Chega o período eleitoral e o país vira uma grande feira de promessas. Tem candidato prometendo asfalto onde nem rua existe, hospital sem médico, emprego sem empresa, segurança sem planejamento e até milagre administrativo em quatro anos. No palanque, tudo cabe. O problema começa quando o eleitor acredita em tudo e, depois, não cobra nada.
Antes de escolher um candidato, é preciso fazer o básico: pesquisar sua trajetória, verificar se possui ficha limpa, conhecer eventuais processos e observar como se comportou na vida pública. Não basta uma boa fotografia, um sorriso treinado ou um vídeo emocionante nas redes sociais. Candidato não deve ser escolhido como quem escolhe produto pela embalagem.
Também é importante desconfiar de quem se apresenta como perfeito. Político que nunca errou provavelmente nunca fez nada — ou aprendeu a esconder muito bem. O eleitor precisa avaliar fatos, propostas, resultados e a forma como o candidato responde aos questionamentos.
Mas existe um problema ainda maior: a nossa memória eleitoral.
Muita gente se lembra da escalação da Seleção Brasileira de 1994, do gol perdido em uma final e até do vizinho que não devolveu uma ferramenta há dez anos. Porém, quando alguém pergunta em quem votou na última eleição, a resposta costuma ser: “Rapaz, acho que foi naquele… como é mesmo o nome dele?”
E as promessas? Essas desaparecem ainda mais rápido.
O candidato promete resolver o problema da saúde, melhorar a educação, gerar empregos e cuidar dos bairros. Passada a eleição, o eleitor guarda o santinho na gaveta, esquece o número e só volta a lembrar da política quando surge outra campanha. Quatro anos depois, o mesmo discurso reaparece, às vezes na boca do mesmo candidato, e parece novidade.
A responsabilidade pelo resultado de uma eleição não pertence apenas aos partidos, aos candidatos ou à Justiça Eleitoral. Ela também é do eleitor. Votar não é entregar um cheque em branco. É conceder temporariamente poder para alguém administrar recursos, tomar decisões e representar a população.
Por isso, o voto precisa vir acompanhado de fiscalização. É necessário guardar propostas, acompanhar votações, conferir gastos e perguntar o que foi feito. Quem elege e desaparece durante quatro anos não pode fingir surpresa quando o mandato termina em decepção.
Existe uma frase desconfortável, mas necessária: muitas vezes, o eleitor elege quem se parece com ele.
Quem acha normal furar fila pode acabar tolerando quem usa influência para obter vantagens. Quem vende o voto não deveria se espantar quando o eleito trata o mandato como negócio. Quem não presta contas nem dentro de casa dificilmente exigirá transparência de quem administra milhões.
Isso não significa que todo eleitor seja responsável pelos crimes de um político. Significa apenas que a cultura política nasce também nos pequenos comportamentos do cotidiano. A corrupção que indignava no noticiário pode começar na vantagem considerada “inofensiva”.
Escolher bem exige mais do que apertar algumas teclas na urna. Exige memória, responsabilidade e coragem para não votar por favor, amizade, medo, costume ou promessa impossível.
Na próxima eleição, antes de perguntar o que o candidato vai dar, talvez seja melhor perguntar o que ele já fez, como fez e para quem fez.
Porque o voto dura poucos segundos, mas a consequência costuma durar quatro anos — e, em alguns casos, muito mais.
Nelson Alves – Apenas um Cidadão Brasileiro







