Celebrada hoje, 13 de setembro, a cachaça atravessou quase cinco séculos de história até conquistar o reconhecimento como produto genuinamente brasileiro. Nascida nos engenhos coloniais, perseguida pela Coroa Portuguesa e transformada em símbolo de resistência econômica, a bebida chega ao século XXI presente em 76 mercados internacionais e com mais de 11 mil marcas cadastradas no país.
Em Nova Olímpia, essa trajetória é acompanhada de perto pelo historiador e cachacista Nelson Alves, um dos maiores entusiastas da cultura cachaceira na região. O acervo que ele modestamente chama de “pequena coleção” reúne aproximadamente mil exemplares, entre garrafas, litros, latas, miniaturas, recipientes de cerâmica e outras peças relacionadas à bebida.
Mais do que guardar embalagens, Nelson procura preservar histórias. Cada garrafa registra uma região produtora, uma família, uma técnica de fabricação, uma madeira utilizada no envelhecimento ou até mesmo uma marca que já desapareceu do mercado.
“A cachaça não pode ser vista apenas como uma bebida alcoólica. Ela ajuda a contar a história do Brasil, da formação econômica do país e dos costumes de diferentes regiões. Cada exemplar carrega um pouco dessa memória”, destaca Nelson.
13 de setembro: da resistência colonial ao reconhecimento da cachaça brasileira
A escolha de 13 de setembro para celebrar a cachaça está diretamente ligada a um dos episódios mais simbólicos do Brasil Colônia. Durante o século XVII, a aguardente produzida nos engenhos brasileiros conquistou espaço no mercado interno e nas relações comerciais com outras colônias portuguesas, passando a concorrer com o vinho e a bagaceira levados de Portugal.
Para proteger os interesses econômicos da metrópole e controlar a arrecadação, a Coroa Portuguesa adotou sucessivas medidas de restrição à fabricação e à comercialização da bebida. Mesmo perseguida, a produção continuou e ganhou crescente importância econômica.
A insatisfação chegou ao ponto máximo no Rio de Janeiro, em novembro de 1660. Liderados por Jerônimo Barbalho Bezerra, produtores da região de São Gonçalo atravessaram a Baía de Guanabara, ocuparam a cidade e assumiram o controle da administração colonial.
O movimento ficou conhecido como Revolta da Cachaça ou Revolta de Barbalho. A rebelião foi reprimida em abril de 1661, quando Salvador Correia de Sá e Benevides retomou o governo do Rio de Janeiro. Jerônimo Barbalho foi preso e executado, mas a mobilização dos produtores ajudou a expor a força econômica e política adquirida pela bebida.
Em 13 de setembro de 1661, a Coroa Portuguesa autorizou a fabricação e a comercialização da aguardente de cana no Brasil. A data passou a simbolizar a resistência dos produtores às proibições coloniais e a conquista do direito de produzir uma bebida que, com o passar dos séculos, se tornaria parte da identidade nacional.
“A Revolta da Cachaça não foi simplesmente uma disputa por uma bebida. Ela envolveu impostos, controle da produção e resistência aos interesses econômicos da metrópole. A cachaça já demonstrava naquele momento sua importância econômica e social”, observa o historiador e cachacista Nelson Alves.
Séculos depois, outro marco contribuiu para fortalecer essa identidade. Em 2 de outubro de 2003, o Governo Federal publicou o Decreto nº 4.851, estabelecendo parâmetros específicos para a bebida e consolidando a cachaça como denominação típica e exclusiva da aguardente de cana produzida no Brasil.
O decreto definiu características de produção, graduação alcoólica e classificação, ajudando a diferenciar a verdadeira cachaça brasileira de outros destilados de cana fabricados no mundo. Embora posteriormente substituída por novas regulamentações, a norma de 2003 representou uma etapa importante no processo de valorização, proteção e reconhecimento legal do produto brasileiro. Decreto nº 4.851/2003 — Planalto
A ligação entre a história colonial e a valorização contemporânea da bebida ganhou força em 5 de junho de 2009. Durante a Expocachaça, realizada em Belo Horizonte, o Instituto Brasileiro da Cachaça (Ibrac) instituiu o 13 de setembro como Dia Nacional da Cachaça.
