O brasileiro talvez seja um dos poucos povos capazes de transformar até corrupção em questão de gosto pessoal.
Há quem goste de cachorro, gato, passarinho. E há quem prefira político.
Não qualquer político.
Tem que ser aquele político especial, escolhido a dedo, defendido com paixão e protegido contra qualquer fato desagradável que ouse atrapalhar a narrativa.
É o famoso “bandido” de estimação.
As aspas são necessárias porque acusação não é condenação, investigação não é sentença e todo cidadão tem direito à defesa.
Ou deveria ter.
Porque, na política brasileira, esse princípio depende muito de quem está sendo acusado.
Se for o adversário, investigação já é prova.
— Eu sabia! Ladrão!
Se for o nosso:
— Calma, não podemos fazer julgamento precipitado.
Veja que bonito.
O sujeito descobre o Estado Democrático de Direito justamente quando a polícia bate na porta do político dele.
Até ontem, bastava uma manchete para condenar o adversário à prisão perpétua.
Hoje exige provas, perícias, recursos, jurisprudência, testemunhas e talvez até exame de DNA da denúncia.
Tudo porque mexeram com o mascote.
A política brasileira produziu um eleitor curioso: ele não possui princípios; possui preferências.
Corrupção é crime, desde que seja praticada pelo outro.
Mentira é inadmissível, desde que seja contada pelo adversário.
Abuso de poder é revoltante, desde que aconteça do lado de lá.
Quando ocorre do lado de cá, surge imediatamente uma palavra mágica:
contexto.
— Você precisa entender o contexto.
Naturalmente.
O contexto brasileiro é uma espécie de detergente moral.
Remove qualquer sujeira partidária.
Se o adversário muda de opinião, é hipócrita.
Se o aliado muda, amadureceu.
Se o adversário faz aliança com alguém que criticava, vendeu-se.
Se o nosso faz a mesma coisa, é governabilidade.
Se o outro é absolvido, a Justiça falhou.
Se o nosso é absolvido, a Justiça prevaleceu.
Se o outro é condenado, finalmente houve justiça.
Se o nosso é condenado…
Aí começa o congresso internacional de especialistas em perseguição política.
É extraordinário.
O brasileiro médio talvez nunca tenha lido uma sentença judicial completa na vida.
Mas experimente condenar o político preferido dele.
Em quinze minutos aparecerão juristas suficientes para formar três turmas de Supremo Tribunal Federal.
E existe ainda a principal ferramenta de defesa do político de estimação:
“E o outro?”
Não existe argumento mais versátil.
— Seu candidato está sendo investigado.
— E o outro?
— Mas há uma denúncia grave.
— E o outro?
— Houve condenação.
— E o outro?
É como se alguém fosse flagrado roubando um supermercado e respondesse ao policial:
— Tudo bem, mas tem gente roubando banco.
Excelente.
Liberem o cidadão imediatamente.
Afinal, alguém cometeu um crime maior.
Essa lógica criou uma modalidade genuinamente brasileira de militância: a competição de bandidagem alheia.
Não interessa mais saber se o político é honesto.
Interessa descobrir se existe alguém pior no outro lado.
A pergunta deixou de ser:
— Meu candidato merece meu voto?
Agora é:
— O deles não é pior?
E assim a política foi deixando de ser cidadania para virar futebol.
Tem camisa.
Tem torcida organizada.
Tem ídolo.
Tem rival.
Tem fanático.
E tem o torcedor que, mesmo vendo seu atacante fazer três gols contra, insiste:
— Foi estratégia.
O político percebeu isso faz tempo.
Ele sabe que não precisa convencer todo mundo de que é bom.
Precisa apenas manter sua torcida convencida de que o outro é pior.
É muito mais fácil.
Enquanto o eleitor estiver ocupado odiando o adversário, terá pouco tempo para fiscalizar o próprio candidato.
E quando aparecer alguma denúncia, lá estará ele, pano na mão.
Porque passar pano para político também virou atividade cívica.
Tem gente que passa tanto pano que deveria receber adicional de insalubridade.
A verdade é simples e desconfortável:
muita gente não é contra a corrupção. É contra a corrupção do adversário.
A sua tem explicação.
A sua tem contexto.
A sua tem recurso.
A sua é perseguição.
A sua foi exagerada pela imprensa.
A sua precisa ser analisada com cautela.
Já a do outro?
Cadeia.
Sem dó.
Sem recurso.
Sem segunda instância.
Se possível, sem primeira.
E antes que alguém vista a carapuça partidária, convém esclarecer: esse comportamento não possui exclusividade ideológica.
Há “bandido” de estimação à direita.
Há “bandido” de estimação à esquerda.
Há no centro.
Há nos extremos.
Há até político que muda de lado e consegue levar o eleitor junto, como quem muda os móveis de cômodo.
O problema não é a ideologia.
É a cegueira.
É exigir caráter dos outros e oferecer indulgência aos nossos.
É pedir rigor quando interessa e relativizar quando dói.
Talvez o país comece a mudar no dia em que adotarmos uma regra absolutamente revolucionária:
aquilo que considero errado no adversário também precisa ser errado quando é praticado pelo meu candidato.
Parece simples.
Mas aparentemente é exigir demais.
Porque isso obriga o eleitor a enfrentar uma possibilidade terrível:
admitir que votou errado.
E há gente que prefere defender o indefensável durante vinte anos a pronunciar uma frase de três palavras:
“Eu me enganei.”
Por isso o político de estimação é tão conveniente.
Ele protege nosso orgulho.
Preserva nossa torcida.
Evita perguntas incômodas.
E permite continuar acreditando que toda a sujeira da política brasileira está sempre na casa do vizinho.
Enquanto isso, o espetáculo continua.
De um lado:
— O seu é corrupto!
Do outro:
— Mas o seu roubou mais!
E ninguém percebe o ridículo da discussão.
É como dois moradores dentro de um chiqueiro debatendo qual porco está mais limpo.
No fim, talvez esse seja o grande problema da política brasileira.
Não faltam apenas bons políticos.
Faltam eleitores dispostos a cobrar dos seus aquilo que exigem dos outros.
Porque político não deveria ser religião.
Não deveria ser time de futebol.
Não deveria ser objeto de devoção.
E, principalmente, não deveria ser animal de estimação.
Mas enquanto a coerência continuar sendo artigo raro, cada torcida seguirá acariciando sua mascote, ajeitando-lhe a coleira e dizendo, cheia de orgulho:
— Pode até ser “bandido”. Mas o meu é melhor que o seu.
Por Nelson Alves – cidadão brasileiro e apenas um cachacista por amor







