Os estoicos estão entre os primeiros a refletir sobre a questão da consolação. A filosofia estoica surgiu em Atenas por volta de 300 a.C. Foi fundada por Zenão de Cício. Ele tinha, provavelmente, origem fenícia. O nome estoicismo deriva da palavra grega stoa, que significa pórtico. Jean Brun explica que o nome foi dado à doutrina filosófica porque Zenão ensinava perto do Pórtico Poecilo. Por esse motivo, o estoicismo foi conhecido como “filosofia do pórtico”. Sobre Zenão, Jean Brun informa que ele viveu modestamente, era homem sóbrio e discreto, conversava rodeado de alguns discípulos a quem não fazia pagar as lições, o que fez de seu ensino aberto a todos e não apenas reservado a uma aristocracia endinheirada. Foi um filósofo que vivia como um profeta. Distintamente dos cidadãos de seu tempo, Zenão não tinha escravos.
A filosofia estoica era dividida numa lógica, numa física e numa moral. Assim como os epicuristas, os estoicos pregavam a ideia de viver de acordo com a natureza. Jostein Gaarder orienta que eles negavam a oposição entre “espírito” e “matéria”, que para eles existia apenas uma natureza. Para eles, viver de acordo com a natureza implicava em viver de acordo com a vontade de Deus. Sim, a existência de Deus é parte da physis estoica. Os filósofos estoicos, cada um a seu modo, tinham uma concepção de Deus. Para Zenão, Deus é o éter. O fato é que Deus é tudo porque é o todo.
Jean Brun observa que há, tradicionalmente, três grandes períodos da história da escola estoica: o estoicismo antigo, centrado em Atenas, no século III a.C. tendo como representantes Zenão, Cleanto e Crisipo. O estoicismo médio, no século II a.C. com Diógenes, Panécio e Possidônio e o estoicismo da época imperial, séculos I e II d.C. essencialmente romano, que praticamente substituiu a física pela moral, representado, principalmente, por Sêneca, Epíteto e Marco Aurélio.
Para os estoicos, diz Gaarder, todos os processos naturais – por exemplo, a enfermidade e a morte – eram regidos pela natureza. Por esta razão, o homem deveria aprender a aceitar o seu destino. Em Sobre o destino (De fato), Cícero ratifica que nada que não haja sido necessário acontece, e, tudo o que possa acontecer, isso ou já é ou haverá de ser. Sobre os movimentos que parecem sem causa, explica que a causa é a própria natureza. Entretanto, Cícero insurge contra o chamado raciocínio preguiçoso, ou seja, um certo raciocínio com o qual, se o aceitássemos, nada absolutamente faríamos em vida. Nesse sentido, citando Crisipo, chama atenção ao fato associado, denominado por ele como coisas confatais. O fato é que, para os estoicos, diz Cícero, todas as coisas acontecem pelo destino. Refletindo sobre a filosofia, Cícero diz que filosofar não é outra coisa senão preparar-se para a morte. É Montaigne que nos explica que toda sabedoria e inteligência resulta finalmente que aprendemos a não ter receio de morrer.
Dentre os grandes difusores do estoicismo em Roma, certamente destaca-se Lúcio Aneu Sêneca (4 a.C. – 65 d.C.). Nascido em Córdoba, na Espanha (Hispania Baetica), estudou em Roma tendo como mestres um pitagórico e um estoico. Era filho de Sêneca, o Retor (o rhetor latinus era o professor do ensino superior, ensinava retórica e filosofia, além de conhecimentos em mitologia e história). Sêneca foi levado ainda criança para estudar em Roma, numa época em que a cidade era a metrópole e reunia filósofos e pensadores de quase todo o mundo conhecido: gregos, africanos, asiáticos, etc. Interessou-se por filosofia ainda na adolescência. Na juventude, teve problemas de saúde e foi tratar-se no Egito. Retornando à Roma, interessou-se pela política. Foi vítima de intrigas da imperatriz Messalina, e foi exilado em Córsega. Em 48 d.C. com a ascensão da imperatriz Agripina, retorna à Roma e inicia sua carreira filosófica e política. Torna-se preceptor do futuro imperador Nero, filho de Agripina. Para a orientação de Nero, escreveu o livro político-filosófico De clementia (Tratado sobre a clemência). Sêneca escreveu várias obras filosóficas, oito peças trágicas, tratados com teor filosófico e três cartas sobre a consolação escritas, respetivamente, para Márcia (abordando a morte de seu filho), para Políbio (liberto de Cláudio) e para Hélvia (sua própria mãe).
