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O PODER NÃO MUDOU. MUDOU QUEM ESTÁ SENDO OLHADO.

Existe uma espécie particularmente perigosa de acomodação política.
Não é a do político que troca de lado depois da eleição.
Essa é velha.
O político quer cargo, verba, influência, sobrevivência.
O problema começa quando instituições que deveriam fiscalizar o poder passam a enxergar melhor justamente depois que o poder muda de mãos.
Aí temos uma pergunta que incomoda:
O erro deixou de existir quando determinado grupo estava no poder — ou algumas pessoas simplesmente deixaram de querer enxergá-lo?
Porque uma coisa é mudar de opinião.
Outra, muito diferente, é mudar o critério.
2022: QUANDO O CRITÉRIO ERA UM
As eleições de 2022 produziram uma sequência extraordinária de conflitos institucionais, decisões judiciais, disputas sobre liberdade de expressão, atuação das plataformas e questionamentos sobre o processo eleitoral.
O TSE, posteriormente, declarou Jair Bolsonaro inelegível por oito anos por abuso de poder político e uso indevido dos meios de comunicação na reunião com embaixadores de julho de 2022. A decisão foi por 5 votos a 2.
É legítimo concordar.
É legítimo discordar.
É legítimo considerar a decisão juridicamente correta ou excessiva.
O que não deveria ser legítimo é abandonar o mesmo padrão de fiscalização quando o alvo deixa de ser conveniente.
Porque democracia não pode funcionar assim:
“Quando é o meu adversário, investigue tudo.
Quando é o meu aliado, compreenda o contexto.”
Isso não é princípio.
É torcida.
E A IMPRENSA?
Aqui começa uma conversa ainda mais desconfortável.
Jornalismo não deveria ter lado.
Mas jornalismo também não é neutralidade artificial diante dos fatos.
A obrigação é muito mais simples:
o mesmo fato deve receber o mesmo escrutínio, independentemente de quem esteja sentado no Palácio, no Congresso, no tribunal ou diante de uma câmera.
Se uma decisão judicial era questionável quando beneficiava um adversário, continua sendo questionável quando beneficia um aliado.
Se determinada autoridade deveria ser fiscalizada quando contrariava um grupo político, continua merecendo fiscalização quando passa a favorecer esse grupo.
Se um erro administrativo era notícia ontem, deve continuar sendo notícia hoje.
Caso contrário, não temos independência.
Temos temperatura política.
E a temperatura sobe ou desce conforme o termômetro do poder.
A MAIS HUMILHANTE DAS PERGUNTAS
Não precisamos chamar ninguém de vendido.
Nem de capacho.
Nem de covarde.
Há uma pergunta muito pior:
“Por que vocês só perceberam agora?”
Essa pergunta destrói discursos inteiros.
Porque, se o problema sempre existiu, por que o silêncio?
E, se não existia antes, o que exatamente mudou?
O fato?
Ou o governante?
E ENTÃO CHEGAMOS A 2026
Agora aparece uma situação que merece atenção — justamente porque não autoriza conclusões precipitadas.
Em 6 de outubro, o SBT News informou que encontrou casos de eleitores que afirmavam ter votado no primeiro turno e que apareciam no sistema de consulta do TSE como ausentes.
A Folha realizou testes semelhantes, inclusive com pessoas que comprovadamente compareceram, e encontrou a mesma indicação de ausência.
O TSE respondeu que os dados ainda estavam em processamento e esclareceu que a mensagem “Faltou” não representava uma situação definitiva. O processamento estava previsto para terminar até 11 de outubro.
Pronto.
É exatamente assim que uma imprensa séria deveria trabalhar.
Encontrou uma inconsistência?
Mostra.
Pergunta.
Cobra.
Espera a explicação.
Confere a explicação.
Atualiza a informação.
Não precisa fabricar fraude.
Não precisa proteger o TSE.
Não precisa atacar o TSE.
Precisa fiscalizar.
E deveria ter sido assim sempre.
POR QUE AGORA?
Essa é a pergunta que interessa.
Não:
“Quem ganhou?”
Mas:
“Por que determinadas coisas parecem ter ficado mais visíveis depois que o equilíbrio político mudou?”
Se agora jornalistas passaram a investigar decisões judiciais, inconsistências administrativas, comportamentos institucionais e possíveis abusos que antes recebiam menos atenção, ótimo.
Continuem.
Só existe uma condição:
não parem quando o poder voltar a mudar de mãos.
Porque o verdadeiro teste da imprensa não acontece quando ela denuncia o adversário.
Acontece quando ela denuncia quem ela gostaria de proteger.
O STF TAMBÉM NÃO PODE SER INTOCÁVEL
Supremo Tribunal Federal não é partido político.
Não é governo.
Não é oposição.
Não é entidade acima da crítica.
Ministros podem errar.
Decisões podem ser contestadas.
Interpretações jurídicas podem ser discutidas.
Poderes institucionais podem ser questionados.
E isso não significa atacar a democracia.
