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O futuro é coletivo: por que precisamos voltar a conversar sobre o Brasil

Você já deixou de conversar com alguém de quem gosta por causa de política? Já viu um almoço de família terminar em discussão ou uma amizade esfriar por causa de um voto?

Enquanto brasileiros se dividem para defender candidatos, problemas como o custo de vida, os salários, as dívidas, os juros e a falta de oportunidades de trabalho digno, com remuneração adequada e perspectivas de crescimento, continuam afetando a todos. Muitos brasileiros ainda precisam recorrer a empregos precários e subempregos para sobreviver. A eleição termina, os governos mudam, mas a vida continua.

O problema da polarização não está em pensar diferente. A democracia depende da diversidade de opiniões. O perigo começa quando transformamos a política em torcida, passamos a defender decisões conforme o lado de quem as toma e deixamos de cobrar resultados daqueles que elegemos para nos representar.

O voto é individual, mas suas consequências alcançam toda a sociedade. Por isso, precisamos ir além das disputas partidárias e discutir o que realmente importa: quais decisões podem melhorar a vida dos brasileiros?

O PREÇO DA POLARIZAÇÃO ESTÁ NO BOLSO

Quando os preços sobem e a remuneração não acompanha, o trabalhador perde poder de compra. O dinheiro que antes pagava as despesas da casa passa a exigir escolhas difíceis. Muitas famílias recorrem ao crédito para fechar as contas e comprometem parte da renda futura com juros e prestações.

O problema também atinge servidores públicos e militares. Quando a remuneração permanece sem reajustes por longos períodos, a inflação acumulada reduz seu poder de compra. Reajustes posteriores podem aliviar a situação, mas não necessariamente recuperam todas as perdas.

Não se trata de defender privilégios, mas de reconhecer que o trabalho precisa garantir condições dignas de vida e que a remuneração deve ser discutida com responsabilidade, considerando as necessidades dos trabalhadores e a capacidade financeira do Estado.

Diante disso, a pergunta aos candidatos é direta: quais propostas podem recuperar o poder de compra, gerar empregos de qualidade, ampliar a renda das famílias e criar oportunidades para quem deseja construir um futuro melhor?

Mais importante ainda: estamos avaliando essas propostas pelos seus resultados ou apenas porque foram apresentadas por alguém do nosso lado político?

PRIVATIZAÇÕES: QUEM RECEBE OS BENEFÍCIOS E QUEM PAGA A CONTA?

Energia elétrica e combustíveis são insumos essenciais. Seus preços influenciam o transporte, a produção de alimentos, a indústria e o comércio. Quando esses custos aumentam, parte dos impactos pode chegar ao consumidor e pressionar o orçamento das famílias.

A venda do controle da BR Distribuidora e a desestatização da Eletrobras representam mudanças importantes na gestão de setores estratégicos da economia brasileira. Seus defensores apontam possibilidades de maior eficiência, investimentos privados e redução da participação direta do Estado. Os críticos alertam para riscos relacionados à defesa do interesse público, à distribuição dos ganhos e à capacidade de manter preços e serviços em condições adequadas para a população.

O debate não deve se limitar à defesa ideológica do Estado ou do mercado. É preciso avaliar resultados concretos: preços, investimentos, qualidade dos serviços, concorrência, distribuição de custos e capacidade de regulação.

Na energia elétrica, tarifas e encargos dependem de diferentes componentes, incluindo custos de geração, transmissão, distribuição e políticas setoriais. Nos combustíveis, os preços também são influenciados pelo petróleo internacional, pelo câmbio, pelos tributos e pelas decisões comerciais das empresas.

Esses fatores impedem atribuir toda alta de preços às privatizações. Mas também não justificam ignorar os efeitos que mudanças na propriedade e na gestão de empresas estratégicas podem produzir. A avaliação exige dados, comparação de períodos e análise das condições de mercado e da regulação.

O problema não é o lucro em si, mas saber se a busca pelo lucro está sendo conciliada com o interesse público.

Se o patrimônio público é transferido ao setor privado, quais benefícios concretos justificam essa escolha? Quem recebe os ganhos, quem assume os riscos e quais mecanismos protegem a população contra custos excessivos e serviços inadequados?

Essas perguntas precisam ser feitas independentemente do partido que promoveu a mudança ou da posição ideológica de quem a critica. Patrimônio estratégico e serviços essenciais exigem avaliação rigorosa, transparência e compromisso com os interesses da sociedade.

A ENGRENAGEM DOS PREÇOS, DOS JUROS E DOS LUCROS

A economia funciona por meio de relações que precisam ser compreendidas antes de se apontar culpados.

Quando energia, combustíveis e outros insumos encarecem, os custos de produção podem aumentar e pressionar a inflação. Mas os preços também sofrem influência da demanda, do câmbio, das condições de oferta e das expectativas econômicas, entre outros fatores.

Para conter pressões inflacionárias persistentes, o Banco Central pode elevar a taxa básica de juros, a Selic. Essa medida tende a encarecer empréstimos e financiamentos, desestimular parte do consumo e dos investimentos e influenciar as decisões de empresas e famílias. Seus efeitos, porém, não são imediatos nem atingem todos os setores da mesma maneira.

Forma-se uma cadeia de consequências: custos maiores podem pressionar preços; juros elevados podem dificultar o crédito; e famílias e empresas podem enfrentar mais obstáculos para consumir, investir, produzir e contratar.

Ao mesmo tempo, juros elevados podem favorecer os rendimentos nominais de determinadas aplicações financeiras e aumentar, ao longo do tempo, o custo de financiamento da dívida pública. O efeito depende da composição dos investimentos, dos títulos públicos, dos prazos e das condições econômicas. Além disso, rendimento nominal não é sinônimo de ganho real, pois a inflação também precisa ser considerada.

