Em 22 de setembro de 2026, na 81ª Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas – ONU -, em Nova Iorque, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, proferiu um discurso terrivelmente imperialista. Cumpre, inicialmente, esclarecer o que é imperialismo. A filósofa alemã Hannah Arendt, em As origens do Totalitarismo, informa que o imperialismo surge do colonialismo em 1884, momento em que as nações poderosas buscavam posições hegemônicas. O imperialismo surgiu, reitera Arendt, quando a classe detentora da produção capitalista rejeitou as fronteiras nacionais como barreira à expansão econômica. Nesse processo, o imperialista almeja expandir os domínios do Estado, suprimindo outras nações. O exemplo pungente desse princípio é o colonizador britânico Cecil Rhodes (1853-1902), um comerciante ambicioso com forte tendência à megalomania, para quem “a expansão é tudo”. Arendt conclui que a expansão como objetivo permanente e supremo da política é a ideia central do imperialismo. Rhodes era, para Vladimir Lenin, um social-chauvinista, alguém convencido da importância do imperialismo e que o considerava necessário para não entrar em guerra civil. Entretanto, é preciso acrescentar que Lenin entende ser essa defesa do imperialismo simplesmente um pouco grosseira e cínica.
Rhodes, em seu máximo delírio imperialista, afirma que “essas estrelas; esses vastos mundos que nunca poderemos atingir. Se eu pudesse, anexaria os planetas”. Pelo visto, ele ganhou seguidores.
Com efeito, é preciso ir um pouco mais fundo para entender o imperialismo. Vladimir Lenin, em O imperialismo, fase superior do capitalismo, livro publicado em 1917, observa que, nos fins do século XIX, em função dos monopólios e dos cartéis, o capitalismo transformou-se em imperialismo. Encontramo-nos, diz Lenin, perante o estrangulamento, pelos monopolistas, de todos aqueles que não se submetem ao monopólio, ao seu jugo, à sua arbitrariedade. Em virtude do monopólio efetivo, o capital financeiro acaba concentrado em poucas mãos. Para Lenin, o capitalismo moderno é o capitalismo na sua fase imperialista. Isso ocorre porque no modelo moderno há a substituição da livre concorrência capitalista pelos monopólios capitalistas. Para o político revolucionário, o monopólio é a transição do capitalismo para um regime superior, ou seja, por seu viés chega-se ao imperialismo. Em verdade, essa é a definição dada por ele ao imperialismo: é a fase monopolista do capitalismo.
Ainda com Lenin tem-se o fato de que há no imperialismo uma ideia de indexação e o fato de que o que lhe é característico é, sobretudo, o capital financeiro. Ou seja, não é só expansão territorial que motiva o aspecto anexionista, há o objetivo da ampliação econômica. Isso ocorre não só para o enriquecimento próprio, mas também para enfraquecer possíveis adversários na busca da hegemonia. Afinal, “é parte da essência do imperialismo a rivalidade das grandes potências na busca da hegemonia”. Isso integra o processo de partilha do mundo entre as potências hegemônicas.
Outro aspecto dessa política é o enriquecimento dos rentistas, pessoas que vivem exclusivamente de investimentos, aluguéis, títulos financeiros. Lenin observa que o rendimento dos rentistas é cinco vezes maior que o rendimento do comércio externo do país mais “comercial” do mundo! Eis a essência do imperialismo e do parasitismo imperialista!
A conclusão a que se chega, através de Lenin, é de que o imperialismo é o capitalismo monopolista, o capitalismo parasitário, do Estado usurário. Seus traços distintivos são “os monopólios, as oligarquias, a tendência para a dominação de um número cada vez maior de nações pequenas ou fracas por um punhado de nações riquíssimas ou fortes”.
O discurso de Donald Trump, por seu turno, revela os traços imperialistas.
Inicialmente, ele expõe uma postura extremamente chauvinista. Aliás, a egolatria e a megalomania são tônicas constantes em seu discurso: “nosso país é o mais forte, nossa economia causa inveja no mundo, nossa força militar lidera em tudo, nossa energia alimenta o planeta”, são alguns de seus argumentos. Em seguida, começa a enxurrada de expressões totalitaristas. Começa-as com: “A gente está reformando o mundo, resolvendo problemas”. Parte, então, da premissa de que o mundo precisa ser dominado, domesticado por uma força maior. Abordando o imperialismo inglês, Arendt diz que a arrogância veio a ser um meio de domínio.