Ao contrário.
Instituições democráticas fortes são aquelas que sobrevivem à fiscalização.
O problema começa quando uma sociedade passa a acreditar que questionar determinado poder é necessariamente atacar a democracia.
Isso é perigoso.
Porque transforma a instituição que deveria ser fiscalizada em instituição que define quem pode fiscalizá-la.
E então nasce uma aberração:
o fiscal passa a precisar da autorização do fiscalizado para fiscalizar.
O MAIS CURIOSO É QUE NINGUÉM PRECISA MANDAR
Talvez esse seja o ponto mais profundo.
Não é necessário que alguém telefone para uma redação.
Não é necessário que exista uma ordem secreta.
Não é necessário que jornalistas sejam comprados.
Um sistema pode produzir conformismo de maneira muito mais sofisticada.
Basta que todos percebam:
quem possui poder controla acesso;
quem controla acesso controla fontes;
quem controla fontes influencia carreiras;
quem influencia carreiras cria incentivos;
e os incentivos ensinam silenciosamente até onde uma instituição pode ir.
Ninguém precisa dizer:
“Não mexa nisso.”
Às vezes basta que todos saibam o que acontece com quem mexe.
E ISSO TEM VÍTIMAS
Esse é o ponto que não pode ser tratado como brincadeira de torcida política.
Porque quando imprensa, instituições, partidos, tribunais ou qualquer estrutura de poder deixam de aplicar critérios uniformes, pessoas reais pagam a conta.
Uma decisão equivocada pode atingir uma pessoa.
Uma investigação seletiva pode destruir uma reputação.
Uma denúncia ignorada pode permitir que um abuso continue.
Uma informação escondida pode impedir que o eleitor compreenda o que está acontecendo.
Uma instituição que deixa de fiscalizar porque o poderoso é “do seu lado” pode produzir consequências que não desaparecem quando a manchete desaparece.
É por isso que a desfaçatez institucional não é apenas feia. É perigosa.
NÃO QUEREMOS UMA IMPRENSA CONTRA O PODER
Queremos algo muito mais difícil.
Uma imprensa contra o abuso de poder.
Independentemente de quem o pratique.
Não queremos jornalistas de direita.
Não queremos jornalistas de esquerda.
Não queremos jornalistas governistas.
Não queremos jornalistas oposicionistas.
Queremos jornalistas que consigam fazer uma coisa extraordinariamente simples:
olhar para o mesmo fato e continuar chamando-o pelo mesmo nome.
PORQUE O PROBLEMA NÃO É MUDAR DE LADO
Um jornalista pode mudar de opinião.
Um cidadão pode mudar de opinião.
Um político pode mudar de opinião.
A realidade muda.
Informações novas aparecem.
Tudo isso é normal.
O que não pode mudar conforme a conveniência é o princípio utilizado para julgar o fato.
Se ontem era grave, hoje precisa continuar sendo grave.
Se ontem precisava ser investigado, hoje precisa continuar sendo investigado.
Se ontem exigia explicação, hoje precisa continuar exigindo explicação.
O poder não pode escolher quais perguntas serão feitas.
O ELEITOR DEVE PERGUNTAR
Quando uma instituição começa a denunciar os erros de um grupo que acaba de perder poder, não comemore imediatamente.
Pergunte:
“Por que não fizeram isso antes?”
Quando começa a denunciar os erros de quem acaba de ganhar, também não comemore.
Pergunte:
“Continuarão fazendo isso amanhã?”
E quando alguém apresentar uma explicação:
“Qual é a evidência?”
Esse talvez seja o comportamento político mais saudável que um cidadão pode desenvolver.
Não acreditar porque gosta.
Não rejeitar porque odeia.
Verificar.
O VERDADEIRO PONTO CEGO
Talvez nosso maior problema nunca tenha sido escolher entre esquerda e direita.
Talvez tenha sido permitir que qualquer lado descubra que pode contar com nossa cegueira quando chega ao poder.
Porque o poder muda.
Os partidos mudam.
Os governos mudam.
Os ministros mudam.
As maiorias mudam.
A imprensa muda.
Mas uma coisa deveria permanecer:
a cobrança.
Hoje você pode estar feliz porque alguém que você considera errado está sendo fiscalizado.
Amanhã pode ser o seu lado.
E é exatamente aí que começa a verdadeira democracia.
Quando você consegue dizer:
“Eu quero que fiscalizem os outros.
Mas também quero que fiscalizem os meus.”
Porque, se a fiscalização desaparece quando chega o nosso turno…
não defendemos princípios.
Defendemos privilégios.
E privilégio com discurso democrático continua sendo privilégio.
O Brasil não precisa de uma imprensa que descubra a verdade conforme o vencedor.
Precisa de uma imprensa que seja capaz de dizer ao vencedor:
“Parabéns. Agora nós vamos fiscalizar você também.”
Esse é o teste.
Não o lado que a imprensa escolhe.
O lado que ela fiscaliza quando poderia escolher não fiscalizar.

Paulo Laurentino é Artista Plástico e Publicitário

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