A primeira carta consolatória de Sêneca foi a Consolação a Márcia (Ad Marciam, De consolatione) escrita provavelmente no ano 40. Márcia era filha do importante historiador Aulo Cremúcio Cordo. O texto foi escrito em virtude do luto crônico que Márcia estava vivenciando em função da morte de seu filho Metílio.
Sêneca inicia a consolação enaltecendo a firmeza e a resistência de Márcia: “eu tenho confiança, diz ele, na força comprovada de sua mente e em sua virtude, o que foi comprovada por um duro teste”. O duro teste, na verdade, é a morte de seu pai, Aulo Cremúcio Cordo. E foi a filha que, após a morte do pai, publicou parte de suas obras, e obviamente Sêneca elogiou essa disposição, ato que, além de perpetuar a memória do seu pai, presta um serviço à literatura romana. Tal ato é entendido como grandeza de espírito. O luto de Márcia pela morte do filho está no terceiro ano e Sêneca lembra que o tempo, reconhecidamente “o maior remédio da natureza” não surtiu efeito sobre ela. Estabelecendo analogia com a ferida, informa que a sua dor, confirmada pelo tempo, tornou-se uma úlcera maligna. Diante deste cenário, informa que não pode influenciar uma dor tão forte por medidas educadas e suaves, ela deve ser destruída pela força.
E Sêneca, como recurso retórico, utiliza um aspecto comum aos textos estoicos na época, a utilização de exempla (pessoas cujas vidas e ações servem de exemplo). Traz à tona Otávia e Lívia, respectivamente, irmã e esposa de Augusto. A primeira perdeu o filho Marcelo e nunca suportou ouvir conselhos salutares, por toda sua vida, recusou abandonar o luto. Lívia perdeu seu filho Druso que marchava para a Germânia. Após todas as honrarias e rituais funerários, “quando, no entanto, ela finalmente o colocou no túmulo, deixou sua tristeza lá com ele, e lamentou não mais do que aquilo adequado a um César ou devido a um filho”. Ela falava sobre ele, vivia com sua memória, mas com sobriedade. Então, o autor coloca as duas mães como caminhos a ser seguidos. Seguindo a primeira, se afastará do círculo dos vivos, será sempre um presságio do mal; se por outro lado, assegura Sêneca, seguir o exemplo da senhora mais excelsa (ou seja, Lívia), você não estará na miséria, nem desgastará sua vida com sofrimento. Ademais, o luto é natural, mas, o ser humano ser totalmente destruído por ele não é natural. E Sêneca aponta uma diferença entre se permitir e se impor a tristeza. E essa tristeza profunda que subiste em Márcia já ganhou uma calosidade, entretanto, o filósofo observa que todas as circunstâncias fortuitas, assim como tudo que nos é dado, nos é confiado por empréstimo; ou seja, logo serão devolvidas. Sêneca ratifica que todas as coisas que nos rodeiam são apenas emprestadas, e quando requisitadas pelo credor, deve-se devolvê-las sem murmúrio. Em função disso, todos aqueles que gostamos, “devem ser amados por nós como pessoas que não podemos ter certeza de ter conosco para sempre, nem mesmo por tanto tempo”. Complementa Sêneca que “devemos frequentemente nos lembrar que é preciso amar as coisas desta vida exatamente como o faríamos com o que em breve nos deixará, ou mesmo no ato de nos deixar”. Renato Russo simplificou esse ensinamento senequiano: “é preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã”.
Como filósofo estoico, Sêneca lembra que “estamos sob o domínio da Fortuna (destino), e é um domínio duro e inconquistável”. O filósofo informa Márcia que é de sua condição humana ser um corpo fraco e frágil, sujeito a todas as doenças e que, em função disso, não pode ter esperança de produzir algo forte e duradouro.
