Neste 7 de Setembro de 2026, o Brasil celebra 204 anos de sua Independência. A data costuma nos levar de volta a 1822, ao grito do Ipiranga e à ruptura com Portugal. Mas talvez a pergunta mais importante seja outra: o que significa ser um país independente nos dias de hoje?
A Independência não transformou o Brasil, de um dia para o outro, em uma nação pronta. Foi o início de uma longa construção, marcada por conflitos, escolhas, avanços e contradições. Por isso, lembrar 1822 não deve ser apenas olhar para o passado, mas também pensar sobre a responsabilidade que temos com o Brasil que estamos construindo.
O QUE SIGNIFICA SER INDEPENDENTE?
Durante o período colonial, o Brasil estava submetido a Portugal e suas decisões fundamentais estavam condicionadas aos interesses da metrópole. A Independência significou romper essa relação e afirmar o direito de construir um Estado próprio e decidir os próprios caminhos. Mais de dois séculos depois, porém, a ideia de independência continua atual e precisa ser compreendida à luz dos desafios do nosso tempo.
Uma nação independente é aquela que consegue definir seus interesses, fazer suas escolhas e conduzir seu futuro. Isso não significa viver isolada ou rejeitar a cooperação internacional. Um país soberano pode negociar, fazer acordos, receber investimentos, compartilhar conhecimento e trabalhar em conjunto com outras nações. O que não pode é confundir cooperação com submissão. Ser independente é poder dialogar com o mundo sem entregar a terceiros o direito de decidir o nosso destino.
O DESAFIO MUDOU. A RESPONSABILIDADE CONTINUA
Em 1822, o desafio era romper uma relação colonial. Em 2026, os desafios são diferentes. A economia é global, a tecnologia atravessa fronteiras e a informação circula em segundos. A inteligência artificial já consegue produzir imagens, vozes e vídeos extremamente realistas, enquanto as redes sociais aproximam pessoas, mas também podem ampliar conflitos e espalhar informações falsas com enorme velocidade.
Essa não é uma ameaça meramente hipotética. Nas eleições de 2026, o Tribunal Superior Eleitoral estabeleceu regras específicas para enfrentar a desinformação e disciplinar o uso de conteúdos produzidos ou modificados por inteligência artificial. A Corte também definiu critérios relacionados aos chamados deepfakes no contexto eleitoral. A preocupação demonstra uma mudança profunda do nosso tempo: a disputa pela informação também passou a fazer parte da disputa pela formação da vontade popular.
Por isso, em uma democracia, a liberdade de escolha depende também da capacidade de cada cidadão avaliar aquilo que recebe. Antes de compartilhar uma informação, é preciso verificar sua origem. Antes de acreditar, questionar. E antes de transformar uma divergência em conflito, compreender. Em uma sociedade cada vez mais conectada, responsabilidade individual também se tornou uma forma de proteção coletiva.
DIVIDIDOS, FICAMOS MAIS FRÁGEIS
Discordar não é um problema. Ao contrário, uma sociedade democrática é formada por pessoas que pensam de maneiras diferentes, defendem propostas diferentes e enxergam o futuro por perspectivas diferentes. O problema começa quando a divergência deixa de ser política e se transforma em hostilidade, fazendo com que o brasileiro passe a enxergar outro brasileiro como inimigo apenas porque pensa diferente.
É possível discutir economia, segurança, saúde, educação, costumes e políticas públicas sem transformar o adversário em inimigo. Também é possível defender uma ideia com firmeza sem desrespeitar quem pensa de outra maneira, assim como é possível mudar de opinião sem sentir vergonha. A democracia não exige que todos concordem, mas exige que as diferenças possam ser enfrentadas pelo diálogo e dentro das regras que todos reconhecem.
A tecnologia não criou nossas diferenças, mas pode ampliar tanto o diálogo quanto o conflito. Por isso, o desafio não está apenas nas ferramentas que utilizamos, mas também na maneira como decidimos utilizá-las. Quando compartilhamos uma informação falsa, alimentamos uma ofensa ou transformamos uma divergência em guerra permanente, contribuímos para uma sociedade mais dividida e, consequentemente, mais vulnerável.
A BANDEIRA É DE TODOS
A bandeira brasileira não pertence a um partido. O Hino Nacional não pertence a uma ideologia. O verde e o amarelo não pertencem a um candidato. Os símbolos nacionais pertencem a todos os brasileiros, assim como o direito de cada cidadão se reconhecer como parte de uma mesma Pátria, independentemente de suas posições políticas.