A iniciativa teve como objetivo preservar a memória da liberação ocorrida em 1661, reconhecer a importância cultural e econômica da bebida e mobilizar produtores, comerciantes, pesquisadores, colecionadores e consumidores em defesa da cachaça genuinamente brasileira. Desde então, a celebração se espalhou pelo país e passou a integrar o calendário do setor, mesmo sem a existência de uma lei federal específica. Instituto Brasileiro da Cachaça
Também em 2009, a proposta foi levada ao Congresso Nacional por meio do Projeto de Lei nº 5.428, apresentado pelo então deputado federal Valdir Colatto. A matéria avançou na Câmara dos Deputados, mas não chegou a transformar a celebração em lei.
Uma nova tentativa de oficialização foi apresentada em julho de 2026 pelo senador Izalci Lucas. O Projeto de Lei nº 3.771/2026 propõe instituir legalmente o Dia Nacional da Cachaça, a ser celebrado todos os anos em 13 de setembro, em reconhecimento à importância histórica, cultural e econômica da bebida.
A proposta está em tramitação na Comissão de Agricultura e Reforma Agrária do Senado e tem como relatora a senadora Tereza Cristina. Caso seja aprovada pelo Congresso Nacional e sancionada, a celebração criada pelo Ibrac em 2009 será incorporada oficialmente ao calendário brasileiro por meio de lei federal. Senado Federal
Assim, o 13 de setembro reúne diferentes momentos da trajetória da bebida: a resistência dos produtores coloniais, a autorização de 1661, o fortalecimento jurídico promovido pelo Decreto nº 4.851/2003, a mobilização iniciada pelo Ibrac em 2009 e a atual busca por seu reconhecimento definitivo no calendário nacional.
O que pode ser chamado de cachaça
A legislação brasileira estabelece diferença entre cachaça e aguardente de cana.
Cachaça é a denominação típica e exclusiva da aguardente de cana produzida no Brasil, com graduação alcoólica entre 38% e 48% em volume, a 20 graus Celsius. Ela é obtida pela destilação do mosto fermentado do caldo de cana-de-açúcar e pode receber até seis gramas de açúcar por litro.
Já a aguardente de cana pode apresentar graduação alcoólica entre 38% e 54%. Portanto, embora toda cachaça seja uma aguardente de cana, nem toda aguardente de cana pode legalmente ser vendida como cachaça.
A proteção do nome tem importância comercial. Assim como tequila identifica um produto mexicano e bourbon está associado aos Estados Unidos, a expressão “Cachaça do Brasil” é reservada ao destilado que respeita as características definidas pela legislação brasileira.
Brasil possui mais de 1,5 mil estabelecimentos registrados
O retrato oficial mais recente do setor está no Anuário da Cachaça 2026, publicado pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) com dados referentes a 2025.
O Brasil encerrou o período com 1.538 estabelecimentos elaboradores registrados no Mapa, crescimento de 21,5% em comparação com 2024. Essas unidades estavam distribuídas por 844 municípios, o equivalente a 15,2% das cidades brasileiras.
Minas Gerais permaneceu na liderança, com 564 estabelecimentos, seguido por São Paulo, com 230, e Rio Grande do Sul, com 106.
O número oficial não deve ser confundido com estimativas de produtores informais. Afirmações de que existiriam 30 mil ou 40 mil alambiques no país circulam há anos, mas não constituem um levantamento cadastral atualizado. Para efeitos legais e estatísticos, devem ser considerados os estabelecimentos registrados no Mapa.
