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NARRATIVA PRONTA, PENSAMENTO TERCEIRIZADO

Na política brasileira, a verdade importa menos que a capacidade de proteger o político de estimação e atacar o adversário.

Há uma regra não escrita na política brasileira: quando o nosso político acerta, é competência. Quando erra, é culpa do Congresso, do Supremo, da imprensa, do mercado, da pandemia, da guerra, da chuva, da seca ou de Mercúrio retrógrado.

Com o político adversário funciona exatamente ao contrário. Se alguma coisa melhora, foi sorte, herança do governo anterior ou consequência de fatores internacionais. Mas, se o preço do tomate aumenta vinte centavos, fica comprovado que o presidente acordou cedo, foi pessoalmente ao supermercado e remarcou a etiqueta.

A narrativa já vem pronta. O eleitor só precisa escolher o pacote que deseja consumir.

Se for bolsonarista, receberá diariamente vídeos mostrando que Jair Bolsonaro realizou o melhor governo da história, enfrentou sozinho o sistema, salvou a economia, protegeu as famílias e somente não fez mais porque o Congresso, o Supremo, a imprensa, os governadores, os comunistas e provavelmente o vizinho da esquina não deixaram.

Se for lulista, receberá outro pacote. Nele, Lula reconstruiu o Brasil, salvou a democracia, devolveu comida ao prato do povo, recuperou a imagem do país e somente não resolveu todos os problemas porque Bolsonaro deixou uma herança maldita, o mercado é insensível, o Banco Central pratica sabotagem e a extrema direita não permite que o país seja feliz.

É um serviço completo. A narrativa já chega mastigada, temperada e pronta para ser compartilhada no grupo da família.

Pensar tornou-se opcional.

A BATALHA DOS SALVADORES DA PÁTRIA

Para seus seguidores, Bolsonaro nunca errou. No máximo, foi mal interpretado, tirado de contexto ou vítima de uma perseguição jamais vista desde que inventaram o WhatsApp.

Lula também jamais erra. Quando alguma declaração provoca constrangimento, trata-se de uma genialidade diplomática que as pessoas comuns ainda não alcançaram. Se uma medida dá errado, é porque o governo anterior deixou uma bomba-relógio escondida debaixo do tapete.

Cada lado possui seu santo, seus apóstolos, seus pecadores e, naturalmente, seu demônio.

Para uma parcela da direita, Lula é responsável por tudo: pelo preço dos alimentos, pelos impostos, pela criminalidade, pelas decisões do Supremo, pelo mau tempo e talvez até pela derrota do time no domingo.

Para uma parcela da esquerda, Bolsonaro responde por todos os males conhecidos pela humanidade: pandemia, inflação, desmatamento, violência, intolerância e qualquer discussão ocorrida no almoço de família desde 2018.

Não existem mais governantes que acertam e erram. Existem heróis infalíveis e vilões absolutos.

E quanto mais simples for a explicação, melhor será o desempenho do vídeo nas redes sociais.

O ESPECIALISTA FORMADO PELA UNIVERSIDADE DO MEME

Nunca tivemos tantos especialistas no Brasil.

O cidadão assiste a um vídeo de 27 segundos, recebe um meme com letras garrafais e, imediatamente, conquista formação em economia, Direito Constitucional, relações internacionais, saúde pública e investigação criminal.

Não leu a lei, mas sabe que ela é inconstitucional.

Não consultou os dados, mas garante que a economia está destruída — ou maravilhosa, dependendo do presidente.

Não conhece o processo, mas já condenou ou absolveu o investigado.

Não sabe quem decidiu, mas tem certeza de que foi “o Lula”. Ou “o Bolsonaro”. Basta escolher o culpado de estimação.

O novo especialista político não precisa conhecer o contexto. Basta encaminhar o vídeo acompanhado de expressões consagradas pela academia digital:

“Isso a imprensa não mostra.”

“Compartilhe antes que apaguem.”

“Agora tudo faz sentido.”

“Recebi de uma fonte segura.”

A fonte segura, quase sempre, é um perfil chamado “Patriota Indignado 38” ou “Companheiro Revolucionário Oficial”, administrado por alguém que ganha dinheiro justamente com a indignação de seus seguidores.

A INDÚSTRIA DA INDIGNAÇÃO

Engana-se quem acredita que essa guerra acontece por acaso.

A polarização movimenta votos, audiência, dinheiro, influência e poder. Há políticos, influenciadores, páginas e canais que dependem da revolta permanente. Se o eleitor parar, respirar e analisar os fatos, muita gente perde o emprego.

Por isso, todos os dias é necessário fabricar uma nova tragédia nacional.

Uma frase mal colocada vira golpe de Estado.

Uma decisão administrativa vira a implantação do comunismo.

Uma investigação vira prova definitiva de culpa quando alcança o adversário, mas transforma-se em perseguição quando bate à porta de um aliado.

O objetivo não é informar. É manter a torcida mobilizada, assustada e obediente.

O eleitor com medo não questiona. Apenas procura alguém que prometa protegê-lo do monstro apresentado na tela do celular.

