apenas um voto.
Mas o seu voto somado aos demais pode decidir quem governará, quem fiscalizará, quem legislará e quem administrará recursos públicos.
O ÚLTIMO PONTO CEGO
Talvez o maior ponto cego não esteja no político.
Esteja na maneira como o eleitor enxerga a si mesmo.
Ele olha para o político e pensa:
“Ele tem poder.”
Mas deveria lembrar:
“Nós entregamos esse poder.”
Olha para seu voto e pensa:
“É só um.”
Mas deveria lembrar:
“O meu é um. O seu é um. O nosso são milhões.”
Por isso, talvez a frase que devesse acompanhar o eleitor até a urna seja:
SEU VOTO É UM.
SEU PODER É COLETIVO.
NÃO O ENTREGUE COMO FAVOR.
ENTREGUE-O COMO RESPONSABILIDADE.
Porque democracia não é apenas escolher quem receberá o poder.
É perceber o poder que existe no ato de escolher.
E talvez seja justamente aí que o Ponto Cego desapareça:
quando o eleitor deixa de se sentir pequeno e volta a enxergar o tamanho do próprio poder.
Paulo Laurentino é
Artista Plástico e Publicitário
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