Em 2025, o Brasil contabilizou:
- 1.538 estabelecimentos elaboradores registrados;
- 844 municípios com pelo menos um estabelecimento;
- 8.379 produtos registrados como cachaça;
- 11.131 marcas comerciais vinculadas aos registros;
- 234,47 milhões de litros de produção declarada;
- 6.232 empregos diretos registrados na fabricação de aguardente de cana.
Um mesmo produto registrado pode ser comercializado com mais de uma marca. Por isso, o número de marcas é superior ao de produtos. A expressão “rótulo”, utilizada informalmente pelo mercado, também não corresponde necessariamente a um produto diferente. Anuário da Cachaça 2026 — Mapa
Produção declarada recuou em 2025
Embora o número de estabelecimentos, produtos e marcas tenha crescido, a produção declarada caiu 15,77% em 2025, totalizando aproximadamente 234,5 milhões de litros.
O Sudeste respondeu por cerca de 150,37 milhões de litros, ou 64,13% da produção nacional. Nordeste e Sul vieram em seguida, praticamente empatados, com 41,84 milhões e 41,60 milhões de litros, respectivamente.
Esses números representam somente a produção informada pelos estabelecimentos registrados. Não incluem o universo informal e tampouco devem ser confundidos com a capacidade instalada do setor, frequentemente estimada em patamar muito superior.
Exportações chegam a 76 destinos
A cachaça brasileira avançou no comércio internacional em 2025. Foram exportados aproximadamente 7,96 milhões de litros, crescimento de 19,4% em relação ao ano anterior.
A receita chegou a US$ 17,07 milhões, alta de 17,4%. A bebida alcançou 76 destinos, igualando a maior abrangência geográfica da série histórica acompanhada pelo Mapa.
O Paraguai foi o principal comprador em volume, com aproximadamente 1,34 milhão de litros. Na sequência apareceram Alemanha, Estados Unidos, Cuba e Portugal.
Quando o critério é faturamento, os Estados Unidos ocuparam a primeira posição, com compras estimadas em US$ 4,12 milhões, equivalentes a 24,1% da receita das exportações. A diferença mostra que o mercado norte-americano absorve produtos de maior valor médio, enquanto o Paraguai se destaca pela quantidade adquirida.
O preço médio das exportações ficou em torno de US$ 2,15 por litro.
Não existe, porém, um ranking público oficial que revele quais marcas brasileiras foram as mais vendidas no exterior em 2025. O Comex Stat e o Anuário do Mapa apresentam valores, volumes, destinos e empresas exportadoras, mas não detalham as vendas por marca comercial.
Por isso, marcas como 51, Pitú, Velho Barreiro, Ypióca, Leblon, Novo Fogo e Sagatiba podem ser apontadas como produtos com presença internacional, mas não é possível afirmar, com base nos dados oficiais disponíveis, qual delas liderou as exportações no período.
A diversidade que cabe em uma garrafa
Para Nelson Alves, a riqueza da cachaça está justamente na impossibilidade de reduzi-la a um único padrão de sabor.
Além da chamada cachaça branca, armazenada em recipientes que não alteram significativamente suas características, há produtos armazenados ou envelhecidos em dezenas de espécies de madeira.
Carvalho, amburana, bálsamo, jequitibá, amendoim, araruva, castanheira, ipê e outras madeiras podem modificar cor, aroma e sabor. Algumas acrescentam notas adocicadas e condimentadas; outras preservam características mais próximas do destilado recém-produzido.
“A madeira funciona como uma assinatura. Ela pode transformar completamente a bebida, mas também precisa ser usada com conhecimento. O objetivo não é esconder a cachaça, e sim acrescentar complexidade sem apagar sua identidade”, explica o cachacista.
Essa diversidade aparece na coleção mantida por Nelson em Nova Olímpia. O conjunto reúne embalagens de várias épocas e regiões brasileiras, desde marcas de grande circulação até pequenos lotes artesanais, edições comemorativas, miniaturas e produtos que deixaram de ser fabricados.
