segunda-feira, 20 maio 2024
- Publicidade -
Dengue
17.3 C
Nova Olímpia
- Publicidade -
abaixo de ultimas notícias

Crime que chocou Cuiabá e ficou sem solução completa 30 anos

Um dos casos criminais mais emblemáticos das últimas décadas em Cuiabá, e que chocou a população pela brutalidade, completa 30 anos este mês, sem solução. O estupro e assassinato da universitária Cristiane Augusta de Moraes Correa, de 21 anos, seguem intrigando quem acompanhou o caso. Ela desapareceu em plena luz do dia, em 9 de dezembro de 1992, e foi encontrada morta em um terreno baldio no dia seguinte.

A advogada Betsey de Miranda, que à época era a presidente da Comissão de Direitos Humanos da OAB, acompanhou o caso de perto e, até hoje, se recorda com pesar da falta de um desfecho. “Em uma madrugada dessas lembrei dessa menina. Foi um caso muito, muito grave, de tocar o terror nas pessoas. Eu acompanhei até o final e acabou tudo em nada. A gente espera até hoje que ele seja resolvido”.

“Acredito que o caso deveria ser reaberto e acompanhado pela presidente da OAB. A coisa que mais me faria feliz seria ver justiça para essa moça e a família dela. Que não fique como mais um crime insolúvel”, completou a advogada.

Com 39 anos de profissão, a jornalista Sandra Carvalho trabalhou na cobertura do caso e foi uma das primeiras a chegar à cena do crime, após a Polícia. Até hoje ela recorda como foi ver a jovem naquele estado, morta e seminua. Em uma madrugada dessas lembrei dessa menina. Foi um caso muito, muito grave, de tocar o terror nas pessoas. Eu acompanhei ele até o final e acabou tudo em nada. A gente espera até hoje que ele seja resolvido

“Foi chocante ver a cena daquela jovem com um futuro promissor, uma vida toda pela frente, naquela condição. Sou mulher e minha filha tinha menos de um ano. Fiquei paralisada pensando no futuro dela e na minha própria segurança”, disse.

Sem saber se o crime havia sido cometido por um lunático desconhecido, ou por um próximo à vítima, se foi premeditado ou não, uma coisa ficou clara para Sandra: as mulheres não estavam seguras. “Levei essa reflexão para minha vida”, disse ela.

Em plena luz do dia

Encontrado por um grupo de crianças em um terreno baldio próximo à Escola José de Mesquita, no Bairro do Porto, o corpo de Cristiane apresentava ferimentos pelo corpo e tinha amarrada uma bula em seu pescoço, com a qual possivelmente fora estrangulada.

Era por volta das 15h do dia 9 de dezembro, quando a jovem ligou para uma amiga dizendo que passaria em sua casa após realizar uma prova na faculdade – ela cursava Fisioterapia. Mas ela acabou nunca chegando ao seu destino.

O jornal Diário de Cuiabá, de 11 de dezembro de 1992, dois dias após o crime, estampou o caso na manchete. Intitulada “Universitária é estuprada e estrangulada”, a matéria apresenta a hipótese de autoria inicial.

“Um tarado, ou um dos tarados que vêm agindo na região do Bairro Cidade Alta, fez mais uma vítima”, dizia a publicação, apontando para um maníaco com extensa lista de vítimas apelidado de o “Tarado do 8 de Abril”. Mas algo não se encaixava no “padrão”, o brutal e sádico assassinato.

Na hipótese inicial, a vítima teria descido de um ônibus próximo à escola “quando foi brutalmente arrastada para o matagal pelo maníaco”. Pedreiros de uma obra teriam ouvido barulhos, mas não deram importância naquele momento. Sandra Carvalho relembra, no entanto, que a hipótese não correspondia com o cenário.

“A impressão era que só jogaram o corpo dela lá, que não foi lá que aconteceu. Não tinha mato amassado em volta, nada”.

Cobertura “espetacular”

Dois feirantes chegaram a ser presos pelo crime: Ed Carlos e Eduardo Alvino, mais conhecido como “Orelhinha”. Ambos foram soltos por falta de provas, e nem mesmo a família de Cristiane acreditava que eles seriam os autores. “Foi meio que espetacular, aquela muvuca que parou a cidade em frente à televisão. Nós os tratamos como assassinos pela forma como foram apresentados pela Polícia. Depois de todo esse espetáculo, a própria imprensa foi investigando mais”, disse.

Sem saber da relação, Sandra chegou a contratar a mãe de Ed Carlos. “Era muito Triste, ela falava que o filho era dependente químico, mas violentar e matar uma pessoa ele não seria capaz. Acreditei e acredito, não conseguia ver isso nele, não era um rapaz agressivo”, afirma.

A advogada Betsey também descartou a possibilidade de envolvimento dos dois. “Aqueles meninos eram amigos dela e tinham algum distúrbio, não tiveram nada a ver e não tinham nem condições de fazer semelhante ato. Isso foi bem investigado”.

Caso Cristiane

Correndo em círculos – nos bastidores

O caso mobilizou o efetivo policial e fez com que a Delegacia de Costumes, responsável pela investigação à época, abandonasse os casos mais simples e se concentrasse na morte de Cristiane. Ainda com todo esse esforço aparente, o inquérito não conseguiu apontar um autor, e várias falhas foram identificadas ao cair em outras mãos. Uma exumação chegou a ser solicitada após uma lâmina com material genético “desaparecer”. Outras falhas também foram apontadas.

No dia 16 de janeiro de 1993, o Diário de Cuiabá trazia uma nova hipótese a partir de “comentários de bastidores” da investigação. Sem identificar as fontes ou o nome do possível autor, a publicação dizia que ele seria alguém com “as costas quentes”.

“Cristiane teria sido morta em um apartamento, provavelmente do assassino ou de algum amigo. Ela teria ido lá por livre e espontânea vontade, já que o criminoso seria pessoa de seu conhecimento e lhe inspirava confiança”, diz trecho da publicação.

Para investigadores e, inclusive, delegados, conforme a publicação, o caso estaria “fadado ao esquecimento”.

“Para um grande número de policiais revoltados com o andar das investigações, a solução do crime seria mais uma atitude política, já que resultaria no envolvimento de pessoas ligadas a setores importantes da sociedade e que de certa forma estariam pressionando para o arquivamento do caso e das investigações”, diz trecho.

Um dos depoimentos ficou marcado na memória de Betsey, que a faz crer nessa hipótese. Uma amiga de Cristiane alegou ter visto um carro preto seguindo a jovem, pouco antes do crime. “Ela disse que tinha um carro escuro com um homem de meia idade, que ela não viu se falava com ela ou não, mas que a acompanhava. Alguém viu algo e não falou até hoje por medo, porque pode ser que seja alguém que tenha poder econômico”, firmou a advogada.

Betsey explica que “todo processo pode ser reaberto se aparecer alguém que queira falar sobre isso”, mesmo o caso estando prescrito. “Se houver alguém que apareça e reative isso”.

A reportagem tentou ouvir a família, alguns não retornaram o contato e outros disseram preferir não comentar o caso.

- Publicidade -

Compartilhe

Popular

Veja também
Relacionados

Feito com muito 💜 por go7.com.br