Patriotismo não significa concordar com tudo o que acontece no Brasil. É possível amar a Pátria e criticar governos, defender mudanças e respeitar as instituições, discordar de políticas públicas e continuar desejando um país melhor. Patriotismo não exige unanimidade. Exige compreender que o Brasil é maior do que nossas diferenças.
DEMOCRACIA TAMBÉM É INDEPENDÊNCIA
Se a Independência representou o direito de o Brasil decidir seu próprio destino diante de outra nação, a democracia representa o direito de os brasileiros participarem das decisões que definem os rumos do próprio país. A Constituição de 1988 colocou a soberania, a cidadania e o pluralismo político entre os fundamentos da República e estabeleceu que todo o poder emana do povo.
Por isso, a liberdade política não pode ser tratada como autorização para manipular, intimidar ou desinformar. O voto é um direito político individual, mas suas consequências alcançam toda a sociedade. Cada cidadão pode escolher livremente suas posições, mas essa liberdade ganha ainda mais valor quando acompanhada de informação, responsabilidade e respeito pela escolha dos demais.
Democracia não significa gostar sempre do resultado. Significa aceitar que diferenças sejam resolvidas dentro das regras democráticas, pelas instituições e pelo exercício legítimo da cidadania. Uma sociedade democrática precisa preservar não apenas o direito de escolher, mas também o direito de pensar, questionar, discordar e conviver com quem fez escolhas diferentes.
NÃO PRECISAMOS CONCORDAR EM TUDO
O Brasil não precisa de unanimidade. Precisa de capacidade de convivência. Precisamos recuperar a disposição de ouvir antes de rotular, argumentar antes de atacar e discordar sem transformar o outro em inimigo. Uma democracia forte não é aquela em que todos pensam igual, mas aquela em que pessoas diferentes conseguem viver juntas, defender suas ideias e resolver suas divergências sem destruir os vínculos que sustentam a sociedade.
Essa talvez seja uma das grandes tarefas da Independência no século XXI. Não basta ser livre para escolher; é preciso ser livre para pensar. Não basta ter informação; é preciso saber distinguir informação de manipulação. Não basta ter soberania formal; é preciso ter capacidade de decidir o próprio futuro. Essas responsabilidades não pertencem à esquerda, ao centro ou à direita, nem a governo ou oposição. Pertencem ao Brasil.
UMA INDEPENDÊNCIA QUE PRECISA CONTINUAR
Em 1822, o Brasil afirmou que deveria caminhar com suas próprias pernas. Em 2026, a pergunta é se somos capazes de continuar fazendo isso diante de um mundo cada vez mais interdependente e tecnológico. Somos capazes de cooperar com outras nações sem abrir mão dos nossos interesses? Somos capazes de usar a tecnologia para aproximar pessoas, em vez de aprofundar conflitos? Somos capazes de preservar a liberdade de pensamento em um ambiente dominado pela velocidade da informação?
Essas perguntas não pertencem a um partido, a uma liderança ou a uma ideologia. Pertencem ao Brasil. A Independência de 1822 inaugurou uma conquista histórica, enquanto a soberania de hoje nos impõe uma responsabilidade permanente. Não precisamos pensar igual, votar igual ou concordar em tudo, mas precisamos reconhecer que, antes de qualquer diferença política, somos parte de uma mesma nação.
O Brasil não pertence a quem governa. Não pertence a quem faz oposição. Não pertence a partidos, grupos ou ideologias. O Brasil pertence ao seu povo. E uma Pátria verdadeiramente independente precisa de cidadãos livres para pensar, responsáveis para decidir, corajosos para discordar e maduros para conviver.
Neste 7 de Setembro, portanto, que a celebração dos 204 anos de Independência seja mais do que uma lembrança histórica. Que seja um compromisso com a liberdade, com a democracia, com a soberania, com o respeito às diferenças e, sobretudo, com a responsabilidade de não permitir que nossas divergências destruam aquilo que temos em comum.
Porque patriotismo não é gritar mais alto. Patriotismo é compreender que o Brasil é maior do que nossas diferenças.
Viva o Brasil.
Viva a liberdade.
Viva a democracia.
Viva a Independência.
Brasil, sempre soberano.

Angelo Silva de Oliveira é cidadão brasileiro, mestre em Administração Pública, controlador/auditor interno e oficial R/2 da reserva não remunerada da FAB.








