Transformar o eleitor nordestino em culpado pelos problemas do Brasil é um erro político e uma injustiça. Nenhum brasileiro merece ser hostilizado por sua origem ou por seu voto. Quem enfrenta pobreza, insegurança e falta de oportunidades precisa ser ouvido. A cobrança deve se dirigir, sobretudo, aos governantes que prometem superar essas condições e recebem sucessivas oportunidades para fazê-lo.
É nesse ponto que uma crítica de direita à hegemonia petista no Nordeste deve concentrar sua força: na distância entre a promessa de emancipação e a persistência da vulnerabilidade.
A trajetória eleitoral revela uma mudança expressiva. No primeiro turno de 1994, Lula recebeu aproximadamente 30,3% dos votos válidos da região. Em 2002, alcançou 45,9%. Na eleição de 2006, após seu primeiro mandato presidencial, chegou a 66,8%. O Nordeste tornou-se uma base decisiva para o PT, embora com oscilações: Haddad teve 50,6% em 2018; Lula alcançou 66,7% em 2022 e 63,8% em 2026.
Esses números não autorizam chamar o nordestino de ignorante. Autorizam perguntar o que os dirigentes fizeram com tamanha confiança política.
Se o apoio é duradouro, a prestação de contas também precisa ser rigorosa. Quantas oportunidades foram abertas? Quanto melhoraram a educação, a segurança e as condições de trabalho? Em que medida as famílias passaram a depender menos de auxílio porque conquistaram renda suficiente — e não porque perderam acesso à proteção?
Sob uma perspectiva liberal de direita, o problema não está em socorrer quem precisa. Uma família com fome necessita de atendimento imediato. O problema aparece quando a proteção social ocupa o centro permanente do projeto político, enquanto a autonomia econômica continua sendo uma promessa distante.
O benefício deve assegurar dignidade. Não deve ser apresentado como favor de um partido ou dívida de gratidão com um governante.
A crítica se torna ainda mais necessária quando a disputa política procura convencer o cidadão de que somente um líder pode protegê-lo. Quando qualquer alternativa é retratada como uma ameaça à sobrevivência, o debate sobre resultados corre o risco de ser substituído pelo medo.
Para quem vive com alguma segurança financeira, mudar de governo pode parecer apenas uma escolha administrativa. Para quem teme faltar comida no mês seguinte, uma ameaça de perda de renda — verdadeira ou fabricada — tem outro peso. Explorar esse receio é explorar uma vulnerabilidade.
Isso não significa que toda advertência sobre cortes seja falsa. Propostas reais devem ser examinadas e seus efeitos discutidos. O que merece contestação é a fabricação de inimigos, a caricatura dos adversários e a tentativa de transformar uma política pública em patrimônio eleitoral de quem ocupa o poder.
Da mesma forma, reconhecer desigualdades entre classes é necessário. Transformá-las em antagonismo permanente, como se trabalhadores, empresários e pessoas de diferentes rendas estivessem condenados a se odiar, empobrece o debate e dificulta soluções.
A vulnerabilidade pode reduzir a liberdade prática de escolha. Uma pessoa sem alternativas de renda, com acesso precário à educação e cercada de insegurança dispõe de menos proteção contra pressões e desinformação. Isso não diminui sua inteligência nem elimina sua capacidade de decidir. Aumenta a responsabilidade de quem exerce poder sobre suas condições de vida.
Seria desonesto afirmar que os percentuais eleitorais provam um plano consciente de manter a miséria. Não provam. Mas também seria complacente aceitar que governos celebrem o apoio dos mais pobres sem responder pela insuficiência das oportunidades oferecidas a eles.
A esquerda não criou sozinha as desigualdades nordestinas, e a região não teve governos de uma única orientação. Ainda assim, onde recebeu mandatos sucessivos, deve responder pelo que realizou, pelo que deixou de realizar e pelas políticas que insistiu em manter apesar dos resultados insuficientes.
A direita, por sua vez, precisa oferecer mais do que indignação. Defender autonomia exige apresentar caminhos concretos para educação, emprego, infraestrutura, empreendedorismo e segurança, preservando a proteção de quem ainda necessita dela.
Chamar o eleitor de “incauto” ou tratar sua necessidade como defeito pessoal reproduz o desrespeito que se pretende denunciar. Uma alternativa política séria precisa demonstrar que conhece suas dificuldades e tem condições de enfrentá-las.
O nordestino não deve carregar a culpa pelo Brasil. Pode ser vítima da violência, da falta de oportunidades e de estruturas políticas que se beneficiam de sua vulnerabilidade. É dessas estruturas que se deve cobrar mudança.
Essa cobrança deve alcançar, além do PT de Lula no governo federal, os governos estaduais de esquerda e seus aliados onde acumularam mandatos sucessivos. Não basta atribuir cada dificuldade à herança histórica ou às decisões de Brasília: quem administra o estado também precisa responder pela segurança pública, pela educação e pelas oportunidades que ajudou a criar. Quanto maior o tempo no poder, maior a obrigação de apresentar resultados. O reconhecimento por políticas sociais não pode funcionar como salvo-conduto para falhas persistentes em outras áreas.
Também merece crítica a publicidade política de massa quando se transforma em instrumento de intimidação. A repetição de mensagens que associam qualquer mudança de governo à fome, à perda de benefícios ou ao abandono dos pobres pode produzir um ambiente de medo — uma espécie de “terrorismo eleitoral”, expressão aqui empregada em sentido figurado para denunciar esse método. Alertar sobre propostas reais é legítimo; fabricar ameaças e estereótipos para apresentar um partido como único protetor dos vulneráveis é outra coisa. Quando utilizada por dirigentes de esquerda, essa estratégia contradiz a promessa de emancipação: em vez de ampliar a liberdade de escolha, procura vincular a segurança da família à continuidade de um grupo no poder.
O compromisso de um governo com os pobres precisa ser medido tanto pela proteção que oferece hoje quanto pelas possibilidades de uma vida mais autônoma que constrói para amanhã. Nenhum partido deveria considerar uma população seu território eleitoral permanente.
Por Nelson Alves – Redator do ClickNovaOlimpia e Cachacista por amor a brasilidade