Sêneca, para explicar que o destino não vê distinção entre bons ou maus, cita imperadores, benfeitores e tiranos que vivenciaram perdas de seus filhos. Pressupondo que Márcia iria questioná-lo por citar homens como exemplo enquanto tenta consolá-la, anuncia que as mulheres têm o mesmo poder intelectual que os homens, e a mesma capacidade de ação honrada e generosa. Esse pensamento senequiano está a frente de seu tempo. Pensamento de vanguarda que, na atualidade, levando em consideração alguns pressupostos da extrema direita brasileira, ainda continua vanguardista.
Detendo-se na consolação propriamente dita, Sêneca informa a Márcia que seu filho alcançou a paz profunda e eterna, agora está imune às vicissitudes. Sobre a inexorabilidade do destino, adverte que a cada homem foi atribuída uma duração variável de dias: ninguém morre antes de seu tempo, porque ele não estava destinado a viver mais do que vivia. O fim de todos é fixo e está estabelecido por plano superior.
Sêneca escreveu a carta consolatória a sua mãe Hélvia (Ad Helviam matrem, De consolatione) quando estava no exílio. O texto é de um filho tentando mitigar a dor materna, ainda que tivesse sua própria dor, uma vez que perdeu o filho e estava exilado. Entretanto “O infortúnio contínuo tem essa vantagem, que acaba por tornar insensíveis aqueles que sempre estão a flagelar”. O infortúnio de Hélvia era imenso pois, conforme revela Sêneca, “vinte dias depois de celebrar o enterro de meu filho, morto entre seus braços e seus beijos, recebeu a notícia de meu exílio”. Ou seja, o objetivo do filósofo não é apenas consolar a mãe mediante as agruras lhe imposta pelo destino, mas também demonstrar, na prática e na própria pele, pela experiência, princípios importantes ao estoicismo. Sêneca, nesse exercício de consolação, vivencia o conceito tradicional de práxis: a teoria aplicada à realidade, sendo exercida na prática.
Falando sobre si, diz que é preciso estar sempre atento, como espírito preparado, afinal “a fortuna é grave para aqueles a quem chega inesperadamente; facilmente a suporta quem sempre a espera”. Além do preparo, observa a necessidade do desapego, da aceitação da impermanência das coisas. Minimiza a questão do exílio, explicando que a cidade de Roma é composta, principalmente, por pessoas tiradas de suas pátrias. E em todo lugar há estrangeiros e a mudança de lugar não é tão grave. Utiliza um argumento físico de que tudo é transitório, como ordena a inexorável lei do mundo; e orienta a mãe a pensar que sua alma humana, formada pelas mesmas partículas das quais são constituídas os astros, deseja viajar e migrar, no eterno movimento. Sobre as mudanças, no sentido geográfico, elucida que o ser humano, por inúmeras causas, ausenta-se de sua pátria. Aliás, “eterno é o mudar do gênero humano”.
Ainda acerca do exílio, tranquiliza a mãe, afinal, “o que no homem há de melhor está além de toda a força humana e não pode ser dado nem tirado”. E, independente do lugar em que o ser humano esteja no mundo, “o olhar levanta-se igualmente para o céu, a mesma distância separa em qualquer parte as coisas divinas das humanas”.
Sêneca, como conforto para as mágoas da mãe, orienta-lhe procurar refúgio nos estudos da filosofia: “eles saberão sarar sua ferida, arrancando de você toda queixa”. E também buscar auxílio e deleite nos parentes que lhe estão próximos. “Esse é o alívio, minha querida mãe, pelo qual será acalmada”. Assegura-lhe que é preciso manter a força da alma e retomar a coragem.
Os textos consolatórios de Sêneca, ainda que escritos em outros tempos e outro contexto e com destinatário específico, merecem consideração, pois continuam extremamente válidos e profundamente necessários. Além disso, ele habilmente transformou preceitos filosóficos do estoicismo em ensinamentos práticos, em verdadeira filosofia para a vida.
Jeovani Lemes de Oliveira é professor da Rede Estadual de Ensino de Mato Grosso (Seduc-MT), poeta e escritor. Foi professor universitário (Unemat/Tangará da Serra). Graduado em Letras, especialista em Literatura Infantojuvenil e Ensino, mestre e doutor em Estudos Literários. Participou do livro Unimultiplicidade poética (2006); publicou Simples e no escuro (2011) e vários artigos científicos.