Enquanto quem precisa de crédito pode pagar mais caro, quem possui recursos aplicados em determinados ativos financeiros pode receber rendimentos maiores. Isso não significa que todos os investidores ganhem da mesma forma, nem prova que alguém provoque a inflação deliberadamente para lucrar com os juros.

A questão legítima é outra: quem se beneficia da estrutura econômica e quem suporta seus custos?

Combater a inflação é necessário, sobretudo porque ela compromete o poder de compra e prejudica mais intensamente quem tem pouca margem no orçamento. Mas também precisamos discutir como enfrentar suas causas, ampliar a capacidade produtiva e evitar que o peso do ajuste recaia desproporcionalmente sobre trabalhadores, pequenos empreendedores e famílias endividadas.

Uma política econômica responsável não deve ignorar os efeitos distributivos de suas decisões. É preciso examinar quem paga a conta, quais resultados são alcançados e se existem alternativas capazes de controlar os preços sem comprometer desnecessariamente o emprego, a renda e o investimento produtivo.

PARA SAIR DAS DÍVIDAS, É PRECISO CORTAR OU CRESCER?

Imagine uma pessoa que deve R$ 10 mil e recebe R$ 2 mil por mês. Sua dívida equivale a cinco vezes a renda mensal. Se a renda subir para R$ 4 mil, mantendo-se a dívida, essa relação cai para duas vezes e meia.

A dívida não desaparece, mas a capacidade de pagamento pode melhorar. Os juros, os prazos e as despesas também influenciam o resultado.

Com o Brasil, a lógica tem semelhanças, embora a realidade de um país seja muito mais complexa. Uma economia que produz mais, gera empregos, amplia a renda e aumenta a produtividade pode fortalecer a arrecadação e melhorar sua capacidade de financiar serviços públicos e compromissos financeiros.

Isso não significa que o crescimento, por si só, resolva os problemas fiscais. A sustentabilidade da dívida pública depende também dos juros, da arrecadação, das despesas, do resultado primário e das condições de financiamento. Responsabilidade fiscal, combate ao desperdício e qualidade do gasto são indispensáveis.

Entretanto, cortar despesas sem avaliar seus efeitos pode produzir resultados contraproducentes. Reduções indiscriminadas de investimentos podem paralisar obras, comprometer a infraestrutura, restringir oportunidades e enfraquecer a capacidade produtiva do país. O ajuste fiscal precisa distinguir desperdício de investimento necessário e despesa ineficiente de política pública que produz resultados.

Investimentos bem planejados em educação, infraestrutura, ciência, tecnologia e qualificação profissional podem ampliar a produtividade, estimular a atividade econômica e gerar benefícios duradouros. Para isso, precisam ser acompanhados de planejamento, transparência, avaliação de resultados e controle dos custos.
O desafio não é escolher entre gastar sem limites e cortar tudo indiscriminadamente. É conciliar contas públicas sustentáveis com crescimento econômico, geração de empregos e melhoria dos serviços públicos.

Não basta administrar a escassez. Precisamos criar condições para produzir mais, gerar oportunidades, elevar a renda e melhorar a vida da população, sem transferir às próximas gerações uma conta fiscal insustentável.

O BRASIL CONTINUA DEPOIS DA ELEIÇÃO

Romper a polarização não significa concordar em tudo, abandonar convicções ou deixar de criticar governantes. Significa reconhecer que pessoas podem defender caminhos diferentes sem se tornarem inimigas e que nenhuma liderança, partido ou corrente ideológica deve estar acima do exame crítico.

Antes de compartilhar uma acusação, confira a fonte. Antes de acreditar em uma promessa, pergunte como será executada e financiada. Ao avaliar uma política pública, procure conhecer os resultados, os custos, os beneficiários e os possíveis prejuízos. Compare propostas e cobre responsabilidades, independentemente de quem esteja no poder.

Se um governante de quem gostamos toma uma decisão equivocada, devemos ter coragem de reconhecê-la. Se alguém de quem discordamos apresenta uma boa proposta, devemos ter honestidade para examiná-la. Quando a lealdade partidária passa a valer mais do que os resultados, deixamos de exercer plenamente nosso papel de cidadãos.

A democracia não exige unanimidade. Exige liberdade para escolher, respeito às diferenças, acesso à informação e responsabilidade para fiscalizar o poder. Também exige que não confundamos crítica com perseguição, divergência com inimizade ou convicção com certeza absoluta.

Por isso, deixo um convite sincero: vamos conversar?

Se você pensa diferente de mim, quero ouvir seus argumentos. Podemos discutir economia, privatizações, juros, salários e políticas públicas sem deboche ou ataques pessoais. Podemos discordar e examinar os fatos sem a obrigação de terminar a conversa pensando igual.

O diálogo não elimina as diferenças, mas nos ajuda a identificar problemas, corrigir erros e encontrar soluções melhores. É assim que a divergência deixa de ser um obstáculo e passa a contribuir para a democracia.

A eleição passa, os governos mudam e as divergências permanecem. Mas o Brasil continua sendo o lar de todos nós. Nossos desafios não escolhem partido, e suas consequências não respeitam as fronteiras da polarização.

O voto é individual, mas o futuro é coletivo. Construir um país melhor exige mais do que escolher representantes: exige consciência crítica, responsabilidade, diálogo e participação permanente.

O Brasil não precisa que todos pensem igual. Precisa que todos possam pensar, questionar, dialogar e cobrar resultados sem abrir mão do respeito e do compromisso com o bem comum.

Angelo Silva de Oliveira é cidadão brasileiro, mestre em Administração Pública e controlador/auditor interno.

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