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O eleitor escolhe um inimigo. Outros escolhem o que levar

Em toda eleição aparece a mesma profecia de botequim: se um lado vencer, o Brasil será entregue à China. Se o outro ganhar, será entregue aos Estados Unidos.

Pronto. Está resolvida a geopolítica mundial em três mensagens de WhatsApp, dois vídeos de rede social e um tio indignado no grupo da família.

O detalhe inconveniente é que o Brasil vem sendo “entregue” há muito mais tempo do que esses profetas eleitorais imaginam.

Desde a colonização, nossas riquezas despertam interesses estrangeiros. Primeiro levaram pau-brasil, ouro e outras riquezas. Depois vieram novos ciclos, novas potências, novos contratos e novos discursos. Mudam os donos do dinheiro, mudam os idiomas das reuniões, mas a velha vocação nacional de negociar mal os próprios interesses parece bastante resistente.

Agora inventaram uma espécie de delivery ideológico.

Se determinado político conversa com Pequim, “vendeu o Brasil aos comunistas”. Se o adversário aperta a mão de Washington, “entregou o país aos americanos”.

Curiosamente, quando é o político de estimação fazendo exatamente a mesma coisa, o nome muda.

Não é submissão. É “parceria estratégica”.

Não é dependência. É “abertura de mercados”.

Não é alinhamento ideológico. É “diplomacia responsável”.

A língua portuguesa realmente faz milagres em ano eleitoral.

China, Estados Unidos, Europa e qualquer outra potência defendem seus próprios interesses. E fazem muito bem. Estranho seria imaginar que Xi Jinping acorda preocupado com o preço do arroz em Nova Olímpia ou que o presidente americano passa a madrugada refletindo sobre o futuro do trabalhador brasileiro.

País sério negocia com todos e se ajoelha para nenhum.

Mas aqui preferimos transformar relações internacionais em Fla-Flu eleitoral.

O debate deveria ser sobre quem consegue negociar melhor para o Brasil, quem protege nossas riquezas, quem fortalece a economia, quem investe em educação, infraestrutura, ciência, saúde e segurança, quem reduz privilégios e quem administra o dinheiro público com responsabilidade.

Só que isso exige raciocínio.

É muito mais confortável escolher um político, colocá-lo num pedestal e passar os quatro anos seguintes procurando desculpas.

E chegamos ao esporte nacional mais praticado depois do futebol: “meu corrupto é melhor que o seu”.

Se a denúncia envolve o adversário, é prova definitiva da podridão moral da República. Se envolve o aliado, calma lá: é preciso analisar o contexto.

Se o outro é investigado, “bandido”.

Se é o nosso, “perseguido”.

Se o adversário se aproxima de uma potência estrangeira, vendeu a pátria. Se o aliado faz o mesmo, abriu portas para o desenvolvimento.

É uma coerência invejável.

O Brasil não precisa escolher entre ser quintal de Washington ou extensão comercial de Pequim. Precisa escolher governantes capazes de entender que relações internacionais devem servir ao interesse nacional — e não às paixões ideológicas de militantes.

Talvez esteja na hora de o eleitor parar de perguntar “para quem vão entregar o Brasil?” e começar a perguntar algo muito mais incômodo:

quem está cuidando para que o Brasil deixe de ser entregue?

Porque, enquanto parte da população briga para decidir se a bandeja será levada para a China ou para os Estados Unidos, há décadas muita gente por aqui já está escolhendo o cardápio, repartindo a sobremesa e deixando a conta para o povo pagar.

Por Nelson Alves – cidadão brasileiro e cachacista por devoção

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