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O caráter que você cobra é o mesmo que você escolhe?

Seu candidato combina com seus princípios ou com sua torcida?

“Está em dúvida em quem votar? Vote naquele candidato cujo caráter seja mais parecido com o seu.”

A frase da imagem parece apenas uma provocação, mas talvez seja um dos testes mais incômodos que se pode apresentar ao eleitor. Afinal, se a escolha política também revela valores pessoais, muita gente pode não gostar do reflexo que aparece quando olha para a própria urna.

Todo mundo quer político honesto. Pelo menos no discurso. Quer ética, transparência, responsabilidade e respeito ao dinheiro público. O problema começa quando essas virtudes precisam valer também para o candidato de estimação.

Porque existe uma parcela do eleitorado que pratica uma curiosa versão política do “faça o que eu falo, mas não faça o que eu faço”. Condena corrupção, mas vota em quem carrega histórico que, se pertencesse ao adversário, seria motivo para discursos inflamados nas redes sociais. Exige ficha limpa do outro lado enquanto procura uma lavanderia inteira de argumentos para limpar a ficha do próprio escolhido.

Se o político adversário é acusado, “é corrupto”. Se é o meu, “estão perseguindo”. Se o outro mente, “não tem caráter”. Se o meu mente, “todo político exagera”. Se aparece escândalo do adversário, vale compartilhar antes mesmo de conferir. Quando envolve o candidato preferido, surgem especialistas instantâneos em processo judicial, conspiração, contexto e interpretação.

É a torcida organizada eleitoral: primeiro escolhe-se o time, depois adaptam-se os princípios.

E talvez seja justamente aí que a frase da imagem acerte em cheio. Não basta perguntar quais são as propostas de um candidato. Também seria interessante perguntar: que tipo de comportamento eu estou disposto a aceitar apenas porque quero que ele vença?

A resposta pode dizer muito mais sobre o eleitor do que sobre o candidato.

Há ainda a famosa memória eleitoral brasileira. Passada a eleição, muita gente lembra perfeitamente do presidente em quem votou, mas não consegue citar o deputado federal, o estadual e, algumas vezes, nem o senador que escolheu. Quatro anos depois reclama do Congresso, da Assembleia e “dos políticos”, como se todos tivessem sido nomeados por alguma força misteriosa e não colocados ali pelo voto.

Depois vêm as frases de sempre: “político nenhum presta”, “ninguém me representa”, “esse país não tem jeito”.

Talvez tenha. Mas dificilmente terá enquanto caráter for uma exigência feita apenas ao adversário.

Porque honestidade não pode depender da cor da bandeira, do partido ou do político que aparece na fotografia. Corrupção não se transforma em virtude porque foi praticada pelo “nosso lado”, assim como desonestidade não fica menor porque ajuda o candidato que defendemos.

Na próxima vez em que alguém estiver em dúvida sobre em quem votar, talvez valha seguir o conselho da imagem — mas levando-o realmente a sério.

Escolha alguém cujo caráter seja parecido com o seu.

Só não reclame depois caso a comparação tenha sido precisa demais.

 

Nelson Alves – cidadão brasileiro e cachacista por devoção

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