Mato Grosso ainda tem participação pequena no mercado formal
Mato Grosso encerrou 2025 com seis estabelecimentos elaboradores de cachaça registrados no Ministério da Agricultura e Pecuária, um a menos que no ano anterior.
O estado também apresentou redução no cadastro de produtos. O número caiu de 18 para 11 cachaças registradas, recuo de 38,9%. Mato Grosso e Bahia foram as únicas unidades da Federação que registraram diminuição nesse indicador.
Os dados mostram que a produção formal mato-grossense ainda ocupa uma parcela pequena no cenário nacional. Ao mesmo tempo, indicam que o universo dos produtores efetivamente registrados é bem menor do que o conjunto de marcas e alambiques conhecidos regionalmente.
Isso ocorre porque nem todo produtor artesanal possui registro vigente no Mapa. Também pode haver marcas comerciais pertencentes a um mesmo estabelecimento, produtos fabricados por terceiros ou empreendimentos que interromperam a produção sem desaparecer imediatamente da memória dos consumidores.
O Anuário não apresenta um volume individualizado para Mato Grosso, mas informa que toda a região Centro-Oeste produziu 635,7 mil litros em 2025. Foi a única região brasileira a registrar crescimento, com avanço de 11,12% sobre 2024. Apesar disso, respondeu por apenas 0,27% da produção nacional.
Um mapa afetivo da cachaça mato-grossense
Ao longo de suas pesquisas e da formação de seu acervo, Nelson reuniu referências de diferentes regiões de Mato Grosso. Entre os nomes conhecidos no estado estão Água Clara, de São José do Rio Claro; Sucuri, de Comodoro; Caleffi, de Sinop; Geodésica, de Chapada dos Guimarães; Caminhos de Santiago, da região de Santiago do Norte; Bressan, de Primavera do Leste; Morada da Serra, de Colniza; e Serra Pantaneira, de Poconé.
Essa relação constitui um inventário histórico e afetivo do colecionador, e não uma lista oficial atualizada de estabelecimentos registrados. Algumas marcas podem estar vinculadas a um mesmo produtor, ter produção esporádica ou não possuir registro federal vigente.
Para Nelson, a diferença entre a quantidade de nomes conhecidos e os seis estabelecimentos oficialmente cadastrados revela um dos principais desafios do setor em Mato Grosso: transformar a produção tradicional e familiar em uma atividade regularizada, segura e economicamente sustentável.
“O Estado possui matéria-prima, clima, conhecimento rural e histórias familiares ligadas à produção. Falta ampliar a formalização, melhorar a apresentação dos produtos e fazer com que o próprio mato-grossense conheça e valorize o que é produzido aqui”, avalia.
Cultura, qualidade e responsabilidade
A formalização não representa apenas uma exigência burocrática. O registro permite identificar o responsável pela bebida, acompanhar as condições de produção e verificar se o produto atende aos padrões de identidade e qualidade estabelecidos pela legislação.
O cuidado é especialmente importante diante da circulação de bebidas sem procedência. A produção artesanal não é sinônimo de informalidade: uma cachaça pode ser produzida em pequena escala, com métodos tradicionais, e ainda assim cumprir todas as obrigações legais e sanitárias.
No Dia Nacional da Cachaça, o brinde defendido por produtores, estudiosos e colecionadores também passa pela responsabilidade. Isso significa valorizar produtos registrados, conhecer sua origem, consumir com moderação e jamais dirigir depois de beber.
Quase cinco séculos depois de surgir nos engenhos, a cachaça continua contando a história do Brasil. Está na agricultura familiar, na indústria, na gastronomia, nas festas populares, nos bares, nas coleções e na memória das comunidades produtoras.
Em Nova Olímpia, parte dessa história permanece preservada nas aproximadamente mil peças reunidas por Nelson Alves. Para o historiador e cachacista, cada recipiente representa mais do que uma bebida: é um documento sobre o trabalho, a criatividade e a identidade cultural do povo brasileiro.
Mais sobre: Arquivo de Coleção de Cachaça – Click Nova Olímpia
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