O eterno disfarce do poder
1960:
“Este programa foi aprovado pela censura federal.”
2022:
“Esta mídia deve ser controlada.”
2026:
“Essa rede social deveria ser monitorada.”
Três épocas.
Três contextos.
Três justificativas diferentes.
E uma pergunta idêntica atravessando todas elas:
Estamos diante de proteção legítima ou de censura disfarçada?
A resposta costuma depender de quem está no poder e de qual lado da discussão o observador ocupa.
Quando o grupo que controla a narrativa é o nosso grupo, chamamos de responsabilidade.
Quando é o grupo adversário, chamamos de censura.
Quando favorece nossas ideias, chamamos de moderação.
Quando limita nossas ideias, chamamos de perseguição.
A história humana está repleta desse fenômeno.
Os censores de ontem não se viam como censores.
Os censores de hoje também não.
Nenhum controlador da informação acorda pela manhã pensando:
“Vou restringir a liberdade das pessoas.”
Pelo contrário.
Quase todos acreditam estar protegendo algo maior.
A pátria.
A democracia.
A moral.
A ciência.
A segurança pública.
As crianças.
A verdade.
O problema é que todas essas causas podem ser nobres.
E justamente por serem nobres tornam-se ferramentas poderosas para justificar mecanismos de controle.
A questão nunca é apenas o perigo que se pretende combater.
A questão é o poder que se cria para combatê-lo.
Porque perigos passam.
Estruturas de controle costumam permanecer.
Toda geração acredita estar vivendo uma situação excepcional.
Toda geração acredita que os riscos atuais justificam medidas extraordinárias.
E toda geração descobre, tarde demais, que poderes concedidos raramente retornam integralmente para a sociedade.
É fácil defender censura quando ela atinge apenas quem pensamos estar errado.
Difícil é manter a mesma opinião quando o controle muda de mãos.
Governos mudam.
Juízes mudam.
Empresas mudam.
Algoritmos mudam.
Interesses mudam.
Mas o instrumento permanece.
E então surge a pergunta que poucos desejam enfrentar:
Se você apoia esse mecanismo hoje, continuará apoiando quando seu maior adversário estiver no comando dele?
Essa é a prova de coerência.
Porque liberdade de expressão nunca foi criada para proteger discursos populares.
Discursos populares não precisam de proteção.
A verdadeira função da liberdade é proteger aquilo que alguém gostaria de silenciar.
Isso não significa que crimes não devam ser combatidos.
Não significa que organizações criminosas não devam ser investigadas.
Não significa que mentiras deliberadas não possam causar danos.
Significa apenas que combater um problema e controlar o pensamento não são necessariamente a mesma coisa.
Confundir uma coisa com a outra é o caminho mais curto para transformar exceções em regras.
A história está cheia de exemplos.
Cada época criou seus próprios censores.
Cada censor acreditava estar fazendo o bem.
Cada um possuía excelentes argumentos.
Cada um tinha apoio popular.
E quase todos deixaram para a geração seguinte a mesma herança:
mais poder concentrado e menos espaço para questionamento.
Talvez o verdadeiro debate nunca tenha sido entre direita e esquerda.
Nem entre militares e civis.
Nem entre conservadores e progressistas.
Talvez o debate seja muito mais antigo.
E muito mais perigoso.
De um lado está o medo.
Do outro está a liberdade.
O medo sempre pede mais controle.
A liberdade sempre exige mais responsabilidade.
E entre ambos existe uma zona cinzenta onde quase todas as sociedades acabam se perdendo.
O ponto cego é que a censura raramente chega anunciando seu nome.
Ela quase sempre bate à porta usando outro crachá.
Proteção.
Segurança.
Ordem.
Responsabilidade.
Combate ao mal.
E é exatamente por isso que ela continua sendo tão difícil de reconhecer.
O que muda não é a pessoa silenciada, mas a justificativa utilizada para silenciá-la.
Por Paulo Laurentino