E amanhã haverá outro monstro, porque o espetáculo não pode parar.

QUANDO A CORRUPÇÃO MUDA DE NOME

A corrupção também passa por um curioso processo de transformação conforme o endereço político.

Quando envolve o adversário, é organização criminosa, quadrilha, assalto aos cofres públicos e prova de que todo o grupo político deve desaparecer.

Quando alcança alguém do nosso lado, passa a ser “suposta irregularidade”, “erro administrativo”, “caso isolado”, “perseguição judicial” ou “armação da imprensa”.

Se o acusado veste a camisa do adversário, não é necessário esperar investigação, denúncia, defesa ou julgamento. A sentença já está pronta.

Se pertence ao nosso grupo, nem uma condenação é suficiente. Sempre haverá um juiz suspeito, uma testemunha mentirosa, uma imprensa vendida ou uma conspiração internacional.

Assim nasceu um dos grandes princípios da política nacional:

“O meu corrupto é melhor que o seu.”

O meu pode ter defeitos, mas defende a família.

O meu pode ser investigado, mas ajuda os pobres.

O meu pode mentir, mas enfrenta o sistema.

O meu pode fazer alianças vergonhosas, mas isso é governabilidade.

O político adversário negocia cargos. O nosso constrói uma base de apoio.

O adversário distribui dinheiro para comprar votos. O nosso promove justiça social.

O adversário ataca as instituições. O nosso exerce liberdade de expressão.

O adversário aparelha o Estado. O nosso escolhe pessoas de confiança.

A honestidade, como se vê, tornou-se uma questão de ponto de vista.

NÃO É APENAS FALTA DE ESCOLARIDADE

Seria confortável imaginar que somente pessoas com pouca instrução são enganadas. Não é verdade.

Diplomas não imunizam ninguém contra fanatismo, vaidade, medo ou paixão política. Há pessoas altamente escolarizadas compartilhando falsidades porque a mentira confirma aquilo em que desejam acreditar.

A manipulação não escolhe apenas os menos instruídos. Ela procura os menos dispostos a questionar suas próprias certezas.

O problema não é desconhecer determinado assunto. Ninguém domina tudo. O problema é transformar desconhecimento em convicção e convicção em propaganda.

É quando o cidadão deixa de perguntar “isso é verdade?” e passa a perguntar apenas “isso ajuda o meu lado?”.

O ELEITOR VIROU CABO ELEITORAL GRATUITO

Antigamente, partidos precisavam imprimir panfletos, contratar carros de som e mobilizar militantes. Agora o próprio eleitor realiza gratuitamente o trabalho de propaganda.

Ele recebe, não verifica e compartilha.

Encaminha o vídeo editado.

Reproduz a acusação sem fonte.

Ataca quem pede provas.

E ainda acredita que está pensando por conta própria.

O político agradece.

Enquanto os eleitores brigam no grupo da família, parlamentares de direita e esquerda negociam emendas, cargos, verbas e alianças com uma harmonia que faria inveja a qualquer coral.

No palanque, são inimigos mortais. Nos corredores do poder, descobrem rapidamente as vantagens do diálogo republicano — especialmente quando o assunto envolve orçamento.

A guerra ideológica costuma ser mais intensa entre os eleitores do que entre aqueles que vivem profissionalmente da política.

DESCER DA MANADA DÁ TRABALHO

Ter senso crítico não significa ficar em cima do muro, rejeitar todos os políticos ou fingir que direita e esquerda são idênticas. Existem diferenças reais de ideias, prioridades e projetos de país.

O que não deveria existir é a terceirização do pensamento.

É perfeitamente possível apoiar Bolsonaro e reconhecer seus erros.

É possível votar em Lula e cobrar seu governo.

É possível defender políticas de direita sem transformar Bolsonaro em santo.

É possível apoiar políticas sociais sem tratar Lula como uma figura acima de qualquer crítica.

Democracia não exige devoção. Exige fiscalização.

Político não precisa de fã-clube. Precisa de eleitor atento, imprensa livre, instituições funcionando e cobrança permanente.

Na próxima vez que chegar um vídeo escandaloso, talvez seja melhor esperar alguns minutos antes de apertar “compartilhar”. Procurar a fonte, verificar a data, assistir à fala completa e descobrir quem realmente tomou a decisão.

Pode ser menos emocionante do que participar da manada, mas possui uma vantagem considerável: diminui a possibilidade de servir como instrumento de alguém que lucra com nossa indignação.

Porque, no fim, direita e esquerda continuarão disputando o poder. Políticos continuarão criando versões convenientes sobre seus acertos e fracassos. Influenciadores continuarão faturando com medo, raiva e idolatria.

Resta ao eleitor decidir se deseja ser cidadão ou apenas torcida organizada.

Afinal, enquanto repetirmos que “o meu corrupto é melhor que o seu”, os corruptos — de todos os lados — continuarão convencidos de que o eleitor merece exatamente o governo que recebe.

Por Nelson Alves – Nova Olímpia-MT (18/09/2026)

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