quarta-feira, 23 setembro 2026
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O preço da ignorância cívica

Existe uma forma de pobreza que não aparece na conta bancária.
É a pobreza de compreensão sobre aquilo que decide nossa própria vida.

Milhões de pessoas sabem quanto pagam no supermercado, quanto custa o combustível ou quanto recebem no fim do mês. Mas muitas não sabem quem decide o quê dentro do poder público, quais são as atribuições de um prefeito, de um vereador, de um governador, de um deputado ou de um senador.
Essa diferença tem um preço.
Quando não compreendemos como as instituições funcionam, fica mais difícil saber quem pode resolver determinado problema, quem deve ser cobrado e quem precisa prestar contas.
E um cidadão que não sabe a quem cobrar acaba cobrando qualquer um.
A ignorância cívica não significa falta de inteligência.
Significa falta de conhecimento sobre a estrutura da vida pública.
Não precisamos ser especialistas em Direito Constitucional, orçamento público ou administração para exercer a cidadania. Mas precisamos conhecer o suficiente para não sermos facilmente enganados.
Precisamos saber, por exemplo, que diferentes autoridades possuem diferentes responsabilidades. Que uma promessa pode depender de orçamento, legislação ou competência de outro órgão. Que um representante pode fiscalizar, propor leis ou votar recursos, mas nem sempre pode executar diretamente aquilo que promete.
Sem esse conhecimento, qualquer discurso pode parecer plausível.
É assim que nascem muitas expectativas impossíveis, cobranças dirigidas à pessoa errada e promessas que soam maravilhosas justamente porque o eleitor não conhece os limites do cargo.
E existe outro problema.
Quem não conhece seus direitos e os mecanismos de fiscalização também encontra mais dificuldade para exigir transparência.
Não sabe onde procurar informações.
Não sabe o que perguntar.
Não sabe interpretar um orçamento.
Não sabe acompanhar uma decisão.
Não sabe distinguir uma realização concreta de uma obra de propaganda.
Nesse ambiente, o cidadão pode até reclamar muito.
Mas fiscalizar pouco.
E reclamar sem compreender o funcionamento da máquina pública pode produzir apenas indignação.
Conhecimento cívico transforma indignação em cobrança.
Quando o cidadão sabe quem é responsável por determinada decisão, consegue fazer perguntas melhores.
Quando conhece as regras, percebe quando elas são respeitadas ou violadas.
Quando acompanha os números, consegue comparar promessa com resultado.
Quando entende as instituições, percebe que democracia não termina no dia da eleição.
O voto escolhe representantes.
A cidadania acompanha o trabalho deles.
Por isso, aprender sobre política não significa necessariamente escolher um lado político.
Significa compreender o sistema no qual todos estamos inseridos.
Conhecer a Constituição, as instituições, as atribuições dos cargos, o funcionamento do orçamento e os mecanismos de participação não transforma ninguém automaticamente em um bom cidadão.
Mas desconhecer tudo isso torna o cidadão muito mais vulnerável à manipulação.
E talvez esse seja o maior preço da ignorância cívica:
não saber que está sendo enganado.
Uma população que conhece pouco sobre o funcionamento do Estado depende mais de discursos, personalidades e explicações prontas.
Uma população que compreende seus mecanismos consegue perguntar:
Quem decidiu?
Quem executou?
Quanto custou?
Qual foi o resultado?
Quem deve responder por isso?
São perguntas simples.
Mas perguntas simples, feitas por milhões de cidadãos conscientes, podem produzir uma enorme diferença.
A democracia não precisa que todos sejam especialistas.
Precisa que cidadãos saibam o suficiente para não entregar sua consciência a quem fala mais alto.
Porque o poder público pertence à sociedade.
E aquilo que não compreendemos, dificilmente conseguimos fiscalizar.
Conhecimento cívico não é luxo.
É ferramenta de cidadania.
Mas conhecimento que não se transforma em ação também pode permanecer inútil.
Por isso, o próximo passo é simples: aprender, verificar, participar, perguntar, fiscalizar e cobrar.
Procure a informação pública. Conheça as atribuições de quem recebeu seu voto. Acompanhe decisões e gastos. Compare promessas com resultados. Questione, quando necessário. Reconheça acertos, critique erros e exija explicações — independentemente de quem esteja no poder.
Não espere a próxima eleição para exercer sua cidadania.
O voto acontece em um dia. A cidadania acontece todos os dias.
Uma democracia mais consciente não começa apenas com representantes melhores.
Começa com cidadãos que conhecem seus direitos, compreendem seus deveres e não abrem mão de acompanhar aquilo que foi feito em seu nome.
Conheça. Participe. Fiscalize. Cobre.
Porque o preço da ignorância cívica é alto.
Mas o custo da cidadania ativa é muito menor:
apenas a disposição de não permanecer indiferente.

Paulo Laurentino é Artista Plástico e Publicitário

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