Pronto. Soou o apito invisível da política e, como num passe de mágica, começou oficialmente a temporada de caça aos votos.
É uma época bonita. Emocionante até.
De repente, aparecem velhos amigos que você nunca soube que tinha. O sujeito que passou anos sem lembrar que determinada rua existia agora conhece cada buraco, cada esquina e, se bobear, até o nome do cachorro que dorme na calçada.
Começa também o Campeonato Municipal do Abraço Apertado.
Tem abraço em feira, abraço em mercado, abraço em aniversário, abraço em velório, abraço em inauguração, abraço no eleitor desconfiado e, se deixar, abraço até no poste.
Tudo acompanhado daquele sorriso de comercial de pasta de dente e da tradicional frase:
“Meu amigo, estamos juntos!”
Juntos onde, exatamente, ninguém sabe.
É também o período em que algumas pessoas descobrem uma impressionante vocação para a simplicidade.
O cidadão que normalmente passa longe do povão começa a tomar cafezinho em copo americano, comer pastel de feira, visitar bairros, apertar mãos e demonstrar uma intimidade com o eleitor que faria qualquer parente distante morrer de inveja.
E as crianças?
Ah, as crianças passam a ser irresistíveis.
Candidato em época eleitoral parece até personagem de campanha de vacinação: pega criança no colo, sorri para a câmera e, dependendo do fotógrafo, fica alguns segundos a mais esperando o clique perfeito.
Começa ainda a tradicional peregrinação.
Casa por casa.
Rua por rua.
Comércio por comércio.
É candidato surgindo no portão com uma disposição que você gostaria de encontrar durante os quatro anos seguintes.
Promessas também florescem nesta época.
Tem promessa para tudo.
Vai ter estrada, emprego, saúde, esporte, iluminação, desenvolvimento, oportunidade, progresso e, provavelmente, se alguém pedir com jeitinho, até praia em Nova Olímpia.
O eleitor mais experiente escuta tudo com educação.
Já viu esse filme.
E conhece até o final.
Outra modalidade bastante praticada é a memória seletiva eleitoral.
Durante a campanha, alguns candidatos lembram perfeitamente das necessidades da população.
Lembram da estrada ruim.
Lembram do bairro esquecido.
Lembram do esporte.
Lembram do agricultor.
Lembram do comerciante.
Lembram do jovem.
Lembram do idoso.
Lembram de todo mundo.
O grande desafio é verificar se continuarão lembrando depois que as urnas forem fechadas.
Porque campanha eleitoral tem esse efeito curioso: transforma muita gente.
Tem gente que fica humilde.
Tem gente que fica simpática.
Tem gente que fica popular.
Tem gente que fica até carinhosa.
O problema é descobrir quais dessas qualidades sobrevivem ao resultado da eleição.
E no meio desse festival de abraços, tapinhas nas costas, promessas, vídeos, santinhos e declarações de amor eterno pela população, começa também a disputa pelos incautos — aquele eleitor que ainda acredita que toda visita é amizade, toda promessa é compromisso e todo sorriso é espontâneo.
Não sejamos injustos: existem bons candidatos, boas propostas e pessoas realmente interessadas em contribuir com a cidade.
Mas eleição exige do eleitor uma habilidade cada vez mais importante: separar intenção de encenação.
Porque apertar a mão é fácil.
Difícil é honrar a palavra.
Sorrir para fotografia é fácil.
Difícil é aparecer quando não tem câmera.
Prometer mudança é fácil.
Difícil é explicar depois por que ela não aconteceu.
Portanto, caro eleitor, aproveite a temporada.
Receba os abraços.
Aceite o cafezinho.
Escute as propostas.
Veja os vídeos.
Leia os santinhos.
Mas mantenha uma coisa funcionando perfeitamente:
a memória.
Ela costuma ser o melhor antídoto contra o encanto repentino da campanha eleitoral.
Porque começou a campanha.
Começou a caça aos votos.
E nesta época aparece caçador de todo tipo.
A diferença é que, no fim das contas, quem segura a arma mais poderosa dessa história é você.
Ela se chama voto.
Use com cuidado.
Depois não adianta reclamar que o abraço acabou junto com a apuração.
Por Nélson Alves – Cidadão Brasileiro, Jornalista e Cachacista por Amor