Ato contínuo, complementa que “usei a força para fazer os Estados Unidos o país mais poderoso”. Arendt fala em administradores da violência, que “entendem que a força é a essência de toda estrutura política”. O uso da força sobre outras nações com escopo de tornar um país mais poderoso é típico do imperialismo moderno. Trump escolhe atacar diretamente o Irã. Diz ele que enfrentou o perigo que é a ameaça terrorista patrocinado pela República Islâmica do Irã. Segundo ele, o regime fanático iraniano causou um banho de sangue, assassinatos, trazendo o caos; crimes não só no Oriente Médio. O fato é que as ações capitaneadas pelos Estados Unidos tem matado um número exponencial de pessoas nas ações de retaliação ou de expansão do poder no Oriente Médio. Os massacres ocorrido na Palestina são exemplos. Trump cita, com orgulho, o sucesso da “Operação martelo da meia-noite” ocorrida em 2025. Um ataque maciço às usinas e aos bunkers e outras áreas estratégicas no Irã. É preciso reforçar que o ataque às embarcações da marinha, o aniquilamento da estrutura de radares, de aeronaves, enfim, da economia de outro país é uma forma de comunicar ao mundo o seu poder. E assegurá-lo por intermédio do terror. Isso tem sido prerrogativa do processo hegemônico. A ironia nesse processo é gritante: causa-se o terror como ação pretensiosamente combativa ao terrorismo.
Não obstante, o presidente estadunidense levantou a hipótese de que, se não houver acordo, aniquilaria a República Islâmica: “será que os coloco no inferno, sem chance, sem esperança de um futuro de grandeza para as futuras gerações?” Enfim, uma clara ameaça à soberania de um país, aspecto típico do discurso imperialista. Nesse sentido, cita o caso da Venezuela, a deposição e a prisão de Nicolas Maduro que culminou com os Estados Unidos controlando a produção de petróleo do país: “ao vitorioso, os espólios da guerra”. Donald Trump conseguiu lançar as forças militares contra a Venezuela, sem embargo, porque, conforme ele mesmo explica, designou os cartéis como organizações terroristas. Relaciona, como provocação, os cartéis ao estado islâmico: “os cartéis são o estado islâmico do hemisfério ocidental, não são boas pessoas, como o Estado Islâmico, eles devem ser assassinados, eliminados”. Mudando o foco, mas não a empáfia, a arrogância, voltou a ameaçar Cuba e o regime político da ilha. E, mantendo a semelhança com Rhodes, cita o domínio militar na Groenlândia, o domínio do Ártico.
Ato contínuo, insurgiu-se contra a própria ONU, alegando que ela deveria parar de impor sua agenda. E, seguindo a linha de pensamento, cita o imposto global de carbono que seu governo teve de pagar. Afirma que “enquanto estiver presidente, não haverá impostos globais”, numa evidente e explicita manifestação de desrespeito e total descompromisso com as causas ambientais. Aliás, nega veementemente o aquecimento global. A crítica à ONU também se estende ao fato de ela, conforme o ponto de vista estrábico de Trump, não proteger as crianças das pessoas transgêneras e não agir contra a imigração. Transgêneros e imigrantes são, na sua perspectiva, semelhantes a criminosos atrozes. Nesse sentido, alega que “as fronteiras dos Estados Unidos foram abertas para crimonosos, pessoas dos piores lugares do mundo”. No seu ponto de vista, a emigração destrói culturas, a herança e a história.
Por fim, ratifica que os Estados Unidos se impõe e se colocam contra o Tribunal Penal Internacional que considera uma instituição sem controle. Tribunal que ele considera “antiamericano” e sem jurisdição sobre os Estados Unidos. Solicita, imperativamente, que as nações e os membros do Tribunal renunciem às suas posições.
De fato, o discurso imperialista de Donald Trump na ONU ofende o Estatuto de Roma do Tribunal Penal Internacional. O seu preâmbulo rege “que todos os Estados se devem abster de recorrer à ameaça ou ao uso da força, contra a integridade territorial ou a independência política de qualquer Estado, ou de atuar por qualquer outra forma incompatível com os Objetivos das Nações Unidas”. Em seu artigo 7º, o Estatuto considera crime contra a Humanidade, entre outros aspectos, “deportação ou transferência forçada de uma população” e “perseguição de um grupo ou coletividade que possa ser identificado, por motivos políticos, raciais, nacionais, étnicos, culturais, religiosos ou de gênero”. Esses são alguns exemplos.
Por Jeovani Lemes de Oliveira








